Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-12-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (182)
O Vietnam hoje

Como todo e qualquer viajante que se preza, gosto de ver pagodes, templos, mesquitas e catedrais. Pela respectiva ordem, esses são os espaços de culto de outras tantas religiões, o budismo, o induísmo, o islamismo e o cristianismo.
No Vietnam, como em outros países do sudeste asiático, predominam as duas primeiras, o budismo e o induísmo. Daí eu tê-las referido por aquela ordem.
O viajante que se desloca por aquelas paragens não passa sem uma significativa dose de visitas a pagodes budistas e a templos indús ou induistas.
Foi exactamente o que me aconteceu, no decurso das duas últimas semanas de Outubro transacto. Percorri todo o ter-ritório do Vietnam, no sentido norte sul, com uma incursão ao interior do Camboja. De avião e de autocarro, fiz o percurso Hanoi, Halong Bay, Hué, Hoi An, Danang, Ho Chi Minh (Saigão), Cu Chi e Siem Reap (no Camboja).
Vi muitos pagodes e muitos templos, sem dúvida, e não menosprezo, de modo algum, todas as mais valias que daí pude retirar.
Porém, e contrariamente ao que pensam muitos daqueles que, como eu, viajam, o meu maior enfoque dirigiu-se no sentido de apreciar a paisagem no seu todo, refiro-me à paisagem campesina e florestal, urbana e industrial, as vias de comunicação, os meios de transporte, como vivem e como se deslocam as pessoas na rua, em particular na enorme confusão das gran-des cidades.
Primeiro factor positivo a reter: em cidades como Hanoi ou Saigão, a primeira com mais de seis milhões de habitantes e a segunda com cerca de oito milhões, quase não vi um polícia de rua, um pedinte, ou um sem abrigo. São factos. E, tanto em Hanoi, como em Saigão, fizemos deslocações no sentido do inte-rior rural com distâncias supe-riores a cem quilómetros. Pare-ceu-me que ninguém procurou ocultar, fosse o que fosse.
A civilização vietnamita tem mais de 2500 anos e o país tornou-se independente da soberania chinesa no ano de 938 (século X). Foi governado pela dinastia Ngô (vietnamita) durante cerca de mil anos. Esta terminou no século XIX (1858), quando uma grande parte da Indochina foi colonizada pela França.
Os franceses mantiveram o domínio sobre toda aquela região até ao final da Segunda Guerra Mundial, ano de 1945. Declarou-se então aquela que ficaria para a história como a primeira guerra da Indochina, que opôs vietnamitas contra os colonizadores franceses, a qual durou nove anos. A sua independência, da França, foi reconhecida em 1954.
A guerra da independência foi liderada por duas proeminentes figuras: Ho Chi Minh, o político, e o General Giap, o militar. O assalto final, em que a França saiu derrotada, foi a Batalha de Dien Bien Phu. Esta batalha durou quase dois meses, treze de Março a sete de Maio de 1954 e foi terrivelmente mortífera tanto para vietnamitas como para franceses. O sítio onde se desenrolou a batalha passou a ser conhecido como o “Vale da Morte”.
Dien Bien Phu é uma localidade situada nas proximidades da fronteira com a China e com o Laos.
Em resultado da Conferência de Genebra, que decorreu entre vinte e seis de Abril e vinte de Julho de 1954, o país foi dividido em dois, a norte do paralelo 17, ficou o Vietnam do Norte, com um regime comunista, apoiado por russos e chineses; e a sul daquele paralelo, o Vietnam do Sul, com um regime anti comunista, apoiado pelos Estados Unidos da América.
Na declaração final da Conferência, ficou escrita uma cláusula segundo a qual seriam realizadas eleições gerais, em todo o Vietnam, no prazo de dois anos, supervisionadas internacionalmente, cujo objectivo era a criação de um estado vietnamita unificado.
Embora apresentada como uma visão de consenso, apenas a França e o Vietnam do Norte assinaram aquela declaração. Como seria fácil de prever, o Vietnam do Sul nunca viria a aceitar aquele compromisso.
Findo o prazo para a realização do referendo sem que o Vietnam do Sul se dispusesse a participar no mesmo, foi o motivo para que se desencadeasse a mais sangrenta de todas as guerras que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, mundialmente conhecida como a Guerra do Vietnam.
Nesta guerra houve três forças em presença: o Vietnam do Norte apoiado por russos e chineses, o Vietnam do Sul apoiado pelos americanos, e uma terceira força, esta a mais eficaz e violenta contra as aspirações daqueles que lideravam o Vietnam do Sul, era o Vietcong. Vietcong é um acrónimo que significa “Vietnamita Comunista”.
O Vietcong era um grupo de guerrilheiros sul vietnamitas que lutavam, no sul, em cooperação com as tropas do Vietnam do Norte, contra as tropas do seu próprio país e seus aliados, os Estados Unidos da América.
Os túneis de Cu Chi são bem o exemplo da força e da determinação com que os vietcongs encararam o conflito, sobretudo a afronta da presença dos americanos. Quilómetros e quilómetros de estreitas galerias subterrâneas onde não cabe mais que um franzino soldado vietnamita.
Da história, retira-se que a mais estrondosa derrota dos franceses (depois da Segunda Guerra Mundial) foi a Batalha de Dien Bien Phu (1954). E a mais estrondosa derrota dos ameri-canos (depois da Segunda Guer-ra Mundial) foi a sua precipitada saída de Saigão (1973).
O Vietnam dos dias de hoje é um país que pode muito bem comparar-se com a China. Um país em franco desenvolvimento, de comunismo, se não fosse o regime de partido único, dirse-ia que apenas tem o nome. Em termos de economia, é o mercado que domina.
Qualquer das grandes cidades, e no que respeita a comércio, não difere em nada das cidades ocidentais dos países mais desenvolvidos. O parque automóvel é tão moderno e variado como o de qualquer país ocidental. As pessoas, na rua, são francamente simpáticas, calorosas e parecem felizes.
O Vietnam é o primeiro produtor e exportador mundial de arroz, café e pimenta. Aparece ainda como quarto exportador mundial de chá.
Quanto à propriedade da terra, essa é do Estado. Cada camponês tem direito a meio hectare, segundo um regime de concessão. Sempre que o concessionário morre, ou deixa de poder trabalhar a terra, a parcela volta à propriedade do Estado.
Existe a pena de morte, por meio de injecção letal, para traficantes de droga (posse de mais de quinhentos gramas), violadores de crianças e espiões.
O país tem noventa e um milhões de habitantes, há controlo da natalidade, cada casal apenas pode ter dois filhos, infringindo esta regra, fica sujeito a uma penalização, uma multa pecuniária com um mínimo de cem dólares americanos.
Uma curiosidade mais, não obstante todas as sequelas emergentes do conflito que envolveu vietnamitas e norte-americanos, a moeda que mais circula no país, quase a moeda oficial, é exactamente o dollar dos Estados Unidos da América.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

*Colaborador

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.