Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2014

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O Mosteiro e Basto (10)

Para efeitos deste capítulo, o que nos interessa é aquela que viria a fixar-se em Refojos, e é sobre essa que, daqui em diante, se falará. Os frades beneditinos começaram por se instalar na encosta poente de um pequeno morro, num sítio a que viriam a chamar Refojos, no início do século XII.
Fundaram ali as bases de um mosteiro, e já se tinha passado mais de um século quando D. Dinis era o monarca, o sexto da dinastia Afonsina, grande amante da agricultura.
No ano de 1307, e a convite do abade D. Estêvão, que era a entidade máxima do couto do Mosteiro, o Rei D. Dinis passou por estas terras. Nesse tempo já a ribeira seguia o curso que hoje tem, primeiro em recta e depois em semi-circulo da direita para a esquerda.
Já ali existia o moinho, à entrada do Lameiro, e o lagar de azeite também já se encontrava a funcionar, ao lado daquela curva mais apertada da ribeira. Havia já três olivais, todos com oliveiras de grande porte, estas plantadas havia já mais de cento e oitenta anos, eram todas mais que adultas e a sua produção de azeitona dava mais de cem almudes de azeite.
Era, sem qualquer dúvida, uma grande produção de azeite. Convirá ter bem presente que o azeite, naquele tempo, não se destinava apenas a tempero das comidas e à conservação das carnes. O azeite era a principal matéria-prima para iluminação. A iluminação de um Mosteiro consumia quantidades muito grandes de azeite.
O rei D. Dinis deteve-se por alguns dias visitando as principais quintas do couto e ficou extremamente bem impressionado com tudo o que lhe fora dado observar. Ele próprio redigiu, ali “in situ”, uma sentença de foral a favor da comunidade beneditina do Mosteiro de S. Miguel de Refojos.
D. Dinis era também um homem de letras. Foi por sua ordem que se criou a Universidade de Lisboa, primitivamente conhecida pelo nome de Estudo Geral, que mais tarde transferiu para Coimbra, ordenando que se usasse, nos documentos escritos, a língua portuguesa, em substituição da latina até então empregada.
Publicou, em 1290, uma lei que protegia os trovadores. Ele próprio era o melhor trovador do seu tempo.
Nenhum dos monarcas que antecederam D. Dinis tivera como local de nascimento a cidade de Lisboa. D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães, seus filhos e netos nasceram também nesta cidade, e foi a partir de D. Afonso III, este bisneto de D. Afonso Henriques, e após a conquista definitiva do Algarve, que o rei se instalou em Lisboa e passou a ser esta cidade a capital do Reino.
Por esta simples mas significativa razão, D. Dinis foi o primeiro rei português que teve como local de nascimento a cidade de Lisboa.
Quando se deslocou a S. Miguel de Refojos, no ano de 1307, a convite do abade D. Estêvão, o Rei D. Dinis contava já a idade de quarenta e seis anos e era um profundo conhecedor da história de Portugal, não fosse ele também um insigne trovador!
A viagem, entre Lisboa e as terras de S. Miguel de Refojos, foi longa e cansativa, não a fez toda de seguida, nem tão pouco com um único objectivo. O Rei Lavrador preocupava-se muito com o desenvolvimento agrícola e por isso fazia demoradas viagens ao longo de todo o país, em particular da parte mais litoral, fazendo uso das estradas que ainda se mantinham desde os tempos da ocupação romana.
Por isso mesmo, viajou acompanhado de uma numerosa comitiva e permaneceu por vários dias em diversas localidades, tais como Coimbra, Porto e Guimarães, antes de chegar a Refojos, entrando pelos lados de Baúlhe.
Enquanto se manteve nos aposentos de S. Miguel de Refojos, o mosteiro ficou à sua inteira disposição e os frades residentes acomodaram-se em tendas, que foram montadas na ampla praça de retiro que lhe ficava em frente, ladeada do lado sul pela ribeira e do lado norte por um caminho que seguia na base da encosta que descia desde o alto de Vinha de Mouros.
Por este tempo, já todo aquele espaço, que mais tarde viria a ser conhecido como a Quinta do Mosteiro, se encontrava murado em toda a sua extensão, uma espécie de grande círculo delimitado pelas bases dos montes do Pinheiro, do Alto do Monte e a meia encosta que dava para o Souto Longal. Um muro, todo em alvenaria, com dois metros e meio de altura, vedava toda aquela área e era circundado por um caminho por onde circulavam carros de bois e uma ou outra carroça puxada por cavalos.

***

Ao início do terceiro dia de permanência nas instalações do mosteiro, entendendo o abade chefe da instituição, o abade D. Estêvão, que Sua Majestade, o Rei, já deveria estar perfeitamente recomposto do cansaço da viagem, convidou-o para dar um passeio pelo interior da quinta, para tomar conhecimento, in loco, de todo o esmero com que a sua comunidade cuidava e explorava a terra.
Saíram do recinto pela parte que se denominava de traseiras e ficava voltada para nascente, atravessaram a ribeira e subiram aquela pequena encosta que dava para o ponto mais alto, uma pequena elevação que teria um desnível de uns vinte metros, e dirigiram-se para o sítio onde continuavam a existir vestígios de uma antiga cidadela, e na sua parte sul, voltada para o caminho, também se mantinha, devidamente perfilada, a estátua que ali fora encontrada pelos primeiros frades que àquele sítio tinham chegado, havia quase duzentos anos.
Pararam em frente da estátua, e foi o Rei quem exclamou:
- Um guerreiro!
- É, Majestade. Parece ser a estátua de um guerreiro. Aqui, no nosso mosteiro, corre a história de que deverá tratar-se de um guerreiro celta.

(Continua)

Por: José do Banido

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