Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2014

SECÇÃO: Recordar é viver

O poder local e o Partido Socialista

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Os quarenta anos de Democracia em Portugal

Caros leitores, o tema desta minha crónica vai ser um pouco diferente do habitual. Vai ser mais um artigo de opinião. Estamos a atravessar aqui em Cabeceiras de Basto, os últimos vinte anos do Poder Local, com o Partido Socialista à frente dos destinos dos cabeceirenses, ao mesmo tempo que se aproxima a data dos quarenta anos da Democracia em Portugal. Como tal, e como sou uma pessoa que, na altura do 25 de Abril tinha os meus vinte e um anos, acho que posso falar um pouco por alto desse tempo até aos dias de hoje, presenciado por mim. Fui de novo procurar no baú da minha memória algumas lembranças e vivências desses anos. Não é minha pretensão fazer uma análise política sobre estes anos do poder local, na sua maioria pelo Partido Socialista, nem é minha presunção. Posso dizer que sou uma “testemunha” da travessia destes quarenta anos e em especial os efeitos e a influência da Democracia nestes últimos vinte anos, com o Poder local, com o Partido Socialista.
Como atrás referi, não sou analista política, até porque, o que não faltam são “os senhores de toda a verdade” que aparecem todos os dias e sempre diversificados e, é vê-los em todos os canais da televisão! Diariamente, fazem previsões sobre todas as políticas de austeridade deste governo mas, realmente, poucos ou nenhuns acertam. Quase como o ex-ministro, Vítor Gaspar, que nunca acertou com as contas do défice. Agora, há uma nova moda de analistas ou comentadores ou o que lhes queiram chamar, que vêm de todos os partidos onde quase todos nos colocaram na situação grave que estamos a atravessar. Estes comentadores, em especial aqueles afectos aos partidos da coligação no Governo estão como, por assim dizer, nas “prateleiras”. A idade útil deles na política foi ultrapassada, digo eu, porque este Governo mais parece um “infantário” com um ou outro “avô” pelo meio. De maneira, como não riscam nada e também veem as suas reformas chorudas a desaparecerem “caem de cima para baixo” neles (Governo). Por exemplo, a Dra Manuela Ferreira Leite, Bagão Felix, Marques Mendes, Morais Sarmento, entre outros. Por outro lado temos o Engº José Sócrates a queixar-se do relacionamento entre o governo liderado por ele (PS) e o Presidente da República Dr. Cavaco Silva (PSD) que lhe fez a “vida negra”. Estes considerandos e conclusões que interpreto das palavras que ouço, quando “esses senhores da verdade” falam na televisão, onde, obviamente, são pagos e bem pagos por todos nós.
Com esta crónica/artigo de divagações, recordações, não pretendo melindrar de maneira nenhuma aqueles que porventura estiveram a dirigir os destinos em tempos passados em Portugal, a nível governamental ou a nível autárquico. Não é esse o meu propósito. Faço de conta que estou, neste momento, a conversar com alguém sobre o momento actual e vou fazendo uma retrospectiva, voltando atrás na história, fazendo a ligação até aos tempos de hoje e, ao mesmo tempo, também, fazer uma reflexão de todos estes anos após o 25 de Abril, do que recordo dos factos que “mexeram” com todos nós, cabeceirenses.
Não vou relatar minuciosamente tudo o que aconteceu naquela madrugada do 25 de Abril de 1974. Isso já foi muito falado até hoje mas não deixo de dizer que todos devemos estar atentos para não voltar a uma ditadura, embora me pareça que estamos numa quando ouço falar os nossos governantes. Como saudosista vou falar de algumas coisas soltas que ficaram mais impressas na minha memória.
Tinha vinte e um anos e dois filhos menores, morava no meu querido Largo da Raposeira, quando acordei pela manhã do dia 25 de Abril e me apercebi que alguma coisa grande tinha acontecido em Portugal. O anterior regime de ditadura tinha sido tomado de assalto pelos soldados revoltosos que fizeram a Revolução para a conquista da democracia em Portugal. Devo confessar que política, ditadura e democracia eram palavras estranhas para mim em 1974. Não o era para o meu marido, Manuel Carneiro, professor primário que, muitas vezes, participou nalgumas reuniões “clandestinas” e sabia da situação em que se encontrava Portugal. Mas como funcionário público num regime de quase cinco décadas, nunca comentou para não correr o risco de passar algo para os “ouvidos” dos “pides” que, segundo se dizia, havia muitos em Cabeceiras de Basto. Não sei quem eram e para o caso , passados quarenta anos, também não tem muito interesse.
Quando se deu este acontecimento pensei ser uma guerra civil ou outra coisa pior.
O 25 de Abril ou a Revolução dos Cravos, como foi apelidada, deu-se com todas as pessoas em uníssono a gritarem liberdade! Liberdade! Mas, como todas as mudanças, neste caso, passar de uma ditadura de quarenta e oito anos para uma Democracia a “nascer”, trouxe, também, desvarios e euforias, abusos em nome dessa mesma Liberdade. Tudo valia para se justificarem certas acções. Cometeram-se muitos excessos, perseguições nos empregos, aos possíveis “pides”, qualquer chefe que se fizesse respeitar era logo apelidado de fascista e pedia-se a sua demissão ou a exoneração do cargo. Formaram-se imensos grupos políticos, indo da extrema direita à extrema esquerda. Acompanhávamos pela televisão a preto e branco os acontecimentos sobre alguns atentados com bombas nalgumas sedes partidárias. Diziam que eram executados pelos grupos mais radicais. Aqui em Cabeceiras, bombas não ouvi falar, mas de tiros de caçadeira que foram dados… acho que foi verdade. Não vou falar dos nomes que ouvi dessas pessoas, porque eram “boa gente” mas a política deu cabo de muita amizade, já vai há muitos anos e possivelmente alguns já faleceram. Isto foi um aparte. Quero com isto dizer que, para além das coisas boas, como a liberdade de expressão, os direitos civis, mais justiça, mais educação, mais saúde (ao contrário de hoje) que nos trouxe a mudança do regime, tenho que dizer que, as pessoas nas suas euforias em enquadrar num partido que mais lhe conviesse deram cabo de grandes amizades e começaram a fazer o “separatismo”, mesmo no seio das grandes famílias. Eu senti esse separação na pele quando escolhi um partido. Nos meios pequenos onde todos se conheciam uns aos outros foi devastador! Na altura das eleições a situação tendia a piorar, quer para as autarquias, quer para o Governo ou Presidência da República. Nessas alturas era certo que se olhava de lado para os “inimigos”, como aquele ditado conhecido “se não és por mim és contra mim”, mais ou menos isso. Falo isto, porque também passei pelo mesmo. Desde o 25 de Abril de 1974, devo dizer que foi um processo complicado para as pessoas compreenderem que as palavras Democracia e Liberdade não serviam para justificar actos inqualificáveis.
Mas como tudo, o tempo foi atenuando os atritos e as mentalidades foram-se abrindo à nova era que Portugal estava a atravessar. Os partidos políticos afirmaram-se e, ao longo dos anos, outros mais radicais foram desaparecendo do calendário. Os governos que, no princípio pouco “aqueciam” o lugar, deixaram de ser provisórios para governarem os mandatos nos tempos devidos.
Muitas coisas teria que dizer sobre esses tempos, na introdução desta crónica sobre alguns apanhados da minha memória a nível nacional mas, quero sobretudo, aqui realçar que Cabeceiras de Basto andou, cerca de vinte anos, a seguir à mudança de regime um pouco à deriva. Não houve mudanças significativas no crescimento da nossa terra. Foi um concelho que foi ficando para trás principalmente com a falta de aproveitamento dos fundos comunitários que serviriam para criar infra-estruturas, como melhores meios de comunicação. Os parques industriais eram quase inexistentes, as indústrias eram na maior parte familiares que laboravam, como as madeiras, por exemplo. Rompimentos de caminhos ou estradas pelo interior pouco ou nada. Alcatrão muito raro, era mais utilizado o “saibro”. No sector das águas, também estávamos deficitário nas redes de abastecimento e na qualidade das águas, enfim, quando demos por nós verificamos que estávamos na cauda dos concelhos do Distrito de Braga . Poderia até dizer que era o pior concelho das Terras de Basto. Enfim, não podíamos estar piores. Durante, mais ou menos catorze anos, as coisas foram-se agravando até chegar ao final do ano de 1993 com as eleições Autárquicas. Os cabeceirenses cansados de ver a sua querida terra nessa “pasmaceira”, na “resignação” decidiram dar uma reviravolta e, através do seu voto nas urnas, dar uma oportunidade ao maior partido da oposição, o Partido Socialista de Cabeceiras de Basto.
Em boa hora o fizeram! O PS, com o Engº Joaquim Barreto a encabeçar a lista à Câmara com uma grande equipa e com o senhor Valdemar Queirós Gomes a liderar a da Assembleia Municipal, também ela, com bons elementos, venceram. Posso dizer, e podem testemunhar aqueles que assistiram àquele momento que foi considerado um “25 de Abril” em Cabeceiras de Basto!
No dia 5 de Janeiro de 1994 passaram vinte anos da tomada de posse do Partido Socialista na Câmara de Cabeceiras de Basto. Para dizer mais correctamente, foi o Engº Joaquim Barroso de Almeida Barreto, no leme com a sua equipa de grandes homens e mulheres, que deu início à grande transformação que se deu nesta linda Terra. A partir desse dia tudo começou.
Para mim e para o povo desta terra, a reviravolta iniciou-se quando as máquinas de terraplanagem iluminadas pelos grandes camiões romperam uma grande avenida através dos campos da Quinta do Mosteiro. Foi um medir de forças contra todos aqueles que tudo fizeram para travar as novas mudanças operadas a partir daquele mês de Janeiro de 1994. Não conseguiram e ainda bem! Para mim esse rompimento considerei-o um começo histórico, um marco do qual a partir dali transformou Cabeceiras de Basto.
Não foi fácil! Tiveram que apaziguar os mais cépticos, chorosos e acomodados que pediam “Ó tempo volta para trás” que resistiam dentro da própria Autarquia. Com o tempo, as pessoas foram aceitando as mudanças e foi ver Cabeceiras de Basto a “explodir” em crescimento em todas as direcções dentro do concelho. Cresceu em novos caminhos e estradas, fizeram-se as ligações entre todas as freguesias, com alcatrão, para os locais mais longínquos, mesmo até aqueles locais com pouca população, onde muitas das vezes em vez de pessoas se via gado a atravessar o tapete de alcatrão. Com melhores meios de comunicação foram crescendo os parques industriais onde se foram instalando as fábricas têxteis, as madeiras, as mecânicas, bombas de gasolina, etc.
O parque automóvel camarário foi crescendo e sobretudo foi melhorado na segurança do transporte das crianças.
Claro que quando se fazem mudanças drásticas nem sempre é fácil mas era imperioso serem feitas.
Como resultado de uma boa governação camarária, conjuntamente com a colaboração das freguesias, foi instaurada a confiança e sobretudo, boa credibilidade. A construção civil cresceu em todas as freguesias devido à procura de casas, quer por pessoas residentes, como procuradas por pessoas de fora que queriam viver ou ter uma segunda casa em Cabeceiras de Basto.
Tudo isto porquê?
Porque além do clima, do verde, das águas puras, do sossego, da proximidade, etc., começaram a ser construídas infra-estruturas importantíssimas e necessárias na vida de qualquer pessoa tais como: o mercado municipal, as piscinas de água fria e quente, em vários pontos do concelho, os gimnodesportivos, o Centro de Saúde, o Internamento, os centros escolares e a Escola Básica e Secundária, a compra e recuperação de imóveis públicos de serviços extintos como as casas dos guardas florestais ou cantoneiros, as Bibliotecas das escolas, da Casa da Cultura, a Biblioteca Municipal Dr. António Teixeira de Carvalho, no Arco de Baúlhe, do Centro de Emprego de Basto, dos Museus da Lã, o Museu das Terras de Basto no Arco de Baúlhe, o Centro Hípico, o Aeródromo e Hipódromo no Oural, Abadim, o Museu de Arte Sacra do Baixo Tâmega, no Mosteiro de Refojos, o arranjo do órgão do Mosteiro, a recuperação das casas dos caseiros do “Mosteiro de Dentro” transformando-as (parte delas) naquela que é hoje considerada por todas as pessoas que a visitam “a menina dos olhos dos cabeceirenses - a Casa do Tempo - que recomendo vivamente a visitarem, mesmo pegada ao nosso Mosteiro Beneditino.
Nestes vinte anos muitas mais coisas aconteceram para bem desta terra mas não poderia acabar este texto sem falar no renascimento das antigas tradições, algumas há muito esquecidas outras em risco de desaparecerem. Falo do cantar das Janeiras, do folclore, das lavouras feitas com as juntas de gado, das desfolhadas, das festas joaninas ou do S. Pedro, do cortejo etnográfico, onde através dele são recriadas todas as actividades e tradições próprias de cada freguesia, das Comemorações do 25 de Abril que nunca deixou de se comemorar, conjuntamente com as Associações, principalmente as desportivas.
Muito teria que falar sobre o Poder Local nestes últimos vinte anos mas as coisas estão à vista de todos quantos percorrem as nossas aldeias e fazem as devidas comparações. Certamente alguma coisa pode ter corrido menos bem mas tenham a certeza que tudo quanto se fez foi em prol do bem estar da nossa terra e das suas gentes.
Agradeço a todos aqueles que dirigiram os destinos do nosso querido concelho nestes vinte anos e o transformaram neste “oásis” para que os nossos jovens, homens do amanhã sintam orgulho naqueles que muitas vezes sacrificaram horas ao seu seio familiar e que tantas vezes foram incompreendidos.
Caros leitores, por quem tenho o maior respeito e consideração, ao escrever este crónica/artigo de opinião não pretendi melindrar ninguém em especial, apenas quis focar acontecimentos que marcaram a história de Cabeceiras de Basto. Esta foi a maneira que eu vi e vivi o 25 de Abril e outros terão outra opinião que obviamente respeito.

Muito teria a dizer mas a página é curta para tantas coisas. Onde eu queria chegar com tudo o que recordei atrás foi para dizer aqui e testemunhar que estou feliz por todas estas mudanças maravilhosas no meu concelho, no crescimento harmonioso que não tirou a beleza natural desta terra mas, antes, a aumentou tornando-a o centro da curiosidade de quem nos visita pela primeira vez e que promete voltar. Nós temos muito Turismo de Habitação e muito boa gastronomia.
Quero salientar aqui que todos estas considerações são a minha opinião e são as minhas lembranças. Não falei de tudo porque todos vós as conheceis.

fernandacarneiro52@hotmail.com

*Colaboradora

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