Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-10-2013

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O MOSTEIRO E O BASTO (5)

- Que me diz, irmão Martinho, quanto a ficarmos por aqui?
- Parece-me ser um belo local, irmão Bento. Se quer que lhe diga, em termos de configuração do terreno e do espaço, parece-me em tudo semelhante aos terrenos envolventes do nosso Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro.
- Também já tinha reparado nesse pormenor, irmão Martinho, e é exactamente por isso que mais facilmente me convenço de que nos deveremos instalar aqui.
- Por mim tudo bem, não tenho qualquer objecção a apresentar.
- Muito bem. Então, vamos dar início, de imediato, à transferência de todas as nossas coisas que temos em Várzea Cova para aqui. A estratégia que proponho é a seguinte: amanhã, logo pela manhãzinha, o irmão toma o seu cavalo e volta a Várzea Cova, põe o irmão João ao corrente de tudo, e os dois iniciam a mudança. Como é bom de ver, eu ficarei aqui a tomar conta do local e a dar inicio aos trabalhos de preparação das instalações.
- Sim senhor, irmão Bento. Mas, e os nossos vizinhos?
- Ah! Pois é..., os nossos vizinhos de Várzea Cova… Penso que já falámos sobre esse assunto…, se bem me recordo…
- Sim, sim, já abordámos a questão, há uns dias atrás, e o irmão Bento disse que reuniríamos com eles e que faríamos como que um acordo de relações de vizinhança, que até poderíamos recrutar lá alguns trabalhadores para o nosso projecto de instalação neste lugar.
- É isso mesmo. Amanhã, logo que lá cheguem, você e o irmão João fazem uma visita a cada um dos lares e explicam a situação tal e qual ela é, que encontrámos um sítio que nos parece ter melhores condições para o nosso projecto, mas que vamos manter, para sempre, fraternos laços com toda aquela gente, que alguns deles até poderão vir trabalhar connosco, e ainda que, quem o saberá, alguns poderão vir a tornar-se mesmo nossos irmãos e integrar a nossa comunidade.

***

Não houve chefe de família, daquele pequeno lugar da encosta de Várzea Cova, que não expressasse um duplo sentimento, grande espanto e grande tristeza, quando os dois frades se lhes dirigiram, pessoal-mente, e os informaram de que os iriam deixar.
Sossegaram um pouco quando os frades lhes disseram que ficariam bastante próximos, umas cinco milhas, um pouco mais ou menos, para o lado de nascente, e, de caminho, pouco mais que duas horas seriam suficientes para o percurso, era subir a encosta até Fojos, que todos conheciam, avistava-se de lá de baixo, depois um pedaço em plano, menos de meia hora, e finalmente uma descida, que não demoraria mais do que uma hora. Nada de muito difícil, procuraram tranquilizar os frades.
E as coisas ficavam ainda mais fáceis quando o frade Martinho da Cruz lhes dizia que iriam dar início à construção de um mosteiro, e a uma grande quinta em seu redor, e que, para isso, iriam necessitar de muita mão de obra. Que recorreriam, sempre que necessário, a pessoal daquela aldeia, uma vez que já todos se conheciam e tinham a certeza que eram gente da mais elevada confiança.
Os dois frades não desmontaram nada do que tinham construído. Com a ajuda de alguns dos habitantes locais, e durante dois dias, transportaram todas as coisas, ferramentas, alfaias e animais domésticos, para o novo sítio que começaram por chamar de Refojos.
Refojos? Por quê, Refojos? No dia que os dois, Bento Mendes e Martinho da Cruz, se tinham deslocado para o lado nascente, depois de terem parado por umas duas horas no chamado lugar do Souto Longal, arriscaram um pouco mais e desceram até às poldras, de que alguém já lhes tinha falado. Ali, encontraram-se com um moleiro com quem travaram conversa, falaram sobre muita coisa, mas, o que ficou na memória de frei Martinho foi que, quando lhe perguntaram o nome da terra, o nome de todo aquele espaço mais amplo que se via em redor, ele lhes tinha feito uma pequena prelecção acerca do nome. Relatara:
- Fojo é um barranco, um buraco, onde se pode esconder um animal, entendem? Pois é, como podem observar, por aqui há muitos barrancos, muitos buracos, repetição de barrancos, repetição de buracos, logo, Refojos! Não é assim? Os antigos é que sabiam! Aqui têm a origem do nome destas terras, Refojos.
Fora rápido, conciso e preciso na explicação, o moleiro.
Aqueles três frades, Bento Mendes, Martinho da Cruz e João Moniz instalaram-se, definitiva-mente, numa cabana, por eles edificada, sob a ramagem de um medronheiro gigante, na base de um pequeno morro que os protegia do vento norte e se situava no sopé da encosta do monte de Vinha de Mouros, no centro daquele vasto espaço que chamavam de Refojos, em finais do mês de Maio do ano de 1119.
Iniciar-se-ia ali, e naquela data, a instalação daquele que viria a ser o Mosteiro de S. Miguel de Refojos.
Enquanto que o Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro fora fundado, por Dom Gomes de Aciegas, em 18 de Julho de 1059, o de S. Miguel de Refojos foi fundado, em 26 de Outubro de 1131, por Dom Gueda Mendes, tudo conforme consta de inscrições em locais próprios e que podem ser consultadas junto de cada um daqueles dois monumentos nacionais.
Dom Gueda Mendes deve ter sido o prossecutor de Bento Mendes na concretização daquele projecto.

(Continua)

Por: José do Banido

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.