Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-07-2013

SECÇÃO: Opinião

S. NICOLAU – AS CARTAS DO CONDE DA TAIPA

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(continuação)
IV - A BELFASTADA

D. Miguel regressara a Portugal em 12 de Fevereiro de 1828. Jura a Carta no Palácio da Ajuda, assume a regência do reino e nomeia um ministério. Logo a seguir dissolve a Câmara dos Deputados, convoca a assembleia dos 3 estados do reino. É o regresso à monarquia absoluta. É proclamado Rei. Os diplomatas estrangeiros abandonam o reino mas D. Miguel consegue que a Espanha, o Vaticano e os Estados Unidos da América reconheçam o novo governo de Portugal. As revoltas liberais ecludem por todo o país. Uma comitiva de lentes de Coimbra é assassinada por um grupo de estudantes liberais. O Porto constitui um governo revolucionário: a Junta do Porto. Na sua proclamação dizem respeitar D. Miguel, “mas enquanto a facção que o rodeia lhe menoscobar os sentimentos (…) somos obrigados, com respeitoso sentimento, a considerar como impotente a sua vontade governativa”.
É a guerra civil. Vai-se espalhar rapidamente pelo norte do país. D. Miguel organiza a repressão da sublevação. O Porto é cercado. Luta-se bravamente. Por vezes, muitos entretinham-se em “lutas mesquinhas e baldadas” onde só “se despendiam energias”.
Os liberais estão a ser batidos pela tropa de D. Miguel. Surge uma esperança no horizonte. Um navio paira ao largo de Matosinhos. É o Belfast, inglês. Partira de Londres. Traz algumas tropas, traz muito dinheiro e os comandos: tenentes-generais, marechais, ex-deputados, nobres e Saldanha e Palmela. Mas os dois à boa maneira portuguesa, mais adversários que companheiros. O primeiro é um liberal avançado; o segundo é um moderado. Entendiam-se mal.
Entre todos vem o nosso Conde da Taipa. Foi ele e Cândido J. Xavier que conseguiram que Saldanha e Palmela tivessem vindo juntos no mesmo navio, porquanto cada um deles quisera preparar uma partida separada. Cada um almejava a vitória para si. O “Belfast” desembarcou em Matosinhos e logo o Conde da Taipa partiu para Grijó a fim de colher informações precisas da situação. Por seu lado, Palmela reúne com a Junta do Porto, passa a presidi-la e recebe o comando em chefe do exército. Saldanha ficou com o comando de uma divisão a sul do Porto. O Conde da Taipa é agregado ao estado-maior de Palmela. Mas as coisas correm mal para os liberais. A situação era muito assustadora. A Junta reuniu e decidiu ordenar a retirada do exército liberal para a Galiza. Os chefes, em segredo, reembarcaram nessa noite no “Belfast”. “Cada qual tratou logo de por a salvo o mais rapidamente possível. Todos fugiam; todos covardemente abandonavam a cidade e as tropas, que neles haviam confiado”. (Hist. Port. – Barcelos – vol. 7º, p.171). Todos? Não, houve uma ou outra excepção. O Conde da Taipa embarcou, também. Era ajudante de ordens de Palmela. O chefe embarcou, ele também. Vai voltar com os bravos do Mindelo.
V - MINDELO

Após a “Belfastada” D. Miguel não soube ser humano com os derrotados. Instaura uma “alçada” e entrega a sua conduta ao Conde de Basto. Vai demorar tempo, mas termina com a forca a funcionar. “A Misericórdia enterrou os cadáveres no Adro dos Enforcados, mas as cabeças, porém, ficaram nos patíbulos em exposição”. (Hist. Port. – Barcelos – vol. 7º, p.175). Os portuenses ainda mais ficaram a odiar D. Miguel. Por sentenças posteriores também muitos dos fugitivos foram condenados à forca ou ao garrote. Mas não lhe puderam deitar a mão.
Mas é agora que a Madeira e os Açores vão entrar na luta pelo liberalismo. A ilha Terceira vai-se tornar o refúgio e o baluarte do constitucionalismo. Todos os emigrados vão-se dirigindo para aí. A esquadra de D. Miguel é derrotada. E é desta mística ilha que os revolucionários liberais partiram para o continente. Desembarcam no Mindelo. A resistência é nula. O terror no Porto apodera-se das autoridades. A cidade oferece-se. Os liberais entram triunfantemente, comandados agora por D. Pedro, o ex-imperador do Brasil. È acompanhado de um estado-maior recheado de tenentes-generais, generais, oficiais de todas as classes, duques, condes e viscondes. Entre eles vem o nosso Conde da Taipa.
Os liberais deixam-se cercar no Porto. É o famoso Cerco do Porto. Começou a 9 de Julho de 1832 e durará um ano. Resistiram. Foi longo, duro, mortífero mas venceram. A guerra vai continuar por todo o país. Num golpe de audácia os liberais entram pelo Algarve. Alguns vão conquistar Lisboa. D. Pedro é agora Rei, num reino dividido em 2 partes. Instaura o seu governo. Forma-se a Assembleia e a Câmara dos Pares. Nesta toma lugar o nosso Conde da Taipa.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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