Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-12-2013

SECÇÃO: Concelho em acção

O MOSTEIRO E O BASTO (7)

O caminho, após a travessia da ribeira, curvava para a esquerda seguindo o senti-do da torrente por uns vinte passos, deixando a fonte do lado direito. Depois, fazia uma curva em jeito de cotovelo para a direita e subia ligeiramente seguindo a crista daquela pequena colina no sentido norte sul.
Andados uns cento e poucos passos, tiveram uma enorme surpresa, no ponto em que o cume da colina se transformava numa pequena área de plano, vestígios de uma cidadela e, do lado poente do caminho, envolta num silvado, uma estátua com dimensões humanas, toda em granito, perfeitamente perfilada e voltada para a via, virada para nascente.

***

A estátua, que representava a figura de um guerreiro, era constituída por três peças sobrepostas, cada uma respeitante a outras tantas partes do corpo humano: a primeira, eram os membros inferiores, as duas pernas unidas ao centro; a segunda, era o tronco, com os membros superiores colados ao corpo; e a terceira, era a cabeça.
Todo o conjunto era de formato muito rectilíneo, porém, bastante perfeito atendendo à forma das estátuas que à época se conheciam. Deveria ser anterior ao ano de 900 que se via inscrito na pedra de onde brotava a fonte que há poucas horas tinham descoberto.
- Um guerreiro! – exclamou o frade Martinho da Cruz.
- Sim, sim, um guerreiro. Já reparou nos vestígios da cidadela?
- Já, sim. Significa isto que houve uma civilização de guerreiros que por aqui passou muito antes de nós.
- Civilização de guerreiros…, é capaz de ser um pouco forçado especificá-la como civilização de guerreiros…, bom, a bem dizer, todas as civilizações são, ou foram, civilizações de guerreiros, veja-se o que se tem passado nos últimos tempos entre cristãos e não cristãos, nós próprios somos uns guerreiros…
- Guerreiros de paz, irmão Bento Mendes, guerreiros de paz. As nossas armas sempre têm sido o crucifixo e a enxada…
- De hoje em diante vai ser um pouco mais que o crucifixo e a enxada, vamos deitar mão a outras ferramentas mais pesadas, vamos trabalhar a pedra e a madeira, vamos construir aqui um mosteiro. Olhe ali para aquele lado, aquela chã com a ribeira a correr pelo meio. Aquela ribeira deverá ser desviada para sul, fazendo uma curva de grande raio, aqui pelo fundo desta vertente, e aquele espaço dará lugar a um grande mosteiro com átrios, claustros e uma igreja…
- Tudo isso faz parte do sonho que o irmão Bento disse ter tido na semana passada?
- Em parte sim. É um grande sonho. Vamos construir aqui um mosteiro de dimensões semelhantes, ou até mesmo superiores, às dimensões do mosteiro de Santa Maria de Pombeiro.
- Já que estamos a falar em projecto tão audacioso, deveríamos pensar também num nome, não acha irmão Bento?
- Sim, o nome de um santo, como não poderia deixar de ser. O apelido esse já o sei, penso que estará de acordo comigo. Lembra-se do nome que o moleiro que encontrámos junto das pondras nos disse que era o deste local?
- Lembro sim, ele até divagou sobre a sua origem, repetição do topónimo Fojos terá vindo a dar Refojos
- É isso mesmo, S… de Refojos.
- S… quê de Refojos? S. Bento de Refojos?
- Não S. Bento, não. Esse é o nosso patrono e não deve ser singularizado. Esse estará em todos os mosteiros da nossa ordem. Terá que ser outro santo, pense num nome, irmão Martinho, pense num nome, um santo cujo nome seja sonante.
- Um santo cujo nome seja sonante? Estou a lembrar-me daquele que é chamado de santo, mas não é santo, ele é o chefe de todos os anjos…
- O chefe de todos os anjos?
- Sim, o chefe de todos os anjos, estou a referir-me ao arcanjo S. Miguel.
- Ora, nem mais. Excelente, irmão Martinho! Edificaremos ali, naquele espaço, que por enquanto fica de ambos os lados da ribeira, o Mosteiro de S. Miguel de Refojos.
- Vamos precisar de muito pessoal, irmão Bento…
- Antes de mais, e logo que tenhamos concluída a mudança dos nossos haveres que ainda se encontram em Várzea Cova, lançaremos uma campanha nos dois lugares mais próximos que já conhecemos, a Raposeira e o Souto Longal. Falaremos com o moleiro, que poderá fornecer-nos boas informações, tudo no sentido de conquistarmos a adesão de novos irmãos. Como o irmão muito bem sabe, teremos que dar o devido ênfase à nossa divisa, “ora et labora”.
- “Ora et labora”, reza e trabalha, é o que sempre soube e sempre saberá fazer o bom frade beneditino, irmão Bento!
- “Ora et labora”, a nossa suprema divisa, irmão Martinho!
Sem se terem dado conta, ambos se tinham sentado, cada um em sua pedra, na beira do lado direito do caminho no sentido de quem seguia desde a ribeira para o ponto mais alto da colina, ambos voltados para poente. Como se compreende, traçavam planos olhando para a planície que lhes ficava em frente e era cortada ao meio pela ribeira que corria de poente para nascente.

(Continua)

Por: José Banido

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