Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2014

SECÇÃO: Opinião

Bucos na visão de Sant''ana Dionísio
"Aldeia alta e serrana, de feição quase primitiva"

É assim que Sant’Ana Dionísio introduz a sua visita à freguesia de Bucos, efectuada por volta dos anos sessenta, quando percorreu todo o Entre Douro e Minho para a elaboração do “Guia de Portugal”, uma das obras mais importantes sobre o nosso país, fruto do dinamismo do então director da Imprensa Nacional, Raul Proença, de que Sant’Ana Dionísio foi um exce-lente continuador.
Natural do Porto, onde nasceu em 1902, aí se formou em Filologia e, mais tarde, em Filosofia. Foi professor liceal em Vila Real, Guimarães e no Porto. Dilecto discípulo do grande filósofo da Lixa, Leonardo Coimbra, divulgou a sua obra em livros e confe-rências e em múltiplos artigos publicados em jornais e revistas culturais.
Em o “Guia de Portugal” descreve o nosso concelho, dando importância à vila, ao Mosteiro e a Cavez. Mas Bucos ocupa um lugar especial que, muitos anos mais tarde, no seu “Velho Minho” (1978) vai voltar a relembrar.
É do “Guia de Portugal” (4º vol. – II tomo) que ousamos divulgar o texto sobre Bucos que Sant’Ana Dionísio escreveu.

“Desse pendor fragoso e íngreme, as perdizes, quando descobertas, descem como flechas, sobre o profundo corgo que, do outro lado, na vertente da ribeira de Baúlhe, se reveste de alguns tufos de pinho, tojo e torga de barbas.
Um pouco mais a Poente, ergue-se outro alcantil, petrifi-cado e agreste. São os chama-dos Fojos. Daí se dominam as rechãs e fronteiras de Abadim e Maçã e se faz face ao sobranceiro Talefe, da serra da Cabreira (p. 868), miradouro admirável de meia província de Entre Douro e Minho. Enquanto por essas paragens planálticas, ricas de pastagens tenras, se espraiam em cíclicas temporadas de transumância, as tranquilas manadas de gado barrosão, que os lavradores do fundo enviam em regime comunitário, - nestes penhascos feios do lado de cá, soltam, altas horas da noite, suas vozes, regougadas, de ferocidade e angústia, os bichos fedorentos e de cauda comprida, esqueléticos e incansáveis, que se chamam lobos.
Cumprindo uma espécie de anátema, esses bichos, ricos de astúcia e inquietação, esfomea-dos e desesperados, andam sempre de serra em serra.
Aqui, o seu trânsito usual é a passagem da Cabreira para o alto dos Fojos, vencendo o curso do rio Peio pelo pontilhão de Bucos e subindo logo, lestos, para a linha cumeeira das fragas, via predilecta desta espécie de fera nocturna, de faro finíssimo e olhar fosforescente. Segundo o testemunho dos pastores e boieiros desta corda montanhosa, é rara a noite em que não se vê, a descer ou a subir a encosta, o vulto esquivo e o fuzilar característico de algum lobo que faz trânsito nas chamadas horas mortas.
Deixando, um pouco além de S. Nicolau, aldeia airosa, com uma antiga moradia brasonada, a Casa de Mourigo, rodeada de viçosos hortejos e pomares – desce-se, por uma estradita que nos permite transpor, ao fundo a ribeira de Bustelibeme e daí seguir, em subida íngreme, para a encosta fronteira. Em breve estamos na primeira das três aldeias sobrepostas e serranas do mesmo nome: Bucos, Vila Boa de Bucos e S. Bartolomeu de Bucos. A primeira, e a mais baixa, é Bucos. Mais acima, a uns 400 metros de altitude, no meio de algumas brandas revestidas de erva húmida, está Vila Boa de Bucos, com os seus casinhotos denegridos, muito chegados uns aos outros, como que para se defenderem melhor da sensação de frio universal que vai do céu escuro, nas intermináveis noites de invernia.
Vencendo mais uns dois lanços de encosta pastoril, al-cança-se, finalmente, a uns 600 m de altit., a aldeia mais típica das três gémeas: S. Bartolomeu de Bucos.
Um pastorzito, de dez a doze anos, com a capucha pelos om-bros, vigia, da própria borda do estradão, um pequeno rebanho de ovelhas muito brancas, que se vê na reprega da pradaria alta, como uma marcha de ar-minho sobre o fundo verde, tão macio, deste flanco da indefinida montanha, meia oculta na neblina.
Ao dobrar de um cotovelo rochoso, que a carreteira cortou, surge o imprevisto vilarejo montanhês.
Lá está a concreta aldeia serrana, toda embrulhada na sua modéstia morena e séria, de terra originária, onde se vive por assim dizer fora do tempo.
Sob a neblina fina e crepuscular das alturas dormitam os cumes. Não se ouve uma voz. Na sua perfeita quietude, como uma alma similar da serra, a aldeia concentra-se, preparando-se para a noite, Ao lado de cada casinhoto encardido e pobre, quase todos ainda cobertos de colmo, recorta-se o perfil de um espigueiro. Aí se guarda o grão para a fornada de cada quinzena. O forno é um só e é de todos. Cada casebre é de um e é de todos. Se um adoeceu o vizinho lá está para ver o que há e tratar do que é mais preciso. Todos são vizinhos e todos se tratam por tu. É o tratamento lusitano e bíblico, entre velhos e novos, pobres e remediados.
Perante a grandeza da montanha, os lobos que passam no escuro, as estrelas que cintilam na imensidade, os discretos moradores de Bucos vivem e morrem como decerto há três mil anos viviam e morriam os mora-dores dos castros e das citânias, cujos pálidos e tácitos vestígios ainda se encontram, hoje, aqui e além, no cimo dos montes.”
No próximo número espreite-mos Bucos em o “Velho Minho”.

(continua)

* Colaborador

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