Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-10-2013

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O MOSTEIRO E O BASTO (4)

Atravessado o regato, o caminho começava a descer um pouco mais, mas ainda com uma grande dose de suavidade. Anda-dos uns duzentos passos mais, encontraram um penedo, de grandes dimensões, que se encontrava como se alguém o tivesse levado para ali, de propósito, e o colocasse na berma do caminho, do lado de baixo, ou seja, do lado direito do sentido em que os dois homens seguiam, quase pendente para a ribanceira, era um bom ponto de referência.
- Este penedo deve ter algum nome que o identifique – disse o frade Martinho da Cruz, lá para a frente, em voz bem alta, uma vez que seguia à retaguarda do chefe de equipa, o frade Bento Mendes.
- É, deve ter algum nome que o identifique. Por enquanto, servir-nos-á de referência, deve representar o ponto médio da distância entre o lugar da nossa partida de hoje, Várzea Cova, e o lugar de destino, que ainda não conhece-mos, mas que fica lá no fundo da descida que neste momento estamos a iniciar, – foi a resposta do frade Bento Mendes, ao mesmo tempo que atravessava a montada no caminho para melhor ver e fazer-se ouvir pelo parceiro de jornada – sigamos, então, irmão Martinho – concluiu, enquanto endireitava o cavalo para a frente, de novo, e iniciava o percurso mais inclinado da descida.
- Sigamos, irmão Bento Mendes – anuiu o companheiro.
A viagem transformara-se numa espécie de estudo exploratório, pelo que a fizeram muito devagar, o que demorou quase três horas até chegarem àquele ponto que o chefe tinha idealizado e estava em concordância com o que fora o seu sonho.
Passaram por um lugar que ficaram a saber chamar-se Outeiro, depois outro, um pouco mais pequeno, que alguém, a quem com alguma parcimónia o frade Bento perguntou, lhes disse, chamar-se a Raposeira.
Apenas meia milha para baixo, chegaram a um sítio que lhe pareceu, ao frade Bento, ser aquele ponto central que tinha avistado de lá cima, daquele pico da serra da Penouta.
Seguiram uns duzentos passos ao lado da ribeira, pela sua margem esquerda. Neste espaço, a ribeira se-guia em plano e havia muita vegetação de pequeno porte nas suas margens. Estava-se em finais de Maio, pelo que tudo era verde e florido, as rãs coachavam sem cessar.

***

Naquele exacto local, onde hoje se encontra a loja dos produtos tradicionais, há cinco décadas atrás, havia uma espécie de morro que marcava a extremidade poente dos quintais da Casa da Renda. Mesmo na esquina daquele lado, do lado poente, e a uma cota um pouco acima do nível do caminho que seguia para os acessos ao casario dos caseiros da quinta e ao lagar de azeite, existia um tanque bastante grande, que era alimentado pela água que vinha de uma levada, originária na ribeira de Penoutas, e que atravessava a via pública, a Estrada Nacional 205, através de um sifão. Ainda hoje se pode ver o ramo descendente desse sifão, do lado norte, no sítio onde existia o morro.
Naquele mesmo sítio, por onde fora rasgada a Estrada Nacional 205, e onde se pode observar, nos dias que correm, aquele portão, de passagem estreita apenas para peões, e por onde entravam as meninas, envergando batas azuis, para o colégio, a partir dos anos quarenta do século XX, consta-se que, em princípios do século XII, existia ali, no meio de luxuriante vegetação arbórea, um frondoso medronheiro.
Foi sob a protecção da ramagem bem verde, e bem viçosa, desse medronheiro de grandes dimensões, que os dois frades acabados de chegar, vindos dos lados de Fafe, oriundos do Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, se instalaram pela primeira vez. Construíram ali a sua cabana.
Não havia vivalma em redor. No caminho que tinham seguido até ali, a última povoação que haviam encontrado fora a tal que se chamava Raposeira, fica a cerca de meia milha para poente.
Para norte, não se avistava nada, era um monte bastante alto, que vieram a sabre chamar-se Vinha de Mouros.
Para sul, também não se avistava povoado, via-se uma colina um pouco mais baixa que se chamava Alto do Pinheiro.
Para nascente, e depois de, no dia seguinte, terem andado, os dois, um pedaço, encontraram um pequeno povoado. Esse povoado chamava-se Souto Longal, e ficava sobranceiro a um rio de caudal razoável, que só poderia ser atravessado por umas poldras, operação bastante arriscada para cavalos. Porém, em tempo que não fosse de muito Inverno, os cavalos podê-lo-iam atravessar a vau.
Ficaram ambos cientes de que, para nascente, a progressão só poderia ser bem sucedida em tempo de Verão. A menos que, entre-tanto, descobrissem algum local onde houvesse a possibilidade de travessias de barco.
Este não seria grande problema, pelo menos nos tempos mais próximos, uma vez que tudo parecia indicar que ambos iriam decidir-se pela instalação naquela chã do sopé do alto de Vinha de Mouros.
Entretanto, repararam numa terceira elevação do terreno que, no seguimento das de Vinha de Mouros e do Alto do Pinheiro, seguindo-se o sentido inverso ao da rota do sol, fechava a área de protecção à planície que lhe ficava ao centro, era o Alto do Monte.
Regressados à cabana, e passado mais um dia, foi a altura das grandes decisões. Como não podia deixar de ser, foi o frade Bento Mendes quem delineou as coisas. Os dois cavalos, esses pastavam a rédea solta, nas margens da ribeira, a erva dava-lhes pelo meio das canelas. Água, não lhes faltava.

(Continua)

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