Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-09-2013

SECÇÃO: Recordar é viver

O Basto e a sua história

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Guerreiro Lusitano

Há já algum tempo, que um ou outro leitor do Jornal Ecos de Basto, em especial aqueles que se encontram no estrangeiro me pedem através de missivas ou pessoalmente, quando vêm passar as férias, desdobráveis ou outra informação sobre a origem do Basto, em Cabeceiras de Basto.
Já muito se tem escrito e falado deste guerreiro lusitano. A Autarquia Cabeceirense tem apostado muito na cultura, especialmente no estudo da história local, o nosso património, as nossas origens, as tradições, apoiada pelos entendidos legítimos, devidamente credenciados para o fazer, nas diversas conferências com diferentes áreas efectuadas para o efeito. E, devo dizer, com enorme sucesso!
Nem toda as pessoas de Cabeceiras ou arredores, que realmente têm curiosidade em saber mais da importância da sua terra, têm possibilidade de assistir devida às suas ausências, para fora da sua terra. Quando se dirigem a nós, imprensa, ou meio de divulgação, perguntam sobre a história de monumentos importantes, como o Mosteiro de Refojos ou neste caso sobre a figura do Basto, e tentamos da melhor maneira responder aos anseios dos nossos leitores.
É o que eu vou tentar fazer hoje. Fui mais uma vez ao arquivo de textos e fotocópias que o meu marido guardava religiosamente, e aí encontrei um livrinho pequeno sobre a estátua do Basto onde nele fala da sua origem. Nem de propósito, pensei eu para mim. Vou transcrever estes manuscritos na íntegra, esperando corresponder aos anseios de todos os leitores em especial aqueles que como eu são sedentos de curiosidade em conhecer as origens de todas as coisas que nos rodeiam. Neste caso, a origem do nosso Basto.
O autor destes pequenos apontamentos, foi Luís Chaves, em 1934.
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Com a devida vénia

“O Basto”

Estátua de Guerreiro Lusitano, em Refoyos de Basto
Por Luís Chaves, Conservador do Museu Etnológico do Dr. Leite de Vasconcelos e Sócio do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, em 1934, na Tip. Augusto Costa & Cª, Ldª, Braga
O “BASTO”
Estátua de Guerreiro Lusitano
em Refoyos de Basto
Sua significação antiga e actual
Um dos monumentos mais curiosos de Terras de Basto é por certo a estátua do “BASTO” em Refoyos, cabe-ça do concelho de Cabecei-ras de Basto.
Alia à sua antiguidade, embora desfigurada, o sen-tido actual, que o povo localmente lhe dá.
Não se sabe onde a estátua apareceu. Sabe-se como é como está, e a importância arqueológica que tem.
Há mais destes monumentos em Portugal, e houve-os em Espanha, cujas notícias destes derradeiros e se perderam. As existentes e as perdidas estátuas, da mesma família artística e arqueológica da de Refoyos, provêm da Galécia antiga, do Douro para riba, no que para nós forma hoje terras de Trás-os-Montes e Entre Douro-e-Minho, e, do lado de lá do rio do Minho, a Galiza. Apareceram perto de castros, povoados antigos fortificados.
Representam guerreiros lusitanos, desta gente dedicada à guerra, e que tamanho desgaste e desaire produziu nas legiões romanas, que a procuravam sub-jugar.
Serviram para colocar sôbre as sepulturas de alguns dêsses guerreiros, heróis endeusados. Em povos antigos e actuais está verificado êsse uso. As estátuas não tinham pés; a de Capeludos, do concelho de Vila-Pouca de Aguiar, está reduzida ao busto. Coloca-das sôbre a sepultura, figurariam a imagem do defunto, e para elas passavam, na crença dos povos de tal uso, as almas dos mortos, a que então podiam prestar-se honras inteiras e reclamar ajudas. Saíam assim da terra, como ressurgentes da própria terra, onde repousavam ad aeternum.
Uma das estátuas conhecidas da Galiza (Celanova) e a de S.Paio-de-Meixedo têm inscrição condizente ao uso funerário, seja ela do mesmo tempo ou posterior às esculturas. Nêste caso, confirma um hábito consagrado na arte e na tradição do Noroeste ibérico.
As que existem, estão guardadas em Museus:- no “Museu Etnológico do Dr.Leite de Vasconcellos”, em Lisboa, as duas do Outeiro-Lasenho (Castro) de Montalegre, únicas que têm cabeça primitiva – o busto de Capeludos, também com cabeça e de capacete cónico, - o tronco humano de Cendufe, bem ornamentado, - outras duas estátuas, acéfalas, mas de formosos lavores esculpidos no peito e no saial, provenientes de Campos(Boticas); - no Museu do Pôrto a de S.Paio-de-Meixedo, cuja cabeça lhe não pertence (1); - as de Santo Ovídio-de-Vizela no Museu de Guimarães.
Só a de Refoyos pára ao ar livre.
(1) A estátua calaica de Meixedo, conhecida também por estátua de Viana, tem aplicada uma cabeça alheia; gravaram-lhe ramagens simétricas no peito, discordantes das que se vêem nas outras estátuas da mesma família artística; armoriaram-lhe o escudo, para a transformar em guerreiro medieval, ascendente de família.
Êstes monumentos são anteriores à vinda dos Romanos, embora possam ser desse tempo as estátuas, que mostram os letreiros inscritos em latim:a de Meixedo e da Celanova, esta desaparecida. Concordam com as descrições que os escritores clássicos faziam dos Lusitanos, ao tempo da conquista romana.
De granito, rudes na arte, anatomia tosca mas forte, tamanho avultado, por vezes acima do natural (desde 1m, 70 na de Santo – Ovídio de Fafe a 2m,50 numa das de Outeiro-Lase-nho), os guerreiros das estátuas vestem túnica ou sagum nalguns muito ornamentada, de desenhos em forma de SS ou de torçal, e de xadrezado no saial; cinge –os cinturão largo de três ou quatro cordões paralelos com passadores ou fivelas; empunham com a esquerda escudo redondo, pequeno ou ligeiramente oval no Meixedo, a cetra, decorada em alguns, sobretudo de Cendufe; o escudo é sempre centrado no abdómen; seguram com a mão direita punhal ou adaga curta ou larga, (tipo de Hallstat II), ora na baínha com seu umbo redondo; nos braços e no pescoço armilas, que os circundam por adorno, talvez por prova de segurança da defesa nas de pescoço. Tal tipo artístico é para o sábio arqueólogo Bosch Gimepera uma barbarização da arte ibérica do sul. O snr.dr.Félix Alves Pereira coloca estas está-tuas cronologicamente no segundo período da Idade do Ferro(La Tène), talvez coevas da época romana-séc.I A. C.
O “Basto” obedece a este mesmo tipo. É por isso estátua funerária e honorífica de um guerreiro lusitano.
Bôa ascendência a sua!
Não está hoje, porém, como primitivamente foi.
Em 1612 e depois em 1892, modificaram-na. Poseram-lhe uma cabeça , com barretina no alto; pinta-ram-lhe fortes bigodes; ornamentaram-lhe pernas e pés, calçaram-lhe meias e botas. No peito e no escudo gravaram-lhe as letras de inscrição portuguesa, que desenvolvida, diz:
Ponte de S.Miguel de Refoyos de Basto 1612
Alude ao local onde a estátua ergueu vulto simbólico.
Tingiram-lhe botas, ligas e barretinas, de tinta preta; saio de azul; os galões, gola, punhos e calção de amarelo; colarinho, meias e escudo, de branco. E, assim, transformaram o granítico e duro guerreiro lusitano em poli-crómico miliciano, como os coevos de arranjo o entendiam e para que todos o compreendessem.
Porque não vai a estátua para um Museu?
Porque nem tudo tem deve ir para Museus e porque esta estátua representa mais, actualmente, do que figura de Museu. Significa ou melhor simboliza aos olhos e à inteligência do povo da região nada mais que a própria região personificada: o “Basto” é a figura das Terras de Basto. Como o pelourinho representou a autonomia jurisdicional de Refoyos, e por isso é hoje o monumento das antigas regalias locais, a estátua representa o espírito, a alma e as tradições da toda a Terra de Basto, é o seu símbolo e seu epónimo. Nela se vê e revê tôda a Terra de Basto, Basto inteiro na terra e na alma dos habitantes.
Com ela se liga a história lendária com que o povo explica o nome da região. Certo guerreiro de fama e força defendeu sózinho a entrada de Refoyos, junto da ponte onde a estátua ficou; eram poucos os defensores, ali ficou ele só, exclamando com orgulho do seu poder: “até aqui basto eu”. Resistiu ao inimigo, salvou a terra. Eis, sumàriamente, a interpretação popular do nome e a localização da estátua na ponte: - o herói (1).
Esta estátua vale arqueológicamente pelo que é, e etnogràfricamente pelo que o povo considera que seja. Tem, pois duplo valor : para os homens de ciência, e para os homens da região.
Contou Rocha Peixoto na revista portuense “Portugália” (2) que o arqueólogo Martins Sarmento, de Guimarães, descobridor e intérprete das estátuas dos guerreiros lusitanos de Refoyos, Vizela e Fafe, propôs comprar a de Refoyos, para o que ofereceu 10 escudos, quantia então deveras importante. Com arreganho, os da terra lhe recusaram a venda do monumento; que êle só iria para Guimarães, afirmavam cheios de desafio e arrogância, se o regimento de infantaria nº20, de guarnição na cidade, lha fôsse conquistar lá (3).
Luís Chaves.
(1)Veja a lenda descrita no folheto “Até aqui?... Basto eu!. . . “ de F.Canavarro de Valadares (Ribeyra de Pena).
(2) “ Portugália “, vol. I, Porto 1899, págs.832-838.
(3) Quem pretenda estudar mais pormenorizadamente estas estátuas, veja Leite Vasconcelos, Religiões da Lusitânia, Lisboa 1913, vol.III, págs.43 e ss.; Félix Alves Pereira, “Novas figuras de guerreiros lusitanos”, em O Archeologo Português, Lisboa 1915, vol. XX, págs. 1 e ss.; Mendes Corrêa, Os povos primitivos da Lusitânia, Porto 1924, págs. 287-290.

Esta transcrição de Luís Chaves, sobre a origem do Basto, foi reproduzida com o acordo ortográfico da época.

Nota: informo os interessados sobre história local, que foi apresentada a público, no dia 14 do corrente a nova Monografia de Cabeceiras de Basto, no Auditório da Casa do Tempo, onde se encontra à venda.

fernandacarneiro52@hotmail.com
* Colaboradora

Por: Fernanda Carneiro

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