Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2014

SECÇÃO: Opinião

“A árvore das patacas”

A Economia e as Finanças são duas faces fundamentais da vida dos povos. Descontando os eremitas, cada vez mais raros, e outros trânsfugas da sociedade, é uma realidade que não se pode negar. Normalmente, ainda que quase sempre mal distribuída, a riqueza das sociedades resultou, certamente, em inúmeras inutilidades, mas também em obras assombrosas do génio humano ou numa incontável lista de pequenas e grandes coisas que ainda hoje deliciam os nossos sentidos e a nossa perplexidade.
Mas as coisas são o que são e Portugal nestes e noutros tempos habituou-se a viver na margem do risco e, umas outras tantas vezes, à beira do precipício. País dos mais antigos da velha Europa, reconhecido depois do Tratado de Zamora, em 5 de outubro de 1143, conquistou a sua independência ao lado de poderosos vizinhos, quer cristãos quer muçulmanos, abalançou-se na odisseia marítima, por mares navegados e nunca navegados, com vícios e virtudes à mistura, afinal de contas como tantos outros que por-fiaram e porfiam neste planeta azul. E mais uma vez, na ciclicidade própria dos sonhos e devaneios, caímos, desesperamos, por que o país não é o reflexo dos nossos desejos e das nossas expectativas.
O Império desmoronou-se ou pelo menos uma certa ideia de nação imperial da qual o Salazarismo foi um dos derradeiros avatares. A Europa, nos tempos que correm, tem revelado muitas caras, tornando bem claro que ninguém poderá substituir o esforço que terá que ser irreversivelmente nosso para alcançarmos os objetivos que consideramos mais apropriados.
Nada de novo neste reino que já não é reino, deve acrescentar-se. Sempre vivemos para lá do possível e nem sempre da melhor forma. Buscámos as especiarias na Índia, brilharam os nossos olhos com o ouro do Brasil, transformámos africanos em mercadoria, arrancados, literalmente a ferros das suas origens. Aliás não fomos os primeiros, nem infelizmente os últimos. Construímos cidades, também fizemos países, reinventamos as artes da navegação e deixamos as nossas palavras e a nossa pronúncia pelo mundo.
É esta, assim, a história que nos faz, e renegá-la, além de ser um exercício completamente inútil, seria uma tarefa absolutamente ciclópica.
Chegados a 2014, a este tempo que habitamos, paira, para muitos, a amargura, o desalento. Parece que o mundo caiu ou está para cair em cima da nossa cabeça, para citar uma conhecida figura de banda desenhada. Somos submersos por hordas de comentadores, cronistas e adivinhos, cada um deles possuidor de uma algaraviada de números, uma rapsódia, uma mão cheia de nada, embora haja vítimas para contabilizar. Um Sistema Nacional de Saúde que revela crescentes dificuldades em cumprir alguns dos preceitos constitucionais fundamentais, um Sistema de Justiça que se afasta dos cidadãos, para lá da proverbial lentidão com que o mesmo se move, um Sistema Educativo que pode regredir décadas enquanto fator de mobilidade social e uma Segurança Social dependente, como nos bons velhos tempos, da caridade mais ou menos incipiente, mais ou menos festiva da caridade dominical.
Todos sabemos que não há milagres e que entre a realidade dos factos e a retórica bem intencionada existe uma grande distância que só o trabalho, a persistência e o saber podem superar. Daí a minha inquieta suspeita sobre os arautos do Eldorado ou sobre aqueles que por devoção ou cegueira negam as evidências que irrompem pelos noticiários.
Neste início de ano, constata-se que nada está ganho, nem de perto nem de longe. O caminho é longo e não depende, infortunadamente, apenas de nós. Há três dados, no mínimo, que merecem uma atenta reflexão: os juros da dívida pública, após uma duríssima austeridade, a dez anos rondam os cinco por cento; o crescimento económico é ténue e segundo o último relatório do Fundo Monetário Internacional não é necessariamente sustentável. Por fim o valor do valor da dívida pública portuguesa toca os 130% do Produto Interno Bruto (PIB).
Assim sendo, ou muito me engano, ouviremos falar durante muito tempo de taxas de crescimento anémicas, descidas e subidas de emprego e desemprego, de curta duração e de longa duração, de qualificação e de competitividade, e outras excursões teóricas para falar de empobrecimento e de desigualdade distributiva, se nada for feito por nós e por uma Europa que tem de pensar para lá das ilusões exclusivamente mercantilistas e monetaristas.

* Colaborador

Domingos Machado

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