Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-10-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (179)

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O CESTEIRO

É feita de varinhas de salgueiro, leva uma tampa com duas dobradiças, tudo do mesmo material, que abre e fecha pelo lado de cima, e é segura com um travessão da mesma madeira, uma secção de vara de salgueiro, um pouco mais grossa do que aquelas que dão corpo ao artefacto. Chama-se uma cesta de merendas.
Por razões de logística e de sentimentalismo, deparei-me, há dias, com a necessidade de procurar quem me vendesse, ou fabricasse, uma dessas cestas de merendas.
Nos tempos em que eu era rapaz, havia um cesteiro, que morava e trabalhava no lugar da Trancada, freguesia de Abadim, era o Senhor Avelino (Cesteiro), que fazia toda essa categoria de artesanato. Esse homem já foi para o céu há muitos anos, e parece que não deixara descendência, pelo menos no domínio da profissão.
Perguntei se ainda haveria, nos dias que correm e cá por Cabeceiras, algum sobrevivente que se dedicasse à arte. Consegui a informação de que sim senhor, que havia em Outeiro, junto à estrada, e um pouco antes do Penedo da Palha, um homem que ainda trabalhava no ramo, que fazia cestos, cestas, jigas, açafates e encanastrava garrafas e garrafões.
Não perdi tempo e dirigi-me ao local. Tive sorte, o homem encontrava-se no seu posto e em plena laboração. Foi numa sexta-feira do mês de Março do ano que corre, de 2013.
Chegado ao local, e ao verificar o recheio da oficina, logo me ocorreu um sentimento muito especial, ainda antes de engendrar a encomenda que ali me levara, pensei em escrever um texto, uma crónica, alusiva à actividade e à vida desta categoria de gente, destes homens e daquelas mulheres, de todos quantos se dedicam às mais variadas formas de artesanato.
Todavia, e depois de passar os olhos pelo amontoado de peças que havia por toda a loja, e de me ter certificado de que não tinha lá qualquer uma do tipo daquela que eu procurava, comecei por lhe perguntar se seria possível fazer-me aquela cesta. Expliquei as formas e o tamanho.
- Sim senhor, não tenho aqui nenhuma, são muito procuradas, mas dão muito trabalho e só as faço por encomenda, chama-se uma cesta de merendas – elucidou-me.
Ajustámos o preço, que foi de trinta euros, e o prazo de entrega, que seria lá para finais de Abril, que ainda tinha que apanhar as varas, estava-se exactamente no tempo de apanhar as varas, que é nos meses de Fevereiro a Abril, e depois ainda precisavam de secar um pouco.
Não coloquei qualquer espécie de exigência especial, nem regateei preço nem prazo de entrega. Para mim, estava tudo certo, o que eu queria era a cesta para transportar o meu farnel, para os jantares das quartas e quintas-feiras, que são os dias que janto cá em Cabeceiras. Isto, porque entretanto a minha mãe tem vindo a perder aquela capacidade, que até aos noventa anos tivera, de me preparar essas refeições.
Fechado o contrato, e com a confiança do homem do meu lado, entrei no campo da crónica, e cedo verifiquei que tudo iria ser muito simples, dada a facilidade com que ele discorria sobre a sua vida e sobre os antepassados, os seus e os outros.
O nosso cesteiro chama-se José Joaquim Pereira Leite, filho de Manuel Alves Leite e de Maria Augusta Pereira Leite. Nasceu a 22 de Novembro de 1935. É o quinto de sete irmãos, seis homens e uma mulher. Fala do irmão que lhe seguiu, o sexto, que fora para polícia e se encontra na situação de reforma.
Pretendi saber se herdara de seu pai a profissão (arte) de cesteiro. A resposta foi negativa. O pai, que no tempo em que os filhos nasceram morava no lugar de Paneladas, tinha dois ofícios quase sucedâneos, era sapateiro, consertava e fazia botas de pneu, e tamanqueiro, fazia toda a categoria de tamancos, socos e socas.
- Então, como é que entrou na arte da cestaria? - inquiri.
- Foi a minha mãe que disse, tanto a mim como aos meus irmãos, tendes que aprender uma arte, cesteiro é muito bom. Naquele tempo, havia um cesteiro em Painzela, mas com esse não quisemos nada. Foi um familiar dos fogueteiros, que morava em Calvelos, esse só fazia açafates, mas foi ele quem nos ensinou os primeiros passos. Foram apenas quatro ou cinco dias, quatro ou cinco lições, aprendemos a fazer os açafates, bastante toscos de início.
- O senhor foi tropa?
- Não, eu não sabia ler.
- Mas disse-me que um seu irmão foi para a polícia.
- Pois foi, foi o Domingos. Esse foi o que veio depois de mim, mais novo, e já teve a sorte de ter ido para a escola.
- E você, passou toda a sua vida, já tem neste momento setenta e sete anos, passou toda a sua vida a fazer cestos e açafates?
- Não, olhe, a minha vida dava um romance. Fui emigrante, estive em França e na Alemanha, pouco tempo em ambos os lados, pouco mais de dois anos. Depois, vim e arranjei trabalho no Porto, trabalhei numa fábrica de cabedais que havia no Ameal, chamava-se Monteiro Ribas. De seguida, trabalhei noutra, ali perto, de que não me lembro o nome. Também não estive por lá muito tempo. Juntei algum dinheiro, que me deu para construir esta casa, e voltei à terra e à arte.
- Apesar de tudo, julgo que não terá feito mal de todo – apoiei ao mesmo tempo que punha nova questão, sempre com o máximo de parcimónia – qual é o seu estado, é casado, tem filhos?
- Não, não sou nem nunca fui casado. E, por essa exacta razão, não tenho filhos.
- Vive só?
- Sim, vivo só.
- Como se chama aqui este lugar?
- Pinhó, chama-se Pinhó.
- Então, pelo que me disse, não sabe ler.
- Sei ler, sim senhor, fiz a quarta classe na escola de adultos, quando tinha para aí uns trinta e cinco anos e precisava de tirar a carta de condução. Foi aqui na escola de Outeiro, no ano em que foram abertas as inscrições para adultos com aulas à noite. Foi com o Professor Alexandre, ele de dia dava aulas aos peque-nos e à noite dava-nos aulas a nós.
- Ainda bem, eu vou escrever uma crónica sobre a sua história e depois trago-lhe um exemplar do jornal para você ler, está de acordo?
- Sim senhor, estou de acordo.
O espaço já vai longo, contudo, não posso terminar sem deixar aqui um pequeno desafio: aquele homem tem uma grande oficina repleta de artefactos de varinhas de salgueiro e de vime e de lascas de carvalho e zangarinho. Não tem mãos a medir para as encomendas. Ainda trabalha, mas já passou a idade da reforma há muito tempo. Dentro em breve deixará o lugar vago e não haverá mais, por estes lados, a quem se possa encomendar uma cesta de merendas.
Por que não, alguém mais jovem lançar-se no ramo, e dar continuidade ao trabalho (arte) do Senhor José Joaquim Pereira Leite?

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador

Por: José Costa Oliveira

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