Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-07-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (176)
A DOENÇA DO NEGRILHO

Sejam eles pessoas, sejam eles animais, ou sejam eles plantas, todos os seres vivos me merecem um grande respeito. Seres vivos e não só. Eu respeito também os penedos, os rios e os ribeiros, sobretudo os ribeiros mais pequenos. Não sei mesmo se um ribeiro não será um ser vivo. Se calhar é. E, filosofias à parte, eu sou um inveterado respeitador, direi mesmo amante, da natureza.
Esse respeito, esse amor, é tanto maior quanto o forem as relações de proximidade que me possam ligar a cada um deles, a cada um desses seres, que pode ser um pequeno ribeiro. Há uns tempos a esta parte que me venho sentindo corroído por uma grande tristeza. Aquela tristeza que se sente quando nos deparamos com algo que nos fora muito querido e se encontra gravemente doente.
Estou a referir-me àquele negrilho, bem frondoso ainda no decurso da primavera que acabara de terminar muito recentemente, e agora se encontra quase sem folhas e as poucas que ainda possui estão já completamente queimadas e não tardará muito que o vento as leve.
Eu tinha uma relação de proximidade bastante intensa com aquele negrilho. A prová-lo está o facto de já lhe ter dedicado uma crónica neste mesmo espaço. (Vejam o jornal de 04/10/2010).
O banco que lhe ficava por baixo, nos idos anos da década de sessenta do século passado, era o ponto de encontro de alguns dos homens que por ali passavam parte das suas tardes. Lembro os nomes de três deles: o Senhor Mário dos Tabacos, o Senhor Abel Carteiro e o Senhor Ernesto do Pinheiro. São os mesmos que já referi naquele outro número.
Ele, o negrilho, é aquele que se encontra mesmo em frente da Farmácia Barros, na Praça da República.
Num dos primeiros dias do pretérito mês de Junho, ainda o estado de doença não se encontrava muito avançado, eu passava pelo passeio de frente, rente às portas dos estabelecimentos comerciais, com o olhar preso na árvore doente e quase choquei com uma das técnicas da Farmácia:
- Desculpe – disparei de modo espontâneo.
- Não tem de quê! – respondeu a simpática técnica ilibando-me da falta.
- Sabe, ia a reparar naquela desgraça, não será que tenham por aí algum medicamento que lhe possa valer?
- Infelizmente não..., a nossa área está mais vocacionada para o reino animal, em particular a espécie humana…
- Pois é… - reflecti eu encolhendo o nariz (para mim, encolher o nariz é um acto perfeitamente normal, já que me orgulho de o ter bastante grande).
- Porque não faz essa abordagem aos serviços de jardins do município? Isso é matéria da área das agronomias… - continuou a minha interlocutora de ocasião.
- É isso mesmo! Vou passar ali pela loja do munícipe e deixo lá um lembrete. Acha bem que deixe lá um lembrete?
- Acho sim senhor! É isso mesmo, um lembrete! É uma boa maneira de exercer um perfeito direito, e, por que não dizê-lo, um dever de cidadania.
- Muito obrigado e desculpe esta minha conversa que parece fiada mas não é…
- Qual fiada qual quê? O senhor tem toda a razão e louvo-lhe o interesse!
- Muito obrigado… - repeti eu ao mesmo tempo que a minha interlocutora recuava para o interior da farmácia.
Segui o meu caminho, ia na direcção da Casa da Cultura. Enquanto fiz aquele curto percurso, pensei mesmo em dar seguimento ao sugerido momentos antes e passar pelo balcão da loja do munícipe, perguntar quem seria o responsável pelo departamento de jardins e zonas verdes e deixar lá o referido lembrete.
«Mas o pobre do negrilho já está completamente moribundo, com esta temperatura que agora se sente, quase quarenta graus, não tardará muito sem que as folhas se espalhem todas aí pelo chão. Quanto a este já não haverá nada a fazer. Por agora não vou falar no assunto com ninguém. Vou antes investigar quanto a doenças dos negrilhos e, se for o caso, até poderei escrever uma história para o jornal».
Assim o pensei e assim o fiz.
Procurei na Internet e cheguei à conclusão de que há uma doença que me parece ser aquela que vitimou o nosso negrilho. Chama-se de “Grafiose”.
A grafiose, ou doença holandesa do ulmeiro, é uma doença causada por fungos, cujo agente transmissor é um escaravelho, que afecta os ulmeiros (ulmeiro é a mesma coisa que negrilho). Crê-se que seja originária da Ásia, e foi acidentalmente introduzida na América e na Europa. A denominação de doença holandesa dos ulmeiros tem a ver com a sua identificação, naquele país, em 1921.
Para os mais interessados, recomendo que sigam a Internet, onde podem encontrar razoável informação, nomeadamente quanto aos agentes transmissores e às patologias.
Por mim, e por agora, sinto-me na obrigação de alertar os responsáveis municipais pela manutenção dos parques e dos jardins, no sentido de não descuidaram, nem um pouco, a precaução quanto à probabilidade de aquela doença, ou qualquer outra que tenha afectado o velho negrilho, poder vir a transmitir-se a todos os outros, aqueles mais novos, que são de uma geração bastante mais recente, mas que se encontram muito viçosos, e correm gravíssimos riscos de virem a ser infectados.
Aqui fica, pois, o meu lembrete! Não o olvidem!?
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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