Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-01-2014

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (184)
O papa, quatro sem abrigo e um cão

Estou certo de que o hipotético valor desta crónica vai residir, única e exclusivamente, no título que leva. O mais importante de tudo é, sem qualquer dúvida, a força do título.
A notícia abriu os serviços noticiosos das televisões na tarde de dezassete de Dezembro do corrente ano de 2013, e tinha a ver com a celebração do septuagésimo sétimo aniversário de Sua Santidade, o Papa Francisco, notícia que também saiu nos jornais do dia seguinte. O título genérico era: “Papa come-mora aniversário rodeado de sem abrigo”.
No seu desenvolvimento, no canal televisivo que eu vi, era referido que o papa tinha convidado quatro sem abrigo para tomar o pequeno almoço com ele, em sua casa, no dia em que completara 77 anos de idade.
Na imagem que saiu no Jornal de Notícias do dia seguinte, dezoito de Dezembro, uma fotografia tirada no exterior das instalações, Sua Santidade aparece rodeado por um outro sacerdote, três homens, os tais sem abrigo, e um deles, o que se encontrava no meio dos outros dois, segurava ao colo um cão devidamente protegido do frio pelas bandas do casaco que na ocasião envergava.
Para mim, o quarto sem abrigo, de que falava a notícia do telejornal, deveria ser mesmo o cão, pelo que, o título mais correcto, seria: “o Papa, três sem abrigo e um cão”. Três ou quatro, tanto faz, o importante é a simbologia, e já muita gente o tem referido, que este Papa promete.
Sempre ouvi falar, desde mui-to tenra idade, já que fiz a minha primeira comunhão quando acabava de completar seis anos, de Suas Santidades os Papas. Os párocos das nossas igrejas referiam-se a eles com muita frequência. Porém, naquela minha tenra idade, e mesmo mais crescido, nunca liguei grande importância ao assunto, como é de todo bom de ver.
A primeira vez que ouvi falar mesmo a sério de um Papa, foi aquando da vinda de Paulo VI a Fátima. Isso aconteceu no dia 13 de Maio de 1967 e eu encontrava-me a prestar serviço militar no Quartel General da Primeira Região Militar, sito à Praça da República (Campo de Santo Ovídio) da cidade do Porto.
Contrariamente ao que alguns poderão pensar, Paulo VI foi o primeiro Papa a visitar o nosso país e fê-lo por ter vindo a Fátima. A viagem de Sua Santidade foi preparada no âmbito do pro-cesso comemorativo do cinquentenário das aparições.
O regime então vigente em Portugal mostrava-se um pouco desapontado com as atitudes de Paulo VI, em particular o facto de ele ter realizado uma visita à cidade indiana de Bombaim, em Dezembro de 1964, e de aí ter condecorado as autoridades indianas com a mais alta conde-coração concedida pelo Vaticano a um pais de religião não católica.
Vivia-se ainda o rescaldo da ocupação dos territórios do Estado Português da Índia, por tropas da União Indiana, e Salazar não tolerava isso. A viagem de Paulo VI a Portugal cingiu-se à sua deslocação directa ao Santuário sem qualquer tipo de escala em outro ponto do país, muito menos na capital, Lisboa.
O avião papal voou directamente de Roma para a base aérea de Monte Real, a mais próxima do Santuário. Américo Tomás e Salazar não deixaram de se deslocar ao local das comemorações, mas tudo foi feito na mais pura das discrições. Salazar não gostava do Papa.
Paulo VI, de seu nome próprio Giovanni Battista Enrico António Maria Montini, que era italiano, natural de Concesio, exerceu o pontificado no período que medi-ou entre 21/06/1963 até à data da sua morte, que ocorreu em 06/08/1978. Quinze anos de permanência no cargo.
Sucedeu-lhe João Paulo I, que ocupou o cargo ape-nas por um período de 33 dias, tendo falecido.
O verdadeiro sucessor de Paulo VI foi João Paulo II, de seu nome próprio Karol Josef Wojtyla, natural de Wadowice, Polónia, exerceu o pontificado entre Outubro de 1978 e Abril de 2005. Morreu a dois de Abril daquele ano de 2005. Vinte e sete anos à frente do Vaticano.
João Paulo II foi o Papa que mais devoção dedicou ao Santuário de Fátima. Foram três as vezes que ali se deslocara, sempre na data das celebrações do mês de Maio, em 1982, 1991 e 2000.
A seguir foi o pontificado de Bento XVI, de seu nome próprio Joseph Aloisius Ratzinger, natural de Marktl am Inn, Alemanha. Foi eleito Papa em 19/04/2005 e abdicou em 28/02/2013. Bento XVI também visitou Fátima, uma vez, em Maio de 2010. O seu pontificado fora de oito anos.
Bom, agora é tempo de falar um pouco daquele que, sem qualquer dúvida, está a revolucionar os meandros da Santa Sé. O Papa Francisco é uma pessoa excepcional. Aliás, todos os papas que eu conheci têm sido pessoas excepcionais, uns mais populares do que outros, aqueles mais intelectuais do que estes, mas todos eles pessoas de grande craveira moral, sem dúvida. Também, e isso deve ser dito, outra coisa não seria de esperar.
De seu nome próprio Jorge Mário Bergoglio, nasceu em Buenos Aires, Argentina, a dezassete de Dezembro de 1936. Foi entronizado em 19/03/2013.
Sendo argentino de nas-cimento, ficou célebre uma das suas primeiras frases, quando tomou conhecimento de que acabara de ser eleito: “Parece que os meus irmãos cardeais foram quase até ao fim do mundo para escolher um Papa!”. Pode muito dizer-se que este é o Chefe da Igreja Católica que veio das “Pampas”.
As atitudes, o estilo de vida que se lhe conhece, como o de se deslocar numa carrinha modelo “quatro L”, muito velha, e calçando sapatos com as solas furadas, a visitar pobres em bairros periféricos da capital do seu país, quando era Cardeal de Buenos Aires, são trunfos que lhe permitirão ganhar o jogo que é a transformação do Vaticano naquilo que sempre deveria ter sido, um exemplo de humildade e não um pólo de ostentação e de riqueza que é aquilo que ainda hoje por lá se vê!
Eu aposto as minhas fichas todas no Papa Francisco. Não esquecerei, nunca, aquele belíssimo quadro, a imagem do Papa de frente para os três sem abrigo e o seu cão. Este último, o cão, com um lacinho ao pescoço e as duas orelhas com as campânulas voltadas para a frente, estava mesmo atento às palavras de Sua Santidade. O outro Francisco, o de Assis, também falava com os animais!
Até o cão do sem abrigo é amigo do Papa Francisco!

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador

Por: José Costa Oliveira

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