Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-01-2014

SECÇÃO: Opinião

Viagem a Portugal
Como José Saramago viu Cabeceiras de Basto

(Continuação)
O viajante, José Sara-mago, está quase a chegar à vila de Cabeceiras de Basto. Ainda traz na retina o brilho suave do arco-íris que viu refulgir sobre o vale que se estendia a seus pés. Reteve-o também na memória da sua máquina fotográfica que plasma na página do livro em suaves cores com esta legenda: “Transporta-se de um lado para o outro um objecto. Não se transporta um arco-íris. E se este aqui veio foi apenas para que se não cuidasse que houve invenção do viajante”. Mas antes uma rápida visita à Casa da Torre de Alvite, “conjunto de porta, capela e torre, elas primeiro barrocas, a torre mais antiga, e o mais singular daqui são os altos pináculos das esquinas, equilíbrio magnífico de for-mas volumétricas, airosa graça de funambulismo arquitectónico”.
A vila e logo em frente o Mosteiro, com o São Miguel “empoleirado no lanternim do Zimbósio, mirando toda a paisagem, à procura de almas perdidas”.
Nós chamamos-lhe “carrancas”, Saramago chama-lhes demónios, “de língua de fora, pategos e humilhados, suportando os órgãos da igreja, como atlas de plástica monstruosa, sem nenhuma grandeza”. Um destes demónios merece a fotografia com uma elucidativa legenda. “Apaixonam-se os humanos, apaixonam-se os animais também. Mas o viajante a-posta que nenhuma representação plástica de Ro-meu e Julieta ou de Abelardo e Heloísa pôde alguma vez exprimir com tanta plenitude o alegre amor destes bichos harmoniosos”.
Ir a Cabeceiras e não ver o “Basto” é como ir a Roma e não ver o Papa. Vai procurá-lo. Encontra-o: “ma-is parece um rapazito de bigodes pintados e calções curtos do que o rústico batalhador de antigas eras”. Vamos à fotografia de praxe: “O viajante tira-lhe o retrato, e ele apruma-se, olha para a objectiva, quer ficar favorecido, o Basto, com o seu fundo de ramos verdes, como convém a senhor de terras e montanhas”. E então a legenda final no retrato de “O Basto”: “esse sim, merecia um prémio quem o inventou”.
FIM

* Colaborador

Por: Francisco Vitor Magalhães

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