Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-09-2013

SECÇÃO: Opinião

O MOSTEIRO E O BASTO (3)

- Está bem irmão Bento. Vós sois avisado, o quanto é suficiente, para que todas as vossas decisões não sejam passíveis de qualquer espécie de contestação.
- Qual quê, entre nós tudo tem que ser decidido em colectivo, somos um por todos e todos por um.
- É, irmão Bento, um por todos e todos por um!
Neste entretanto, chegou junto da cabana o irmão João, vinha acompanhado pelo mesmo rapaz que antes os tinha ido avisar da possibilidade da oferta de alguns coelhos e algumas frangas, ou galinhas em início de postura. O rapaz trazia uma cesta, segura da mão esquerda, com duas coelhas dentro, e ainda, cuidadosamente protegido sob o braço direito, e, com aquela mão a segurar-lhe as duas orelhas, um coelho para a reprodução.
O frade, esse trazia um cesto maior, ao ombro, com dois pares de frangas e um franganote, todos com as duas pernas amarradas e cobertos com uma rede feita de juncos. Por falar em juncos, havia-os aos milhares nas margens daquelas duas ribeiras que se juntavam ali, no ponto mais central da chã.

***

Os frades são, por norma, pessoas muito especiais. Votados, essencialmente, à meditação, não admira que meçam até ao mais ínfimo pormenor, as decisões que, mais cedo ou mais tarde, sempre acabarão por tomar.
Desta vez, porém, a decisão foi rápida. Apenas passados dois dias desde que subira e descera do ponto mais alto da serra da Penouta, reuniu com os dois irmãos e passou, de imediato, à ordem de trabalhos, ordem de trabalhos que era, nada mais, nada menos, do que decidir quanto à deslocação de dois deles até ao local que avistara de lá de cima, daquele cume que melhores vistas tinha sobre a grande planície.
Começou, então, o irmão Bento Mendes:
- Meus queridos irmãos, esta noite tive um sonho maravilhoso…
- Ai sim! Conte, conte, irmão Bento – questionou de pronto o irmão João que ainda não tinha tomado conhecimento do passeio que aquele tinha feito até ao alto da Penouta.
- Desculpe, irmão João, mas, e antes de tudo, tenho de informá-lo que há dois dias fiz um passeio bastante longo, até ao ponto mais alto daqueles montes que ficam ali para nascente. Na ocasião, comentei isso com o irmão Martinho, o irmão João encontrava-se ausente, tinha ido recolher aquelas ofertas que nos foram feitas pelos nossos vizinhos aí do lugar e, entretanto, outros afazeres houve e não surgiu o momento oportuno de colocá-lo ao corrente desse meu passeio. Mas, e resumindo, avistei de lá, do cimo de um dos outeiros que fica mais para nascente, uma extensa planície, ao que tudo leva a crer rasgada por um caudaloso curso de água que, como comentei com o irmão Martinho, me pareceu ser um local bastante melhor do que este para darmos início ao nosso projecto de criação de um grande mosteiro, aqui por estas terras…
- Está muito bem. E então, o sonho – volveu de novo o irmão João.
- Pois é, o sonho foi, mais ou menos, tudo isso. Eu sonhei que estávamos mais de cem anos para a frente, que estávamos em finais do século XIII, que o rei de Portugal era um neto, neto em terceiro ou quarto grau, talvez um trineto, do nosso actual rei D. Afonso Henriques, e que se chamava, imaginem o nome com que eu sonhei…, Dinis! Que nos tínhamos instalado naquele vale e que tínhamos ali construído um grande mosteiro, com instalações para sessenta irmãos, e que, no espaço de mais de uma milha em redor, tínhamos uma grande quinta, toda murada com muros de quinze palmos de altura…, um sonho…, sem qualquer dúvida!
- Em boa verdade, eu dei-me conta de que o irmão mostrou grande excitação a certa altura do sono, pensei até que estivesse a padecer de algum pesadelo e estive tentado a acordá-lo. Ainda bem que o não acordei, caso contrário ter-lhe-ia interrompido o sonho. E quem sabe, se esse sonho não será um bom prenúncio?
- É, irmão João. Quem sabe se não será um bom prenúncio. Em face disso, pergunto-vos se estão de acordo em que dois de nós façamos uma viagem exploratória até esse ponto. Em princípio, será apenas uma viagem exploratória, que me dizem?
- Por mim, estou plenamente de acordo – respondeu o frade João.
- Da minha parte, também nada tenho a obstar, antes pelo contrário – volveu o frade Martinho.
- Muito bem, então iremos amanhã, se o tempo estiver de feição. Concordam em que vá eu próprio na companhia do irmão Martinho, que é o mais jovem do grupo?
Houve pleno acordo quanto à proposta apresentada pelo chefe, frei Bento Mendes. Nem Martinho da Cruz, nem João Moniz, levantou qualquer espécie de objecção.
No dia seguinte, manhãzinha cedo, os dois, cada um montado no seu cavalo, largaram da chã de Várzea Cova em direcção a nascente. Subiram toda a encosta, não no sentido do ponto mais alto da serra da Penouta, não era necessário qualquer tipo de observação à distância, mas sim pelo ponto mais baixo entre colinas da crista da cordilheira. Seguiram o caminho que de Fafe levava para nascente e passava pelo lado norte de um pequeno lugarejo chamado Fojos.
Não se cruzaram com qualquer pessoa nas redondezas daquele lugar e seguiram em frente, agora em terreno quase plano, mas a descer muito ligeiramente por uma extensão de mais de meia milha. No ponto onde terminava aquela chã de planalto, atravessaram um pequeno regato que corria no sentido de poente para nascente e fazia ali uma espécie de cotovelo muito acentuado em curva para a esquerda, para, logo de seguida, uns cinquenta passos apenas, curvar para a direita e seguir em frente na direcção do grande vale.

(Continua)

Por: José do Banido

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