Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-01-2014

SECÇÃO: Opinião

Notas avulsas

O conhecimento da História é fundamental para pensarmos o tempo presente, enquanto cidadãos livres e empenhados no mundo em que vivemos. Não me refiro à História cristalizada em lugares comuns, relembrada num concurso televisivo, mas a História que nos interpela e nos confronta com a Humanidade que somos.
Pertencemos, na realidade, a uma espécie complexa, biológica e culturalmente condicionada, que ao longo de milénios tem sobrevivido com o recurso a múltiplos expedientes. Cada sociedade, cada povo, na sua singularidade, no cruzamento de ilusões e desilusões, tem tecido uma longa lista de factos verdadeiramente notáveis, a par de outros absolutamente intoleráveis e inaceitáveis.
Somos o que somos, capazes do melhor e do pior. Escrevemos a Ilíada e a Odisseia, erguemos a Catedral de Reims e o Mosteiro dos Jerónimos, pintamos a Capela Sistina, os brincos de uma jovem holandesa e as lágrimas de Maria, inventámos medicamentos e vacinas, anunciamos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, demos os primeiros passos em direção ao espaço interestelar, mas escravizámos e traficámos outros seres humanos, à direita e à esquerda das ideologias encontramos exemplos que lamentamos: os fascismos europeus, os comunismos totalitários da esfera soviética, o inimaginável regime Khmer Vermelho de Pol Pot no Camboja ou a Monarquia Comunista em vigor na Coreia do Norte.
E, para lá das referências mais ou menos abstratas, mais ou menos numéricas e estatísticas, ficaram e ficam pessoas, de todas as idades e condições, agarradas a um destino que não era o seu. Hoje, na guerra civil iraquiana ou no conflito sírio, há cem anos, com o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando, em 28 de junho de 1914, que precipitou o estalar da I Guerra Mundial, com o seu cortejo de horrores, numa contenda absurda que ninguém ganhou, para lá da capitulação alemã em Versalhes que ainda daria que falar. Em 1939 retomavam-se oficialmente os tambores de guerra, as euforias libertadoras, as incompreensões e os ódios acumulados, mas também o mal absoluto que emergiu no extermínio programado, com minúcia administrativa e burocrática, de milhões de homens e mulheres. Todavia, para muitos de nós, nos tempos que correm, nesta espuma dos dias que apaga a memória e nos apaga, quase tudo se olvida a propósito da derradeira banalidade mediática e, por vezes, da grosseria lucrativa, repetida até ao fim dos tempos.

*Colaborador
Domingos Machado

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.