Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-01-2014

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O MOSTEIRO E O BASTO (8)

Ali era o centro de um espaço que se mostrava extraordinariamente abrigado de todos os lados, era de facto uma vasta área geográfica rodeada de cumes formando dois círculos concêntricos: o primeiro, o círculo interior, era delimitado pelos montes de Vinha de Mouros, do Pinheiro e do Alto do Monte; o segundo, o círculo exterior, era delimitado pelos montes da Baldosa, da Seara, da Ranha e de toda a cordilheira da Penouta, esta, a cordilheira da Penouta, a um nível ligeiramente superior ao de todas as restantes elevações. Um perfeito oásis, disso já não tinham quaisquer dúvidas os dois frades beneditinos.
Quando os dois frades beneditinos tiveram aquela conversa na beira do caminho, depois de se terem deparado com a estátua do guerreiro que duvidavam personificasse um soldado romano, inclinavam-se mais para que fosse a estátua de um soldado celta, já o Conde D. Henrique tinha morrido, e o Condado Portucalense era governado pela viúva do Conde, a Condessa D. Teresa de Leão.
Na verdade, o Conde D. Henrique, que tinha uma fé ardente e se deslocara por diversas vezes, em viagens e peregrinações, tanto a Santiago de Compostela como à Terra Santa na Palestina, acabara por morrer no decurso de uma dessas viagens, o que aconteceu em Astorga, uma cidade do reino de Leão, no ano de 1114. Os seus restos mortais foram trasladados para a Sé de Braga onde jazem as suas cinzas.
Com autorização da regente do Condado, a Condessa D. Teresa, foram iniciadas as obras de regularização da Ribeira de Penoutas em toda a extensão da chã, exactamente desde o ponto mais a oeste, logo que o seu curso entrava em terreno plano, até à fonte e ao pontilhão que se encontravam na extremidade leste da chã e do sapal, imediatamente antes de se iniciar aquele pequeno conjunto de cascatas, que já se conhecem, e onde a ribeira entrava em curva para a direita.
As obras implicariam que o novo curso correria o mais possível pelo lado direito da chã e do sapal, quase em linha recta em cerca de metade da sua extensão, seguindo-se uma curva de grande raio na outra metade do percurso.
No alinhamento do início da curva do novo curso da ribeira, e dali para nascente, iniciar-se-iam, tão cedo quanto fosse possível, as obras de construção de um grande mosteiro, complementa-das com uma igreja de dimensões igualmente grandes e muito rica em arte, dedicada ao seu padroeiro, o arcanjo S. Miguel.
Um tanto ou quanto precoce-mente, o mais fervoroso ideólogo de todo aquele projecto, o abade Bento Mendes, viria a falecer. Ele foi o primeiro a ser sepultado no sítio que viria a dar lugar aos grandiosos claustros do mosteiro de S. Miguel de Refojos.
Por aquele tempo, já os residentes da congregação se contavam pelas duas dezenas e o abade era D. Gueda Mendes, aquele que viria a figurar para os anais da história como sendo o fundador do mosteiro. Fundação que, como já se sabe, remonta ao ano de 1131. Porém, com o devido respeito, somos de opinião de que o verdadeiro fundador foi D. Bento Mendes, aquele que, na companhia de outros dois viajantes, se deslocaram desde Santa Maria de Pombeiro, passaram alguns meses em Várzea Cova e depois rumaram até S. Miguel de Refojos.
Quando o Conde D. Henrique morreu, o seu herdeiro natural, o príncipe D. Afonso Henriques, tinha apenas três anos de idade. Ficou regente do Condado a viúva, a Condessa D. Teresa de Leão, que governou durante mais de uma dezena de anos sem grandes convulsões de ordem política ou social. Porém, ao mesmo tempo que o príncipe herdeiro ia crescendo, a regente, sua mãe, ia dispensando mais mercês a um fidalgo galego, o Conde Fernão Peres de Trava.
Tal conduta por parte da progenitora do príncipe herdeiro, acabou por causar grande mal-estar junto de muitos dos fidalgos partidários de uma rápida tomada do poder pelo príncipe, e este viu-se mesmo obrigado a intervir exigindo que a mãe lhe entregasse a governação do condado. Ela, contudo, recusou-se.
Então, o infante revoltou-se e marchou contra ela à frente das suas hostes derrotando-a na Batalha de S. Mamede. Este nome, o de Batalha de S. Mamede, sobreveio-lhe da denominação dos terrenos onde a mesma se desenvolveu, uma extensa planície, muito fértil, rasgada a meio pelo curso do rio Selho, tudo para poente do burgo, que era a cidade de Guimarães. Estava-se no ano de 1128 e o jovem infante contava dezassete anos de idade.
D. Afonso Henriques, a partir desta data, tomou conta dos negócios do Condado e a Condessa, sua mãe, recolheu ao Castelo da Póvoa de Lanhoso e os seus principais partidários foram expulsos do território que viria a ser Portugal.
Ele foi, assim, o primeiro rei de Portugal e reinou durante mais de meio século, entre 1128 e 1185, um reinado de cinquenta e sete anos, tendo sido doze como príncipe e quarenta e cinco como rei. A sua divisa foi “independência, alargamento e definição do território nacional”, razões mais que suficientes para que lhe fosse outorgado o título de “O Conquistador”.
Nunca foi fácil a governação de D. Afonso Henriques, mas o período mais crítico fora o inicial, em particular as formalidades que eram regra entre as soberanias dos países e os poderes papais.
O primeiro rei de Portugal teve que lutar e negociar em duas frentes: a frente estritamente política e militar contra o seu familiar muito próximo, o rei de Leão, de quem deveria obter o reconhecimento politico; a outra frente, a frente religiosa, que se traduzia em obter o consentimento do papa que ao tempo, era Inocêncio II, a quem o monarca português ofereceu um tributo anual de quatro onças de ouro.
A independência de Portugal, de facto e de direito, foi reconhecida por D. Afonso VII, rei de Leão, no ano de 1143, em resultado do Tratado de Samora, que foi celebrado com a protecção do Cardeal Guido de Vico, representante especial do Papa.

(Continua)

Por: José do Banido

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