Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-12-2013

SECÇÃO: Opinião

Como José Saramago viu Cabeceiras de Basto
Viagem a Portugal

No final da época de 70 do século passado o “Círculo de Leitores” convidou José Saramago, o futuro “Prémio Nobel” da Literatura, a per-correr o país, da qual resultou o seu livro “Viagens a Portugal” que o autor classifica como uma “história de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história da viagem e viajante reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto”.
O viajante não esqueceu as Terras de Basto (o que não aconteceu com José Hermano Saraiva que per-correu o país para o seu “O Tempo e a Alma”), mas não atingiu Ribeira de Pena, fora dos circuitos mais acessíveis. Cabeceiras, Celorico e Mondim estão plasmados no capítulo intitulado “De Nordeste a Noroeste, Duro e Dourado”.
Saramago sai de Guimarães numa manhã esplendorosa, por Fafe, decidindo “seguir para as Terras de Basto, nome pelos vistos de muito requestamento, pois só Basto há três, duas são as Cabeceiras e ainda temos Mondim e Celorico, Canedo e Refojos, tudo de Basto, com muita honra”. (E nós sabemos que há mais…).
E numa volta da estrada: “E este vale, como explicar o que ele é?
“A estrada vai andando às curvas, por entre montes e montanhas, e é a costumada formosura, nem o viajante espera mais do que tem. Então, aqui, num ponto entre Fafe e Cabeceiras de Basto, numa volta da estrada, o viajante tem de parar, e na página mais clara da sua memória vai pôr a grande extensão que os seus olhos veêm, os planos múltiplos, as cortinas das árvores, a atmosfera húmida e luminosa, a neblina que o Sol levanta do chão e perto do chão se dissipa, e outra vez árvores, montes que vão baixando e depois tornam a erguer-se, ao fundo, sob um grande céu de nuvens. O viajante está cada vez mais crente de que a felicidade existe.
Estas coisas merecem a sua coroação. Lá adiante há outro vale, um enorme circo rodeado de montanhas, cultivado, fundo, largo. E logo depois, quando o solo volta a ser bravo, de pinheiral e mato, aparece o arco-íris, o arco do céu, aqui tão perto que o viajante cuida que lhe pode chegar com a mão. Nasce em cima da copa dum pinheiro, vai por aí acima e esconde-se por trás da encosta, e em verdade não é um arco, mas sim um quase invisível segmento de círculo franjado de faixas coloridas, assim como uma cortina de tule finíssimo em frente de um rosto. O viajante cansa-se de comparações e faz uma última e definitiva, junta todos os arco-íris da sua vida, verifica que este é o mais perfeito e completo de todos, agradece à chuva e ao Sol, à sua boa sorte que o trouxe aqui nesta preciosa hora, e segue viagem. Quando passa debaixo do arco-íris, vê que lhe caem sobre os ombros tintas de várias cores, mas não se importa, felizmente são tintas que não se apagam e ficam como tatuagens vivas.”.
O viajante está quase a chegar à vila de Cabeceiras de Basto.

(continua)

*Colaborador

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.