Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-11-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (181)

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A minha militância política

Eu sei que corro o gravíssimo risco de vir a ser mal interpretado. Estou perfeitamente ciente de que posso até ser vítima de qualquer processo de marginalização. Mas, paciência. O facto é que, nos últimos tempos, tem vindo a faltar-me imaginação quanto a matérias interessantes que possam honrar a ocupação deste espaço.
Dir-me-ão os mais práticos: se não tem ideias, não escreva, irra! É este meu terrível vício. Não sei como me livrar dele. Vou-me contentando em condensar em duas ou três páginas aquilo que, para Rodrigues dos Santos, daria vinte ou trinta. Que diabo! Esta vida é feita de riscos. E espero, muito sinceramente, que ninguém venha a arremessar-me pedras só porque eu ousei escrever sobre esta ou aquela matéria que, a alguns, poderá parecer menos própria.
Em boa verdade, eu até estava para escrever, neste número, algo que penso irá ser bem interessante. Vai ser sobre o Vietnam dos dias de hoje e a sua história mais recente. As duas guerras, a primeira contra os franceses, e a segunda, que eu vivi de bem perto, contra os americanos, aquela dos bombardeiros gigantes B52, das bombas de napalm e da menina nua, de seis anos de idade, a correr pelas ruas de uma localidade próxima de Saigão, fugindo dos estilhaços das bombas que caíam dos B52.
Porém, mais do que o texto que aqui estou a dar à estampa, “a minha militância política”, aquele outro, sobre o Vietnam, precisa de ser bastante mais bem preparado. Esse, se tudo correr bem, ficará para o próximo número.
Já toda a gente sabe que eu sempre torço pelo mais fraco. É no futebol, é nas pequenas questões de bairro, é na política. Ele é num sem número de situações, por exemplo, numa chega, sempre torço pelo menos corpulento dos barrosões. Se vejo dois sujeitos de rua à pancada, eu torço pelo mais magro, se a altura de ambos for semelhante, ou então pelo mais pequeno, se o elemento que os distingue é a altura.
Também tenho um estranho modo de pensar, no que à política diz respeito, que é o de admitir sempre que o elo mais fraco é o governo. Apesar de ser o governo a entidade que redige e publica a maior parte das leis que a todos nos atormentam, no universo da política, entre governo e oposição, o governo é sempre o elo mais fraco.
Se lerem alguns dos meus textos, verão que, em devido tempo, tracei aqui rasgados elogios à governação de José Sócrates (agora não gosto dele como comentador televisivo), continuo a afirmar que o julgo o melhor chefe de governo de todo o período que se seguiu ao vinte e cinco de Abril de 1974.
Só quem já não se lembra do que era a burocracia e o emaranhado das obrigações de natureza fiscal e registral, que existiam antes do período em que Sócrates fora chefe do governo, é que poderá recusar-lhe esse mérito, o mérito de ter desencadeado uma autêntica reforma de natureza administrativa e fiscal.
Acusam-no de ter endividado o país para construir auto estradas? Eu continuo a afirmar que de todo o dinheiro que se gastou, desde o período do oásis de Cavaco Silva, até ao fim do período que levou ao resgate internacional de José Sócrates, o menos mal gasto foi o que se investiu em auto estradas. Essas, as auto estradas, estão aí para o futuro. O dinheiro que mais se perdeu foi todo aquele que foi dado, de mão beijada, os “famosos” fundos perdidos entregues a empresas fantasma, para equipamentos fantasma e criação de postos de trabalho fantasma.
De todos os governantes, aqueles que, a tal respeito, tiverem a consciência tranquila, comecem a arremessar pedradas.
Quando Passos Coelho era oposição a Sócrates, eu torcia por Sócrates. Agora que António José Seguro é oposição a Passos Coelho, eu torço por Passos Coelho. Sempre torço e torcerei pelo mais fraco.
Aquando do desaire eleitoral autárquico, que levou António Guterres à demissão de chefe do governo e da liderança do partido, fui abordado por alguns amigos, cá da terra, no sentido de integrar uma vaga de fundo com vista a reforçar a militância partidária. Convenceram-me a inscrever-me como militante. Como é público e notório, ingressei no partido quando ele se encontrava na mó de baixo.
Eu gosto muito de números, não dos números dos agiotas, eu gosto dos cardinais, desde o meu número de matrícula no exército português, que ainda sei de cor (89984/66), a muitos outros, por exemplos os PINs dos cartões Multibanco.
No PS, coube-me o número 60900! Óptimo (com p), para os meus gostos. Desde o princípio que sempre mantive o pagamento das minhas quotas em dia. Eu primo pelo pagamento atempado de todas as minhas obrigações.
Todavia, a partir do momento em que me apercebi que o PS era o único partido, com assento parlamentar, que se opunha à criminalização do enriquecimento ilícito, deixei logo de pagar as quotas e esperei, com alguma ansiedade, que me remetessem qualquer tipo de aviso, fosse a questionar-me sobre a razão por que não cumpria com as minhas obrigações, ou, muito pura a simplesmente, a comunicar-me a expulsão. Eu gostava de ter sido expulso por falta de pagamento das quotas. Logo explicaria a razão da minha atitude.
Mas não, esse gosto não me foi dado. E então acabei por me decidir, antes do último acto eleitoral, em carta muito simples, com duas linhas apenas, a devolver o cartão e a explicar: “Por razões de natureza estrita-mente pessoal, sirvo-me da presente para apresentar o meu pedido de renúncia à situação de militante do Partido, juntando, em anexo, o respectivo cartão”.
Continuo a não gostar da postura da direcção do PS relativamente ao actual governo. Também me custa a aceitar que sejam os únicos que se dão bem com o enriquecimento ilícito. Cada um saberá da sua família.
Resta-me a consolação de os ter deixado quando se encontravam (se encontram), na mó de cima. Oposição ruidosa e sem grande sentido.
Esta é a história da minha militância política. Não tem mesmo nada de especial, é bem simples, aliás, como simples penso que serão todas as minhas histórias.
Disse.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

*Colaborador

Por: José Costa Oliveira

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