Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-12-2013

SECÇÃO: Entrevista

Cortesia Correio do Minho / Rádio Antena Minho

China Pereira assume continuidade dos mandatosde Joaquim Barreto em Cabeceiras de Basto
China Pereira assume continuidade dos mandatosde Joaquim Barreto em Cabeceiras de Basto
Mosteiro a património mundial é bandeira do meu mandato

CHINA PEREIRA é o novo presidente da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. O autarca socialista apresenta a candidatura do Mosteiro de S. Miguel de Refojos a Património Cultural da Humanidade como prioridade do seu mandato. Evitar o encerramento de serviços públicos no concelho é outra das preocupações.
Dívida da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto está controlada
Dívida da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto está controlada
| José Paulo Silva/Rui Alberto Sequeira |
* P - Já sente saudades de ser médico?
Hoje temos menos agricultores mas uma melhor agricultura
Hoje temos menos agricultores mas uma melhor agricultura
R - Sou presidente de câmara desde 29 de Setembro por convicção própria com o objetivo de servir os cabeceirenses.

P - Ainda ponderou a possibilidade de exercer medicina. As tarefas na Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto absorvem-no total-mente?
R - Era muita convicção e vontade continuar a fazer medicina mas depressa me desiludi porque entro na câmara às nove da manhã e saio, na maior parte dos dias, às oito da noite. Não tenho qualquer disponibilidade de tempo para fazer medicina. Se um dia, lá mais para a frente, tiver algum tempo disponível, estarei disposto a sacrificar o tempo que tenho para a minha família, amigos e lazer, fazendo alguma medicina.

P - Agora vai ter de tratar da saúde do município.
R - Para mim é um desafio e uma honra.

P - Neste seu mandato não tem maioria absoluta. Entendeu os resultados eleitorais como uma penalização do PS em Cabeceiras de Basto?
R - Conheço bem os problemas de Cabeceiras de Basto. Exerço aqui medicina há 35 anos. Sabia que o contexto em que realizaram todas as outras eleições era diferente. Nestas havia uma candidatura dos ‘Independentes por Cabeceiras’, dissidentes, na sua maioria, do PS. Isso fraturou, naturalmente, o PS. O vice-presidente da câmara anterior era o candidato dos ‘Independentes por Cabeceiras’.

P - Que razões de fundo vê para essa fratura no PS de Cabeceiras?
R - Posso-lhe dizer o que é que aconteceu. Disponibilizei-me para ser o candidato do PS porque muitos cabeceirenses e a estrutura local do PS o solicitou. Apenas coloquei duas condições para ser candidato: que o meu partido me apoiasse, o que aconteceu, e que o engenheiro Joaquim Barreto (n.r. ex-presidente da câmara) se disponilizasse para ser candidato a presidente da Assembleia Municipal. Eu entendo que nenhum autarca em Cabeceiras de Basto poderia dispensar a colaboração e a disponibilidade, a experiência e o conhecimento que Joaquim Barreto tem. Foi presidente de câmara durante 20 anos, um homem sempre ligado à política que transformou Cabeceiras de Basto. Eu costumo dizer que fez uma revolução em Cabeceiras de Basto. Hoje temos equipamentos e infraestruturas, temos um desenvolvimento que marcaram definitivamente o concelho. Usufruímos de uma qualidade de vida que nos orgulha a todos. Nenhum presidente de câmara, fosse ele qual fosse, podia dispensar a colaboração de Joaquim Barreto. Eu penso que os ‘Independentes por Cabeceiras’ beneficiaram também do facto de as pessoas, fruto da conjuntura socioeconómica, estarem um pouco contra os partidos. Os independentes, com este voto de protesto, tiveram uma expressão eleitoral que não era esperada.

P - Como vai gerir os equilíbrios na vereação?
R - Exerço o cargo de presidente de câmara no sentido de servir os cabeceirenses. Contarei com a colaboração de todos os vereadores, porque o grande objetivo deles é também servir Cabeceiras de Basto.

P - Tem estado mais próximo do vereador do PSD?
R - Estou com todos. Não fiz acordo com ninguém. Somos poder por direito próprio, temos uma maioria relativa e contaremos com todos os vereadores, independentemente dos partidos a que eles pertencem.

P - Recebeu dos vereadores da oposição a mesma predisposição?
R - Até hoje, decorridos dois meses, muitas das decisões da câmara foram tomadas por unanimidade . Não senti que da parte dos vereadores não houvesse intenção de colaborar comigo. Até hoje, tive toda a colaboração dos vereadores e espero continuar a tê-la no futuro.


Terras do interior não podem perder
serviços públicos

P - Alguns dos novos presidentes de câmara do distrito de Braga têm-se queixado que encontraram os cofres vazios. Como está a situação financeira da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto?
R - Certamente conhecem a situação de todos os municípios portugueses: nos últimos anos o Estado tem cortado nas transferências para as câmaras municipais. Cabeceiras de Basto não foi exceção: nos últimos anos perdeu cerca de um milhão de euros e, de 2013 para 2014, perde 300 mil euros. No município de Braga estes números não são muito relevantes, em Cabeceiras de Basto, que tem um fundo de equilíbrio financeiro na ordem dos seis milhões e 300 mil euros, é muito dinheiro que nós perdemos para investimento. Em relação à gestão anterior, eu quero felicitar Joaquim Barreto pelo excelente trabalho que fez. Ele desenvolveu o concelho, criou novas infraestruturas e equipamentos que permitiram transformar a vida dos bracarenses, sendo certo que o município tem dívida. Mas é uma dívida que está controlada. Tenho como objetivo ir tentando reduzi-la na maneira do possível, não deixando de investir para que Cabeceiras continue a desenvolver-se. Agora, a época das grandes obras passou.

P - Neste início de mandato houve duas decisões curiosas da Câmara e da Assembleia Municipal de Cabeceiras de Basto: a aprovação de um relatório de contas intercalar para o período compreendido entre o início do ano e as eleições autárquicas, a par de uma auditoria aos últimos oito anos de gestão. Que razões levaram o PS a tomar essas iniciativas?
R - É um gesto de transparência e seriedade. Durante a campanha eleitoral houve algumas acusações de um partido da oposição que iria pedir uma auditoria às contas. Joaquim Barreto, porque não deve nada e num espírito de frontalidade que o caracteriza, ele próprio apresentou essa proposta na Assembleia Municipal. Quem não deve não teme. Ele fez tudo pelo concelho no princípio da legalidade e da transparência. Como está à vontade, num gesto que o caracteriza, ele próprio suscitou que fosse feita uma auditoria às contas da câmara municipal nos últimos dois mandatos. Com gestos destes é que a política também se dignifica.
P - No fundo, a decisão foi para dissipar dúvidas?
R - Sim. Sei que Joaquim Barreto, ao longo da sua vida, sempre serviu Cabeceiras de Basto com rigor e com exigência.

P - Dentro das contingências financeiras que refere, quais são as prioridades do seu mandato, sendo que, como diz, em Cabeceiras de Basto está quase tudo feito?
R - Não está tudo feito. O desenvolvimento é um processo inacabado. É certo que hoje vivemos um período de vacas magras e não temos o objetivo das chamadas obras do mandato. Eu assumi, durante a campanha eleitoral que o meu projeto para os próximos quatro anos é de continuidade em relação ao muito que se fez em Cabeceiras de Basto. Vamos continuar obras que já vêm do passado como a estrada variante sul, a variante do Barbeito, o arruamento do Pedral, iremos continuar a infraestruturação dos parques industriais.

P - O seu grande desafio será impedir que algumas estruturas e serviços saiam do concelho. Se calhar, em vez de reivindicar mais, terá de lutar por manter o que está, nomeadamente a Repartição de Finanças.
R - Eu quero dizer com toda a frontalidade que sou um defensor absoluto da manutenção dos serviços públicos em Cabeceiras de Basto. Queriam fechar o nosso Tribunal que tinha sido acabado de inaugurar e conseguimos que ele se mantivesse. Em relação às Finanças, a câmara é claramente pela manutenção da Repartição, porque cada vez que se encerra um serviço há empobrecimento do concelho e prejuízo para os utentes.

P - Já houve informação do Governo sobre o encerramento da Repartição de Finanças?
R - Não. Há apenas um estudo que foi publicado nos jornais. Já a câmara e a assembleia municipal tomaram uma posição claramente contra o encerramento.

P - O peso político de Joaquim Barreto é uma ajuda importante nesta sua luta contra o poder central?
R - Conto com o apoio e a ajuda de Joaquim Barreto. Sei que ele tem um bom relacionamento com o poder central. Mas o que é mais importante é a força da razão. Cabeceiras e as terras do interior não podem perder serviços. Se deixamos que os serviços públicos encerrem, estamos a empobrecer o nosso concelho.

P - Cabeceiras de Basto tem conseguido segurar a sua população?
R - Infelizmente, nos últimos dez anos, Cabeceiras de Basto perdeu dois mil habitantes. Quais as razões para isto? Uma delas é a emigração. Nos últimos anos emigraram muitos jovens. Por outro lado, a natalidade tem diminuído. O saldo fisiológico em Cabeceiras é negativo. Na década de 60 nasciam 800 crianças por ano, hoje não chegam a 100 e o número de falecimentos é da ordem dos 200. Por isso, a câmara tem feito um esforço enorme para criar condições de fixação da população. Na perspetiva da criação de emprego, Cabeceiras de Basto dispõe de cinco parques industriais, dois deles concluídos, outros três em fase de conclusão. Iremos iniciar dois novos em Cavez e Arco de Baúlhe.

P - Há perspetiva de investimentos nesses parques?
R - A câmara não se pode substituir à iniciativa privada, a sua função é ajudar a promover o investimento. Neste momento temos 286 mil metros quadrados de terreno em parques industriais. Ultimamente instalaram-se em Cabeceiras 26 empresas. Um fator importante são as acessibilidades. O nó da autoestrada A7 no Arco de Baúlhe é atrativo para investir em Cabeceiras de Basto. Para os jovens empreendedores a câmara disponibiliza terrenos a preços atrativos e concede benefícios no licenciamento e pagamento de taxas. Também tem um programa financeiro, o ‘Basto Investe’, quer seja para iniciar uma empresa, quer seja para aumentar a capacidade das empresas instaladas. Em Setembro, participei na inauguração de uma fábrica de calçado, um sector onde Cabeceiras de Basto não tinha tradição.


Património de S. Miguel de Refojos é marca diferenciadora do concelho

P - A agricultura é um sector que pode crescer em Cabeceiras de Basto?
R - A economia primária que se traduzia numa agricultura de subsistência já passou. Hoje temos menos agricultores mas uma melhor agricultura com as culturas emergentes como o mirtilo e as ervas aromáticas. Há também novos investimentos no sector pecuário.

P - Cabeceiras de Basto já explorou totalmente as suas potencialidades turísticas?
R - Já muito tem sido feito na promoção do concelho, temos equipamentos que são diferenciadores. Tenho uma grande ambição que é a apresentação da candidatura do Mosteiro de S. Miguel de Refojos, a Praça da República, o Parque do Mosteiro e as casas dos caseiros a Património Cultural da Humanidade. Qualquer terra para se afirmar tem de ter uma marca e nós, tendo este património arquitetónico de tão grande valor, não o podemos desperdiçar. Essa marca diferenciadora de Cabeceiras de Basto será o caminho certo para o desenvolvimento do turismo. Tendo Cabeceiras de Basto este património e esta beleza que nos distingue, temos de ser capazes de os promover. Ainda recentemente um professor universitário de S. Paulo visitava Cabeceiras de Basto e dizia que S. Miguel de Refojos já era património cultural da humanidade, só falta apresentar a candidatura. Todas as pessoas que visitam Cabeceiras ficam maravilhadas com aquela obra de arte que os beneditinos construíram.
P - Há a proximidade a Guimarães que já é Património Mundial. O Bom Jesus do Monte, em Braga, também se candidata. Não há aqui muita concorrência?
R - Nós temos é que aproveitar sinergias. Se as pessoas vão a Guimarães e têm um monumento ímpar a 20 quilómetros...

P - Na sua opinião, esse património de Cabeceiras não está ainda devidamente aproveitado nos circuitos turísticos?
R - Não. Temos um património histórico e cultural que ainda não valorizámos suficientemente. O meu objetivo é dar-lhe visibilidade.

P - Quer ver mais turistas a passar na autoestrada que liga a Cabeceiras de Basto?
R - Sim. Cabeceiras fica no Centro Norte de Portugal com uma ligação rápida ao litoral e ao interior. Temos de saber aproveitar essa centralidade. Com a autoestrada aos pés, temos de saber referenciar o que temos de bom.

P - Em que fase está a candidatura do Mosteiro de Refojos a Património Cultural da Humanidade?
R - Temos de ter a candidatura pronta até 30 de Setembro de 2014. Vamos comemorar os 500 Anos do Foral atribuído pelo rei D. Manuel I em 1514, que faremos coincidir com a apresentação da candidatura. Já estão a ser desenvolvidos estudos históricos e de arquitetura. Os técnicos da UNESCO irão certamente apresentar algumas sugestões, sendo certo que a Câmara de Cabeceiras continuará a apostar na requalificação do Mosteiro. Apresentámos agora uma candidatura a fundos comunitários para a recuperação dos altares do Mosteiro de Refojos. Iremos continuar a investir na requalificação do edificado.

P - A ideia da candidatura é sua, desta nova câmara, ou já tinha sido pensada anteriormente?
R - Desconheço se isso foi pensado anteriormente. Foi uma ideia que apresentei na minha tomada de posse para ser concretizada em 2014. Admito que Joaquim Barreto tenha pensado nessa hipótese, mas nunca a pôs em prática. Publicamente, foi assumida no dia da minha tomada de posse.

P - Voltando às acessibilidades a Cabeceiras, há a questão da ligação da autoestrada à sede do concelho...
R - Há uma variante que liga Arco de Baúlhe a Lameiros e nós queremos fazer outra variante de Lameiros ao nó de Barbeito que vai encaixar na variante sul do concelho. Em termos do desenvolvimento sustentado do concelho esta rede de estradas é fundamental.


Vale do Ave sofre com desemprego
e envelhecimento da população

e o Congresso Social do Vale do Ave em que a emigração foi bastante focada como um problema muito candente na região. Como podem contrariar esta tendência?
R - No congresso foram identificados os problemas que afligem a região. Fruto das políticas de austeridade, dos cortes nos salários e nas pensões e fruto do desemprego, o Vale do Ave atravessa um período difícil que preocupa os autarcas dos oito concelhos. Como consequência, as pessoas tiveram necessidade de emigrar. Há outro problema que preocupa os autarcas: o envelhecimento da população. Temos de fazer um bom diagnóstico e desenvolver estratégias para resolver estes problemas. Os idosos são uma preocupação constante. Penso que Cabeceiras de Basto é o único concelho que tem uma comissão de proteção de idosos, temos um gabinete de apoio à família, temos medicamentos sociais, criámos centros de convívio e lazer na maior parte das freguesias. Como médico sinto que um dos grandes problemas da terceira idade é a solidão e depressão. Visitei muitos doentes que passavam o dia a olhar para a parede sem nada para fazer. Para lutar contra a solidão das pessoas idosas criámos um grupo de voluntários. Também temos uma viatura de apoio ao cidadão que presta cuidados de saúde primários, principalmente às populações mais distantes da sede do concelho.

P - Em termos de equipamentos de saúde, o concelho de Cabeceiras de Basto está bem servido?
R - Tem os equipamentos e meios necessários.

P - Na área social há ainda investimentos a fazer?
R - Sim. Vamos fazer mais centros de convívio e lazer e tentar aperfeiçoar aquilo que temos.

P - No âmbito do novo quadro comunitário de apoio a Portugal, tem algum projeto que queira desenvolver?
R - Neste momento, as linhas orientadoras do novo quadro comunitário ainda não estão bem definidas. Aquilo que possa dizer é que, tal como aconteceu no passado, Cabeceiras não perderá uma oportunidade de investimento. A câmara tem poucas receitas próprias, pelo que a única forma de fazer investimento em Cabeceiras é com verbas do poder central ou da União Europeia. Estaremos atentos a todas as oportunidades.

P - Cabeceiras de Basto tem investido muito no desporto equestre e na pesca desportiva, o que coloca o concelho com uma oferta diferente...
R - Cabeceiras tem equipamentos diferenciadores que podem potenciar o nosso desenvolvimento: uma pista de pesca desportiva em Cavez onde já se realizaram campeonatos mundiais, o hipódromo, a pista de aeronaves, o Centro de Educação Ambiental, a Casa do Tempo, a Casa da Lã. O nosso grande desafio é sermos capazes de potenciar aquilo que já temos. Sou um otimista e acredito nos cabeceirenses e nas suas capacidades.

P - O concelho não precisa também de outra capacidade de alojamento?
R - Temos algumas casas de turismo rural, mas precisamos de um hotel. A câmara não vai construir um hotel, mas estará disponível para colaborar com a iniciativa privada. Ao assumir a candidatura de S. Miguel de Refojos a Património Cultural da Humanidade o objetivo é dar motivação aos empresários, dizer-lhes que Cabeceiras é uma terra com futuro e que a câmara está apostada em desenvolver o turismo. A candidatura é uma bandeira do meu mandato. Com esta candidatura Cabeceiras pode-se projetar mais.

* Texto escrito de acordo com a antiga ortografia


Perfil:
Serafim China Pereira é natural do Gerês, mas vive em Cabeceiras de Basto desde a infância.
Este médico de 59 anos de idade já foi vereador e vice-presidente da Câmara Munici-pal de Cabeceiras de Basto e exerceu, entre 2005 e 2013, funções de presidente da Assembleia Municipal. De 1990 a 2001 e de 2008 e 2012 presidiu à comissão política local do PS, partido onde milita desde 1977. Foi presidente da direção dos Bombeiros Voluntários e diretor do Centro de Saúde de Cabeceiras de Basto.





















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