Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-01-2014

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (183)
O Dr. António da Casa da Eira de Riodouro

O Dr. António, de seu nome completo, António Ferreira Fernandes Basto, era o sexto dos nove filhos do Senhor Barão de Basto, o cidadão Júlio José Fernandes Basto. Na prole, foi antecedido pelos primeiros cinco, o Frederico, a Beatriz, o José, a Constança e o Júlio; seguiram-se-lhe os últimos três, dois com o mesmo no-me, ambos se chamaram Jaime, isto porque o primeiro morrera enquanto criança e o que veio a seguir herdara-lhe o nome, e o último e nono, o Fernando.
Como acaba de ser referido, o primeiro dos dois que tiveram o nome de Jaime morreu em criança, com menos de um ano de idade, isto a avaliar pela diferença que o separa do irmão seguinte, que lhe herdara o nome. A Beatriz, a segunda na ordem cronológica, essa morrera com cerca de vinte anos, quando estava noiva e de casamento marcado com um oficial da aeronáutica militar, o então Tenente Piloto Aviador João Manuel Sarmento de Beires.
Dos restantes seis ir-mãos, sabe-se que todos casaram, uns mais cedo, outros mais tarde, e parece que todos deverão ter deixado descendência. Questão para o caso menos importante, esta, a da descendência de qualquer dos irmãos do Doutor António da Casa da Eira de Riodouro.
O que me leva a escrever a presente crónica é, nada mais, nada menos, a extraordinária história de amor que o próprio, o Doutor António, protagonizou.
Porém, antes de passar a essa extraordinária história, a qual não ocupará grande espaço, convirá explanar algo mais sobre a formação e a personalidade do protagonista.
Como primeiro apontamento, devo referir um pormenor que me deu muito trabalho, e quase me levou a desistir de abordar esta questão, que é o seguinte: conquanto que era suposto que, todos os filhos do casal Barão de Basto, tivessem nascido, e por conseguinte sido baptizados, na freguesia de Refojos deste concelho, houve dois que foram baptizados, e por isso registados, na freguesia da Sé, concelho e cidade do Porto.
E esses dois foram exactamente o quinto dos irmãos, o Júlio, e o sexto, o António. Termos em que o Doutor António tem registo de nascimento no dia 25 de Junho de 1900, na já referida freguesia da Sé da cidade do Porto; e registo de falecimento no dia sete de Janeiro de 1966, no Instituto Português de Oncologia, freguesia de São Domingos de Benfica, cidade de Lisboa, tendo registado como causa da sua morte “carcinoma da nasofaringe”.
Constam como profissões que exercia, à data em que ficara doente e acabara por falecer, as de Conservador e de Notário e que residia em Porto Moniz, Ilha da Madeira.
Conservador e Notário, o Doutor António cursara Direi-to, ou Ciências Jurídicas, na Universidade de Coimbra.
Das muitas histórias que se contam sobre as extra-vagâncias do sexto filho do Barão, que deve ter sido sem qualquer dúvida um bom vivant, escolhi uma que se passa enquanto estudante da Universidade de Coimbra. Aí vai: o pai, o Senhor Barão, certa vez, presenteou-o com um pequeno barril de vinho, que lhe fez chegar, a Coimbra, através do serviço de encomendas que seguiam pela CP.
Avisado da data da chegada da encomenda à estação de Coimbra cidade, e tendo um exame marcado para esse mesmo dia, deixou o exame para a próxima época e apressou-se a ir levantar a encomenda. De-pois, com alguns dos amigos da sua “república”, a primeira coisa que fizeram foi tratar de engendrar uma ligação, com recurso a uma mangueira que, desde a torneira do barril, levava o vinho até às camas de cada um. O objectivo era um serviço de bebida directo da torneira à boca de cada qual, sem que tivessem de se levantar de suas camas.
Há outras, bem interessantes, algumas delas testemunhadas pelo taxista Ricardo. O Ricardo era um taxista dos anos quarenta e cinquenta do século passa-do, que tinha um carro da família dos Ford T, que pegava por meio de uma manivela, manobrada por um ajudante, através de um orifício na frente da carroçaria, com ligação ao motor. Estacionava ao lado do cruzeiro da Praça da República.
O espaço não é elástico e vamos então àquela que eu classifico como extraordinária. Essa passou-se na Casa de Bouças em S. Nicolau. Não sei a idade que os noivos tinham ao tempo, mas deviam ser ambos ainda novos, ambos com menos de trinta anos, e a noiva era mais velha do que o noivo oito meses.
Foi enquanto decorria o almoço no dia em que ele pedira, ou viria a pedir, em casamento, a filha dos Senhores da Casa de Bouças, o casal Jaime de Ferreira de Melo Botelho e Sousa e Dona Maria das Dores Leite Novais. A noiva chamava-se Maria da Conceição Novais de Ferreira de Melo.
A páginas tantas, com o salão cheio de familiares e convidados, o noivo levanta-se do seu lugar, desabotoa a braguilha, deita o pirilau de fora e desata a urinar ao redor de todo o salão de encontro às paredes.
O futuro sogro ficou furioso, levantou-se e proferiu: «Tirem-me esse homem daqui. Enquanto eu for vivo, não haverá casamento algum».
E não houve casamento enquanto o pai da noiva fora vivo. Ambos os namorados permaneceram solteiros até que o Senhor Jaime de Ferreira de Melo Botelho e Sousa morresse.
Das respectivas certidões, consta que o Dr. António e Dona Maria da Conceição casaram na igreja de Paranhos, na cidade do Porto, no dia 30 de Setembro do ano de 1961, ele com sessenta e um anos e três meses e ela com sessenta e um anos e onze meses.
O Dr. António faleceu, como já se sabe, no dia sete de Janeiro de 1966, em Lisboa. A esposa, a Dona Maria da Conceição, faleceu no dia doze de Outubro de 1990, na freguesia de Se-queira, concelho de Braga.
Ele, o Dr. António, morreu com a idade de 65 anos e seis meses, enquanto que ela, a Dona Maria da Conceição, morreu com a provecta idade de 91 anos completos.
Estiveram casados apenas cinco anos e três me-ses, e o casamento foi dissolvido por morte do cônjuge marido.
Esta foi, sem qualquer dúvida, uma verdadeira e bela história de amor.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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