Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-02-2014

SECÇÃO: Informação

Festa das Papas deu ‘pontapé de saída’ ao Ciclo de Tertúlias na Casa do Tempo

A ‘Festa das Papas (S. Sebastião): origem, rituais e memória popular’ foi o tema que esteve em debate no arranque do ciclo de tertúlias que a Casa do Tempo irá promover mensalmente, reunindo, neste primeiro encontro, individualidades ligadas àquela antiga romaria que se realiza todos os anos no dia 20 de janeiro de forma alternada, ora no lugar do Samão em ano ímpar, ora no lugar de Gondiães em ano par, honrando S. Sebastião ‘advogado da fome, da peste e da guerra’ e renovando a promessa feita pelos seus antepassados.
O painel de oradores contou com a presença dos presidentes da Câmara e da Assembleia Municipal de Cabeceiras de Basto, Dr. China Pereira e Eng. Joaquim Barreto, da Dra. Fátima Marinho, autora do trabalho académico ‘Festa: na harmonia ou na luta – a fronteira do Nós’, da professora Cecília Carvalho em representação do GAS - Grupo Associativo do Samão e do cabeceirense Dr. Manuel Gonçalves, natural do Samão e que se tem dedicado ao estudo da história local.
Nesta iniciativa marcou também presença o presidente da Junta de Freguesia da União de Freguesias de Gondiães e Vilar de Cunhas, Eng. Manuel Ramos.
Organizada pela Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, com o apoio do Grupo Associativo do Samão e daquela União de Freguesias, esta tertúlia teve lotação esgotada.
De acordo com a informação divulgada, o presidente da edilidade cabeceirense disse que “a Câmara Municipal quer continuar a promover este ciclo de tertúlias”, colocando em evidência a riqueza do concelho no que se refere ao património, à tradição e à história. E destacou: “temos de conhecer, discutir e divulgar” a nossa história às gerações futuras para que ela possa ser perpetuada no tempo.
China Pereira reafirmou que “a Câmara Municipal assumirá sempre as suas responsabilidades no senti-do de manter vivas a tradição e a cultura” de Cabeceiras de Basto.
Na sua intervenção, o presidente da Assembleia Municipal, Eng. Joaquim Barreto, salientou a importância de escrevermos a nossa história, colocando essa mesma história e também a nossa cultura ao serviço da economia.

Joaquim Barreto desafia para a criação de caminhos de S. Sebastião

Considerando que a Festa das Papas é uma tradição comum às aldeias do Samão e Gondiães em Cabeceiras de Basto, Salto em Montalegre e Couto Dornelas em Boticas, Joaquim Barreto lançou o desafio para a criação dos ‘Caminhos de S. Sebastião’, recorrendo-se a fundos comunitários através de uma candidatura intermunicipal para a sua implementação e dinamização. Para o presidente da Assembleia Municipal, esta iniciativa reforçará “a força e a abrangência” que a Festa das Papas tem a nível nacional, valorizando-se um território que se pretende integrado, inclusivo e sustentado.
Coube a Manuel Gonçalves, que se tem dedicado ao estudo da história local, abordar as origens da Festa das Papas, afirmando que, no seu entender, o início desta festa é bem mais recente do que aquele que vem sendo referido pela voz popular que aponta para a Idade Média o começo da Festa das Papas nas aldeias do Samão e Gondiães. Manuel Gonçalves fala de uma tradição com pouco mais de 200 anos. “As pessoas do Samão, Gondiães, e muitos outros, falam da Idade Média, recuam à Peste Negra em 1348, nessa altura o lugar do Samão ainda nem existia. Os do Conto Dornelas (Boticas) falam das Invasões Francesas, princípios do século XIX”, referiu.
De acordo com Manuel Gonçalves, “o manuscrito do Padre da Seara pode ajudar. Padre João Barroso Pereira da casa da Alcassus, batizado em 1682 e rezado missa nova em 4 de Abril de 1709, foi pároco de Dornelas e Salto. Fala-nos de grande calamidade nesta zona nos anos de 1734, 1738 e 1739. O ano de 1734 foi estéril e de grande seca por não haver chuva e quase todas as fontes secaram. Em 1739 não houve mel, nem cera, nem enxames”.
O professor e historiador disse também que “Sebastião está associado, pela sua proteção, às guerras, pestes, pragas, incêndios e grandes calamidades”, finalizou.

‘Festa das Papas’ tradição de fé

Em representação do GAS - Grupo Associativo do Samão, a prof. Cecília Carvalho explicou os rituais da Festa das Papas. Há anos atrás, houve uma peste muito grande e as pessoas viraram-se para S. Sebastião. Prometeram que se não morresse mais ninguém, fariam uma festa e que davam de comer a quem lá fosse. E assim foi. Davam o que tinham na altura, que era pão, carne de porco, vinho e papas. A festa nasceu a partir daí”, contou.
A festa foi aumentando e quando começou a ser mais conhecida passou a ser feita no campo, até aos dias de hoje.
Faz-se tudo como se fazia antigamente. A figura de S. Sebastião é dada a beijar e quem quiser dá a esmola. A preparação da festa começa a ser feita com uma semana de antecedência devido ao número elevado de broas, na noite de 18. Os homens vão pelas portas recolher a carne ou o dinheiro, e à meia noite do dia 19 começam a fazer-se as papas, que uma vez colocadas nas tigelas, ficam na Casa do Santo. Esta casa é onde está o forno para cozer o pão e uma lareira para fazer as papas, é lá, também, que se guarda tudo que pertence ao Santo, os potes, toalhas, tigelas, entre outros utensílios.
Depois das papas serem feitas e tiradas para as tigelas para o dia seguinte, na madrugada do dia 20 são feitas mais papas para quem chega de manhã as comer quentes. As papas do Samão e de Gondiães são feitas com a água, onde se coze a carne do porco e farinha milha. Os rolos de linho estendem-se no chão e depois põe-se uma tigela de papas, uma broa e um prato com uma posta de carne de porco, o vinho é distribuído pela mesa adiante por um senhor que o reparte para quem quiser.
A figura de S. Sebastião é dada a beijar e quem quiser dá a esmola.
Destacando que “a mezinha – papas – tem poder porque é feita com muita fé e é com muita fé que é comida”, Cecília acredita que a tradição tem futuro “acho que enquanto houver um filho da terra a festa vai-se continuar a fazer”, rematou.

Emigrantes vêm à ‘Festa das Papas’ por amor diz Fátima Marinho

Na sua intervenção, Fátima Marinho abordou a memória popular, afirmando que “os emigrantes vêm todos os anos à Festa das Papas por amor”. A autora do trabalho académico ‘Festa: na harmonia ou na luta – a fronteira do Nós’ destacou, ainda, como âncoras da Festa das Papas “o seu caráter único, o seu vigor extraordinário e a sua dinâmica singular”.
Apesar da sua simplicidade, a Festa das Papas é uma das mais típicas romarias concelhias que atrai, anualmente, às aldeias da serra milhares de visitantes provindos das mais diversas localidades da região.

















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