Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-08-2013

SECÇÃO: Opinião

Contos e Narrativas
O MOSTEIRO E O BASTO (2)

Buscando em relatos antigos da história de Portugal, vemos que entre esses nobres cavaleiros se distinguiram dois fidalgos franceses, D. Raimundo e D. Henrique de Borgonha, ambos descendentes dos reis de França e que terão prestado tão relevantes serviços à causa do monarca de Leão, que este, como recompensa, decidiu nomear D. Raimundo gover-nador do condado da Galiza e ofereceu-lhe, em casa-mento, uma das suas filhas, D. Urraca. Ao outro fidalgo, a D. Henrique, deu o governo do condado Portucalense, que ficava sujeito ao da Galiza, e a mão da outra sua filha, D. Teresa.
Daquele casamento, de D. Henrique de Borgonha com D. Teresa de Leão, viriam a nascer quatro filhos, dos quais apenas um era varão, este chamava-se Afonso Henriques, que viria a ser o primeiro rei de Portugal.
Voltando aos frades beneditinos, e como acaba de ficar demonstrado, a sua instalação no território que viria a ser Portugal, con-funde-se com a própria fundação do país. O nosso país nasceu ao mesmo tempo que a ordem dos beneditinos se instalou no seu território, finais do século XI e primeira metade do século XII.
O Mosteiro Beneditino de S. Miguel de Refojos foi fundado no decurso das primeiras décadas do século XII. A sua instalação está associada ao nome de D. Bento Mendes.
Como entraram no Con-dado Portucalense pela mão do Conde D. Henrique, e como a sede do governo do condado era em Guimarães, é bom de ver que um dos primeiros mosteiros a ser criado, em terras do Con-dado Portucalense, deve ter sido o Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, em Felgueiras.
Foi dali, do Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, que, três monges, montados em três cavalos, chefiados pelo abade Bento Mendes, arrancaram à procura de um bom sítio para a instalação de uma nova unidade. Viajaram por Fafe até Várzea Cova. Ali, em Várzea Cova, pararam durante alguns meses, parecia-lhes ser um bom sítio, tinha bastante água, duas ribeiras, vindas cada uma pela sua ravina, juntavam-se ali, no meio de uma grande chã, onde, de verão, as temperaturas atingem valores muito eleva-dos, rondando os quarenta graus centígrados.
Os monges sempre procuraram lugares para se instalarem onde corresse água com abundância. Não grandes rios, mas boas nascentes de água constan-te.
Quando aqueles três, vindos de Felgueiras, chegaram à chã de Várzea Cova, já existia ali um pequeno aglomerado constituído por meia dúzia de casas muito pequenas, todas muito juntas e a meio da encosta do lado poente da chã com frente para nascente.
Depressa os monges ganharam a confiança e o apoio dos habitantes da terra e não tiveram qualquer tipo de dificuldade em fixar-se no local. Construíram a sua cabana com varas e ramos de carvalho e de giestas, uns e outros abundantes na área. Começaram a criar animais domésticos e a cultivar uma boa horta, tudo para seu próprio sustento.
Bento Mendes era o mais velho dos três. Os outros dois eram João Moniz e Martinho da Cruz.
Certo dia, num dos seus passeios pelas redondezas, Bento Mendes subiu até ao alto da Penouta. Corria a segunda quinzena do mês de Maio e estava um dia de sol claro. De lá, do cimo de um daqueles picos menores que ficam mais para nascente, avistava-se aquela grande bacia hidrográfica, verdejante em toda a sua extensão.
Fixou-se na parte que ficava mais para a esquerda, uma espécie de grande anfiteatro voltado para sul, «a cabeceira fica para aquele lado, a cabeceira…», pensou. Em redor viam-se três pequenas colinas que, sem dúvida, formariam uma espécie de protecção a um espaço amplo que lhe ficava ao centro. «Ali sim, ali será o local ideal para fundar um mosteiro, um grande mosteiro, quem o saberá, talvez maior que o de Santa Maria de Pombeiro», continuou a pensar.
Regressado à cabana de Várzea Cova, comentou com o primeiro irmão que o esperava:
- Irmão Martinho, hoje foi-me dado observar, do cimo de um monte que daqui não se vê, mas fica para ali para o lado de nascente, apenas a umas duas léguas daqui, um sítio, talvez um pouco mais baixo que este, mas bastante mais longo…
- Mais baixo significa mais próximo do nível do mar, quer o meu irmão dizer, logo mais ameno e mais largo, melhor para se instalar um mosteiro, não é verdade?
- Isso mesmo, irmão Martinho. Se calhar, é capaz de não ser muito má ideia deslocarmo-nos até lá.
- E então, porque não, irmão Bento?
- É, vamos tirar opinião com o nosso irmão João. A propósito, onde é que se encontra o nosso irmão?
- Foi ter com os nossos vizinhos, dali da encosta, que mandaram aqui um rapaz a perguntar se aceitávamos a oferta de alguns coelhos e dois pares de frangas e um frango para desenvolvermos a nossa própria criação.
- Ah! Muito boa esta gente, não é?
- É verdade, muito boa gente. Tivemos muita sorte com a escolha deste lugar. E se, efectivamente, nos decidirmos pela deslocação para esse outro, que acabastes de sinalizar, como é que vamos ficar perante estas pessoas que já nos consideram como bons vizinhos?
- Nada de grave. Reunimos com eles e prometemos que vamos continuar ligados aqui, ligados a esta simpática comunidade. Afinal de contas, fica próximo. Duas horas, para não andar muito depressa, e porque é de facto muito inclinado, tanto para o lado de cá, como para o lado de lá. Tem que se subir e descer duas encostas bastante íngremes.

(Continua)

Por : José do Banido

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