Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-01-2014

SECÇÃO: Opinião

“A Festa das Papas”

Ciclicamente, a 20 de Janeiro, com periocidade anual, evoca-se a sobrenaturalidade de S. Sebastião, mártir dos primeiros anos do Cristianismo, morto em Roma entre os anos 302/304 d.C.
A sua invocação, em Cabeceiras de Basto, é especialmente sentida pelas gentes de Gondiães e do Samão que celebram rotativamente uma memória entranhada nas suas tradições e da qual se perde a origem nas múltiplas versões que a tentam compreender e explicar.
Na última sexta feira de Janeiro, marcada pela invernia, a Casa do Tempo acolheu no seu interior um vasto conjunto de pessoas a-traído pela conversa, pela amenidade do espaço, mas, sobretudo, pelo tema que se anunciava para essa noite: a Festa das Papas.
O modelo de tertúlia serviu para que entre os oradores convidados, a Professora Cecília Carvalho, o Dr. Manuel Gonçalves e a Dr.ª Fátima Marinho, e o público presente se tivesse estabelecido uma forte empatia na descoberta de aspetos tão singulares quanto inexplicáveis desta idiossincrasia cultural.
Desde a dimensão vivencial de quem experimenta a festa na sua dimensão religiosa, indubitavelmente radicada numa religiosidade mais profunda e autêntica, aqui e ali marcada com os traços de tradições ancestrais, profundamente comunitárias: a refeição que se partilha em comum, o forno em que se coze a broa consagrada à divindade, até aos cultos mais remotos, correlacionados com a fertilidade, da qual o pão não deixa de ser também um pormenor bem significativo, como, por outro lado, a importância da memória, nem sempre de factos verdadeiramente ocorridos, mas construídos e ficcionados pela comunidade para reforço e coesão da sua própria identidade enquanto elemento de diferenciação cultural.
Claro está que não deixaram de ser mencionados pormenores históricos da festividade, aliás, o debate centrou-se, em grande parte, exatamente sobre a sua proveniência e respetiva datação, tendo sido aventadas algumas hipóteses bem interessantes, sobre-tudo no sentido de afastar algumas formulações mais ousadas e de longevidade problemática, pelo menos sem fundamento documental conclusivo.
Uma coisa pareceu certa: aparentemente, de uma festa que acontece ciclicamente, sem um aparato que a obrigue a recorrer aos suspeitos e aos profissionais do costume, normalmente artistas de qualidade discutível que tudo banalizam e vulgarizam, acontece, faça frio ou chuva, seja a neve uma ameaça ou uma realidade nas serras, uma festividade que convoca irreversivelmente os habitantes dos lugares, mas também muitos forasteiros que aí surgem, seduzidos pela espontaneidade dos costumes, pela recordação de outros tempos, pela genuidade dos sentimentos, pela partilha do vinho, do pão e da palavra, espécie de ceia onde todos comungam do mesmo destino.
Não há dúvida que é algo cada vez mais raro, numa persistência e continuidade que não se sabe aclarar, mas tão só constatar, numa sociedade onde a voracidade dos acontecimentos, a informação em tempo real, retiram momentos e espaços para o simples facto de se existir na quietude e na transparência das paisagens. Não sei, verdadeiramente ignoro, se devemos atribuir este milagre a S. Sebastião ou simplesmente às gentes de Gondiães e do Samão, co-mo guardiães que são de uma história que lhes pertence.

* Colaborador
Domingos Machado

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