Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-11-2013

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O MOSTEIRO E O BASTO (6)

Sentados, sob a ramagem frondosa do medronheiro, e tendo decidido que edificariam ali a sua habitação, uma cabana muito singela, a primeira coisa que lhes ocorreu foi procurar um ponto de água própria para consumo.
A ribeira corria ali mesmo ao lado, a uma distância não superior a cinquenta passos. Em finais de Maio, ainda levava um bom caudal e, na passagem do estreito, em curva para a direita, onde se verificava uma acentuada descida, era bem audível o sussurro da água saltando duas ou três pequenas cascatas. Depois, seguia em plano, quase em linha recta, no sentido de uma ínsua.
Subiram uns quarenta ou cinquenta metros, no sentido do grande sapal, e repararam que havia ali um pontilhão. Foi no dia da chegada, ainda se encontravam os dois, o frade Bento Mendes e o irmão Martinho da Cruz. A vegetação já era densa de finais do mês de Maio, pelo que o pontilhão apenas foi avistado quando chegaram mesmo junto do seu início.
- Repare no achado, irmão Bento – exclamou o frade Martinho, apontando para as lajes que, em dois lanços, faziam a travessia da ribeira.
- Já por aqui atravessou gente, porém, nos tempos mais recentes, não se nota que as lajes tenham tido uso – respondeu o frade Bento – atravessemos – concluiu.
Os dois atravessaram para o outro lado, para a margem direita. Os cavalos não se viam dali, estavam ambos deitados, mais para poente, no meio de uma pequena mata de amieiros.
Ainda em cima do pontilhão, outra surpresa, uma fonte, mesmo ali de frente para a travessia, uma bica de pedra por onde corria mais que uma polegada de água, que caía para o interior de uma pia, uma pia bem grande, feita de uma única pedra e que mediria uns sete palmos de comprimento, por quatro de largura e aí uns dois de altura. Não havia dúvidas de que quem a construíra o fizera com a intenção de ali dar de beber a animais de grande porte.
- Isto foi obra de qualquer civilização que por aqui passou antes de nós – voltou a exclamar o frade Bento.
- Repare, irmão Bento, na inscrição que ali tem, por cima da bica – observou o frade Martinho.
- Vinte e dois do doze de novecentos, inscrito em numeração fenícia, significa que não foi obra, ou não é obra dos romanos. Esses, os romanos, usavam a numeração romana e, por norma, apenas escreviam o ano. Este pormenor é extraordinário, 22-12-900, em algarismos fenícios, e já lá vão mais de dois séculos…
- É, irmão Bento, já lá vão mais de dois séculos! Será que estas terras, por aqui, terão dono, quero dizer, terão senhor portador da respectiva carta de foral?
- Não, não me parece. Está tudo inculto, a natureza está virgem. Isto foi obra de grandes artistas que por aqui passaram, viveram aqui algum tempo, não se sabe se muito se pouco, contudo deve ter sido bastante, para se darem ao trabalho de construir esta travessia e este ponto de água, mas desistiram do lugar e mudaram-se para outras paragens…
- Talvez fenícios, gregos ou cartagineses, todos esses passaram por cá, ainda antes dos romanos…
- Não, irmão Martinho, desculpe-me a correcção, mas os fenícios reinaram, se é que assim se pode dizer, reinaram no período que mediou entre 1500 antes de Cristo e 300 antes de Cristo, ou seja, terão reinado entre o século quinze e o século três antes de Cristo. Depois, vieram os romanos que reinaram entre o século três antes de Cristo e o século cinco depois de Cristo. Com a queda do império romano do ocidente, que se deu no ano de 476 da nossa era, vieram outros povos…
- Está bem, irmão Bento, eu comecei por referir os fenícios, mas foi apenas uma força de expressão, os fenícios não, esses não podem ter sido os construtores desta fonte nem desta travessia. Porém, os que por aqui passaram usaram numeração que não é romana, com se vê, não é assim irmão Bento?
- É, irmão Marinho. A seguir à ocupação romana, podem ter passado por estas terras os visigodos, que ocuparam grande parte da península hespânica no decurso dos séculos cinco a oito da nossa era. Depois, vieram os árabes, que foram expulsos destas terras pelos reis de Leão, os antecessores do rei Afonso VI, que viria a ser sogro do Conde D. Henrique, a quem doou a soberania do Condado Portucalense juntamente com a mão da sua filha, D. Teresa, em casamento.
- Parece não restarem grandes dúvidas de que estes trabalhos, quer a fonte quer a travessia, deverão ter sido levados a cabo pelos árabes, pelos praticantes da religião muçulmana.
- Sim, sim, sem dúvida. E a razão principal da construção desta fonte com a água caindo nesta grande pia, não será nada mais do que o ponto próprio para as suas obrigações de lavagem dos pés. Como sabe, uma das principais obrigações do alcorão é de que todos os seus fiéis não podem assistir às orações sem que antes tenham lavado os pés.
- Sem mais. É muito interessante, de facto, esse ritual do lava pés, próprio dos infiéis.
- Diz muito bem, irmão Martinho. Os árabes, os muçulmanos, os mouros, enfim, chame-se lá o que se lhe chamar, são os infiéis que renegam a origem de Nosso Senhor Jesus Cristo. Suba-mos um pouco até ao cimo daquela colina, ali para nascente, para se ver o perfil do terreno que fica para aquele lado.
- Subamos, irmão Bento.

(Continua)

Por: José Banido

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