Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-12-2013

SECÇÃO: Recordar é viver

Nesta quadra natalícia
O meu muito obrigada aos leitores, amigos e família

Queridos leitores, amigos ou conhecidos, aproxima-se a quadra natalícia que nos vem lembrar o amor, a saudade dos que estão longe e, em especial, daqueles que nos deixaram, talvez prematuramente, a reflexão, a tolerância, a boa vontade entre os homens. Uma época em que nos debruçamos mais sobre aqueles que estão mais desamparados, fragilizados pelas vicissitudes da vida, como por exemplo, os sem abrigo que vêem mais nas cidades e, naqueles que estão perto de nós que precisam que lhe acudam às necessidades mais prementes como comida para a boca.
A nossa consciência diz-nos que não deveria ser só nestas alturas que estas preocupações nos “batem à porta” do nosso coração. Deveria ser uma preocupação constante no dia a dia mas, andamos absorvidos nos nossos afazeres, nos nossos próprios problemas, no stress, mui-tas das vezes andamos preocupados com coisas mínimas que nos chateiam mesmo sem haver razão para isso mas, a nossa tendência é pensarmos que as nossas coisas são sempre piores do que as dos outros. É então que estas quadras do ano, como a Páscoa e muito especial o Natal nos vem sensibilizar o coração para tentar corrigir o nosso egoísmo, nos tornar muito mais sensíveis a tudo que nos rodeia. Pelo menos é isso que sinto. Então sentimos que temos de nos dedicar a uma causa em prol daqueles que sofrem e conseguir, assim, que a paz entre no nosso íntimo e fiquemos de bem com a nossa consciência.
Fico agoniada ao ver imagens na televisão sobre os sem abrigo, crianças abandonadas, idosos que deviam ter um fim de vida condigno que, vivem no maior suplício, sofrendo a maior degradação que se possa imaginar no próprio seio familiar. Isso e muitas mais coisas que os nossos olhos vêem e ouvem diariamente através dos canais de televisão, como a criminalidade gratuita por tudo e por nada.
Também, nesta altura do Natal me invade uma grande comoção com as saudades daqueles que não vão “estar presentes” à mesa no seu costumeiro lugar mas, como cristã, quero continuar a pensar que estarão presentes em espírito a velar por todos nós. Falo da família e dos amigos que partiram prematuramente.
Mas com a minha crónica de hoje não pretendo que seja só para lembrar coisas muito tristes, mas que sirva também, para fazer os meus agrade-cimentos às pessoas que estão vivas, graças a Deus, e que sempre estiveram presentes para mim, com a sua presença, com as suas palavras de carinho e incentivo nesta minha etapa dedicada à escrita, dedicatórias, homenagens que me chegam com regularidade por e-mail ou por carta, especialmente, neste ano de 2013 que está a acabar. E é a pensar em todas essas pessoas que me apoiaram e continuam a fazê-lo, que hoje na minha crónica, vou incluir uma carta que me foi dirigida pelo assinante do Ecos de Basto, o Senhor Jaime Sousa e Silva, um cabeceirense que cedo partiu da nossa terra rumo à capital à procura de melhor vida. Nunca esqueceu a terra que o viu nascer e sempre manteve contacto connosco através do Jornal Ecos de Basto, mandando as suas poesias maravilhosas e muito sentidas, com imensas saudades. E, porque frequentemente me honra com as suas palavras de carinho e admiração nas suas cartas eu, talvez, nem tanto mereça, tenho a “obrigação moral” de agradecer-lhe, transcrevendo-lhe a última carta que recebi dele.
Agradeço à minha família que está comigo desde a primeira hora, como autora de livros, ao Engº Joaquim Barreto enquanto foi presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto que, além de falar sobre mim e sobre os livros também prefaciou este meu último trabalho “Minha terra, nossa gente”.
Não me posso esquecer de agradecer ao meu amigo, o escritor transmontano Dr. Barroso da Fonte, director do Jornal Poetas e Trovadores, pelas mensagens de incentivo para continuar a falar da minha terra, das nossas gentes e das nossas vivências e, pela oferta dos seus livros.
Às Juntas de freguesia, Entidades e Empresas pelos patrocínios sem os quais os livros não estariam cá fora. Um agradecimento muito especial à Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto por todo o apoio logístico. Bem hajam. E porque estamos a chegar ao Natal os meus votos de Boas Festas para todos.
Com a devida vénia.

(fernandacarneiro52@hotmail.com)
*Colaboradora

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Cacém,
Ex.cima Senhora D. Maria Fernanda Carneiro:
Conheço-vos só através da escrita e, por isso peço-vos desculpa pela ousadia de lhe endereçar esta carta.
Sei que ficou viúva há já algum tempo, por isso, ainda lhe peço mais des-culpa do atrevimento. Sou, creio eu que sou, uma pessoa mais ou menos bem formada.
Sou um leitor Bíblico e assim, sei que devo respeitar ao nascimento, as viúvas e os órfãos. Deus, recomenda a todos os seus filhos, para quando vindimar, deixar alguns cachos de uvas propositadamente para que venham as viúvas e os órfãos na rebusca e encontrem que levar para suas casas, com os cereais que aconteça o mesmo, pois à viúva faltou-lhe a trave mestra que era o seu companheiro e o ganhador do pão para ela e seus filhos. O órfão ou faltou-lhe o pai, sua mãe, ou até os dois, sentindo-se desamparado. Diz Deus: “aquele que não aceita os meus preceitos, não são dignos de me chamar Pai e, se não derem, também não lhes será dado”.
D. Fernanda, tenho grande admiração pela senhora, através dos seus artigos, que nos falam quase sempre da nossa terra e dos seus habitantes, pelos quais sou um apaixonado. Leio o que escreve porque gosto muito do amor que remanesce em seu coração, no que escreve, assim como o Sr. José Costa Oliveira em Vantagens Comparativas, do Senhor Teixeira da Silva, e do Senhor F. Vitor Magalhães, principalmente. Gostei mui-to da visita do nosso Secretário do Partido Socialista, António José Seguro que visitou o nosso Concelho para dar força ao nosso Autarca que vai ser o Dr. China Pereira, pois tenho a certeza que vai ganhar a nossa Câmara.
Deus queira que seja igual ao Sr. Engenheiro Joaquim Barreto que fez da nossa terra, uma terra que rivaliza com qualquer Vila ou até cidade. Só quem se lembra do que era Cabeceiras de Basto como nós, que nascemos na Ponte de Pé há noventa e um anos, sabe lá D. Fernanda, como era Cabeceiras!
Era eu ainda miúdo, talvez com cinco ou seis anos, pela mão de minha mãe, fomos à inauguração da luz eléctrica que só chegava à Ponte de Pé, não passando da Capela de S. Lourenço e não passava das Pereiras, ou seja, da antiga cadeia, hoje Casa da Música. Constatando o que era e o que é hoje Cabeceiras, não há comparação possível.
Joaquim Barreto é um homem a quem todos nós ficamos a dever muitíssimo, porque Barreto teve dezassete freguesias para cuidar e, teve cuidado com todas elas.
Tinha escrito esta carta já em antes das eleições autárquicas, mas tive um certo acanhamento em a mandar pôr no correio, por não ter confiança convosco.
Sou realmente um vosso admirador, “naquilo que escreve”, pois por vossa conta, ficamos a conhecer as nossas gentes, o que elas foram ou o que elas são, pois raras vezes contactamos convosco e mais, somos um apaixonado pela nossa terra.
V. Senhoria D. Fernanda, ainda não sabe avaliar as distâncias, mas um dia há-de conhecê-las. Sabe minha senhora, quando era mais novo, tudo nos ficava perto, porém, hoje tudo nos fica longe. No entanto, em três ou quatro horas, partindo do Cacém às oito ao meio dia estamos aí para almoçar. Mas é assim, o que dantes era perto, hoje tudo nos fica longe!...
A minha mulher tem a mesma idade que a nossa, mas está mais acabada do que eu; já não pode viajar e estou preso de pés e mãos como soe dizer-se.
Pela Feira de S. Miguel quase todos os anos aí vou para ver e ouvir a minha Banda de música da qual fiz parte, mas é um problema! Tenho que a levar ou deixar na Costa da Caparica, em casa da minha filha, porque o meu filho, esse é o que me leva. No próximo dia vinte e seis de Janeiro se formos vivos, fazemos setenta anos de casados: é uma vida D. Fernanda! Como ia dizendo é real-mente muito difícil.
Acrescentarei mais um provérbio: “quem mora no Convento é que sabe o que vai lá dentro”. Peço-vos desculpa pelo atrevimento de vos escrever esta carta, mas a verdade não pode andar escondida, a verdade é luz, a verdade vem do Alto.
E, então gosto muito de ler as suas crónicas, os seus artigos, porque não escondem mentiras. Sei que é pessoa muito querida por todos os Cabeceirenses, pelos que aí moram como por aqueles que vivem pelas sete partidas do mundo, sabe porquê? Por-que a vossa escrita é percebível por todos, pelos letrados e por aqueles que não tiveram a sorte de poder estudar mais, ou porque se tornaram preguiçosos. Vou terminar este meu desabafo, só lhe peço muitas desculpas, mas não somos culpados: culpada é a senhora D. Fernanda, por escrever tão bem e nos dar notícias da nossa querida terra. Como já lhe aprouve ver, esta carta vai atrasada, desculpe-me! Só hoje perdi a razão que peço me perdoe. Aceite os meus sentidos pêsames pela ida do vosso esposo até ao Céu, onde a estas horas está gozar as delícias, que Deus nosso Pai tem guardadas para os seus dilectos filhos. Aceite, Ex.ma Senhora Dona Fernanda, os meus respeitosos cumprimentos, sou o vosso Conterrâneo;

Jaime de Sousa e Silva

Por: Fernanda Carneiro

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