Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-07-2013

SECÇÃO: Recordar é viver

Amélia Augusta Alves de Moura de Pedraça

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A grande mestra do fabrico do linho

Hoje, deu-me para revisitar as gavetas e as pastas onde o meu saudoso marido, Manuel Carneiro, guardava os seus papéis, anotações, cópias dos escritos, livros, foto-grafias que, há muito não via, ainda dos tempos em que ele foi durante muitos anos professor da Teles-cola. Encontrei mistu-radas, umas quadras escritas à mão, pela mestra do linho, entre outras coisas, numa folha de papel azul. Essa senhora que, infelizmente, já não se encontra entre nós, foi uma grande artesã do linho ao longo da sua vida. Fazia o ciclo do linho desde a sementeira nos campos até chegar ao tear na forma de linha fina, para confeccionar trabalhos delicados como: colchas, toalhas de altar, de águas mãos, de mesa, lençóis finos (antigamente só usados nas casas senhoriais), assim como, aproveitar o mais grosseiro (os tomentos) que hoje está na moda para outros trabalhos mais rústicos e não menos maravilhosos, utilizados principalmente para enfeitar móveis restaurados e em repos-teiros, dependendo da casa e da decoração! Noutros tempos, os linhos dito “grossos rústicos” eram usados sobretudo pelas pessoas do campo, para fazerem as camisas aos homens da casa, para usarem no dia a dia no trabalho. Eram um pouco incómodas porque a sua textura era áspera. Também teciam lençóis e mantas. Os lençóis feitos de dois panos (ou duas varas) eram emendados ao meio para fazer o lençol. Hoje nos teares comerciais já fazem a peça de linho de todas as larguras.
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Como atrás referi, os lençóis feitos do linho mais grosso eram mais frescos mas “arranhavam”, posso dizê-lo por experiência própria, principalmente, quando ficava a dormir na casa do meu avô José de Campos, “Zé Colatré”, na Boavista, para ir à Feira do S. Miguel com as minhas tias. Também era perto, praticamente estavam quase dentro da festa. Nessa altura, nem me importava que os lençóis “picassem”.
Encontrei este papel azul de linhas, com as quadras que foram oferecidas ao meu marido pela mão da Amelinha, aquando da visita de estudo que os seus alunos da Telescola, no Arco de Baúlhe, fizeram à sua casa em Pedraça na altura de apanhar o linho do campo.
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São quadras simples, que falam de uma tradição secular. Para dizer com sinceridade, não posso afirmar se ainda haverá alguém que se dedique à sementeira do linho. Se não for verdade acho pena!
Posso dizer que conheci a Amelinha bastante bem, principal-mente, pelas vezes que nos encontrávamos nas exposições da Agrobasto. Era uma senhora que criava empatia ao primeiro olhar! Possuía uma experiência de vida riquíssima em “saberes”, sempre pronta para explicar o ciclo do linho quando a questio-navam, em todas as fases. Ensinava as raparigas que mos-trassem mais jeito e gostassem realmente de saber.
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Mais haveria para falar da Amelinha de Pedraça mas não serei eu certa-mente a pessoa indicada. Para falar mais da Amelinha ninguém melhor que a sua filha, a Professora D. Fátima Vilas e os vizinhos que com ela conviveram. Eu vou sim, transcrever as quadras que encontrei nos arquivos do meu marido Manuel Carneiro.
Com a devida vénia.
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Por: Fernanda Carneiro

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