Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-11-2013

SECÇÃO: Opinião

O Natal não é igual para todos

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O ano de 2013 está prestes a findar. Vai encerrar como tradicionalmente acontece, com os festejos de Natal, aos quais se seguirão as comemorações de mais uma passagem de ano que, como sempre acontece, desembocará no ano novo seguinte, ou seja, no ano de 2014.
A Ceia de Natal é festa de união, por isso, devemos encontrar lugar para os marginalizados e oprimidos e ainda para aqueles que mais sofrem para que encontrem dignidade e também verdadeira felicidade. Lembro-me das declarações do banqueiro que no início do corrente ano pro-feriu à comunicação social: “se aquelas pessoas que nós vemos ali na rua, naquela situação e a sofrer tanto aguentam, porque é que nós não aguentamos?” Como este banqueiro diariamente é barriguista, configurou uma enorme provocação em relação aqueles que vivem na angústia, no desespero, na inquietação, na fome e os sem-abrigo.
Na festa de Natal deve-mos ter em conta três princípios fundamentais, os quais devemos seguir: é preciso renunciar à violência e prepotência e respeitar absolutamente a dignidade dos nossos familiares e amigos, mas também aqueles que sofrem; é preciso quebrar os esquemas de exploração e de imoralidade e proceder com justiça; é preciso sair do egoísmo e aprender a partilhar. Para sermos solidários, porque não abdicar de um convívio interparoquial, de uma refeição abastada, uma viagem dispensável, a despesa de um vício, o bilhete de um evento, e reverter esta quantia em prol da caridade. Neste sentido, só enraizados na fé, podemos silenciar as lágrimas derramadas que a crise económica incutiu em tantos rostos humanos que peregrinam nos corações das nossas comunidades.
Na época natalícia e fora dela, o Banco Alimentar contra a fome, a Missão Sorriso e outras instituições reúnem voluntários para recolha de bens alimentares para serem distribuídos por aqueles que nada têm. Estou plenamente de acordo com esta iniciativa, mas por outro lado não estou de acordo que muitos destes alimentos sejam entregues a pessoas com bons rendimentos e com enormes contas bancárias. Faço esta afirmação porque entre 2002 e 2005, cujo ano não posso precisar, viajei numa viatura táxi, da localidade de Vila Pouca de Aguiar, com destino a Cabeceiras de Basto, e durante o percurso, dialoguei com o condutor da referida viatura sobre diversos temas da vida quotidiana e da situação económica do nosso país. Este condutor em dado momento disse: “ontem, recebi um telefonema para ir levantar bens alimentares. Como não necessitava, fiquei pensativo e questionei-me: “não pode ser verdade, só pode ser puro engano”. No entanto, como esta situação se mantinha na minha mente, resolvi ir ao local que me indicaram. Quando cheguei, fiquei envergonhado porque eu era o mais pobre que lá estava, razão pela qual não recusei o cabaz que me entregaram”. Esta situação não abona, não alicerça, nem privilegia os mais pobres ou os que mais sofrem.
Com a crise económica que o país atravessa, milhares de crianças vão ficar desoladas porque não vão receber uma simples lembrança, nem vão ter na sua mesa nenhum alimento, pelo facto dos pais se encontrarem desemprega-dos. Para estas crianças que anseiam chegar ao dia de Natal e que serão o futuro de amanhã, vão entrar na ansiedade, desilusão, e inconformismo, por nesta fase não terem um convívio de sã e calorosa harmonia familiar. Assim sendo, só vão sorrir no Natal do ano 2013, a classe média alta, os ricos e os milionários. Relativa-mente à classe média baixa que nos dias de hoje está no limiar da pobreza, terá de passar o Natal de acordo com as possibilidades de cada família. Quanto à pobre-za não vale a pena dar voltas à cabeça, porque nada vão ter na sua mesa para passarem a noite mais bela do ano.
O Natal do ano de 2013 vai ser de uma pobreza enorme, porque o governo cortou em tudo, incluindo nas pensões de reforma, e aumentou os impostos alegando não ter dinheiro. Neste sentido, como será passado o Natal de 2014, com os impostos anunciados a partir do dia um de Janeiro deste ano? É verdade que este descalabro é uma enorme provocação a todas as famílias que passam fome. Não é justo que o governo se preocupe em ampliar a sua própria riqueza e a dos ricos, e não pense em deixar de explorar a miséria e o sofrimento dos pobres. Assim sendo, pergunto: “porque razão veio um motorista de Lisboa a Guimarães, distrito de Braga, com a viatura do estado que lhe está distribuída, buscar uma secretária de Estado e ao final da tarde voltou a trazê-la a Guimarães, tendo o motorista regressado a Lisboa?” É verdade que este motorista efetuou quatro viagens cansativas, mas por outro lado foi esbanjado dinheiro que podia ajudar a pobreza extrema que existe no nosso país, se a senhora secretária de Estado utilizas-se o seu próprio veículo. Para os governantes não existe austeridade, esta, só se aplica àqueles que menos têm.
Neste sentido, o Natal não é igual para todos. Contudo, apesar de tantos males do tempo presente somos uma comunidade pobre, mas rica de esperança, por isso, existe sempre um sinal desta esperança fundada na fé.
Neste contexto, para aqueles que não podem celebrar o Natal em harmonia familiar por razões económicas, desejo a todos uma perfeita saúde, muita força e coragem, para que o vosso coração encontre neste mundo a verdadeira felicidade, porque a riqueza de um país é toda a população que nele vive, e somos todos necessários para fazer crescer o nosso lindo território à beira-mar situado. Em suma: a festa de Natal toca no coração porque lembra-me daqueles que sofrem e todos aqueles que já partiram deste mundo com destino à vida eterna mergulhados na fé.

*Colaborador

Por: Manuel Sousa

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