Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-07-2013

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (175)

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A ILHA DAS FLORES

Eu aprendi, de cor e salteado, que a ilha das Flores era uma das nove ilhas do Arquipélago dos Açores e integrava o grupo ocidental. A modos de quem oferece uma espécie de aperitivo, e respeito pelos mais interessados, adianto que, como se aprendia naquele tempo, as nove ilhas estavam distribuídas por três grupos, como segue: grupo oriental, as ilhas de S. Miguel e de Santa Maria; grupo central, as ilhas Graciosa, Terceira, S. Jorge, Pico e Faial; grupo ocidental, as ilhas das Flores e Corvo.
Porém, a ilha das Flores de que aqui pretendo transmitir notícia é outra, faz parte, também, de um vasto arquipélago, mas situa-se a muitos milhares de quilómetros para leste da anterior. Esta fica na Insulíndia e integra o arquipélago indonésio. Mas também já foi portuguesa e tem uma singular particularidade, é que os actuais habitantes dessa ilha, não obstante a mesma ter deixado de ser portuguesa há mais de cento e cinquenta anos, ainda rezam em português.
Devo, antes de mais, tecer os mais rasgados elogios ao programa da RTP1, “linha da frente”, que foi para o ar na noite do passado dia treze do corrente mês de Junho de 2013. Foi um daqueles programas que me prendeu, do princípio ao fim, sem o largar, nem que fosse para atender um telefonema.
A história da presença portuguesa na ilha das Flores, ou melhor, a história de como os portugueses abandonaram a soberania sobre aquela ilha, não é das mais belas do nosso passado colectivo. Fiz alguma investigação e encontrei um texto muito interessante sobre a matéria, é um volumoso livro da autoria de Miguel Galvão Teles que se intitula “Timor Leste”, tem mais de quinhentas páginas e, na parte que releva para o que pretendo deixar relatado, interessam as páginas 583 a 586.
Pese embora o facto de terem sido os portugueses os primeiros a chegar às ilhas da Insulíndia, em 1512, a verdade é que todo o imenso território que é hoje a Indonésia acabaria por ficar maioritariamente em poder dos holandeses, após a chegada destes ao arquipélago, em data bastante mais recente, ano de 1641, depois de terem conquistado Malaca.
Até ao ano de 1859, Portugal deteve a soberania sobre uma pequena parte daquelas possessões, que eram as ilhas das Flores, Adonara, Solor, Ataúro, a parte oriental de Timor e o enclave de Oécussi Ambeno encravado na parte ocidental desta mesma ilha de Timor.
Após um longo período de grandes e pequenos diferendos, entre os governadores portugueses e os representantes holandeses, na região, a propósito de actos praticados pelos régulos locais, foi celebrado, em 20 de Abril de 1859, entre os reinos de Portugal e dos Países Baixos, o chamado tratado de Lisboa, pelo qual Portugal cedeu as possessões que detinha nas ilhas das Flores, Adonara e Solor. Em contrapartida os Países Baixos cederam o reino de Maubara, em Timor, e renunciaram a Oécussi Ambeno, também em Timor e a ilha de Ataúro, e ainda ao pagamento de uma compensação de duzentos mil florins.
O que sempre se tem ouvido é que Portugal vendeu aquelas ilhas aos holandeses por uma importância a todos os níveis ridícula. Essa é a parte triste da história.
Já tenho referido nestas páginas que nutro uma grande paixão por aquelas paragens. Ainda em Outubro passado, Outubro de 2013, sobrevoei a ilha das Flores, numa viagem de avião entre o aeroporto de Dempassar, em Bali, e o aeroporto de Comoro, em Dili.
Do enclave de Oécussi Ambeno, actualmente um dos distritos de Timor Leste, presenciei, durante cerca de meio ano, nos idos anos da década de sessenta do século passado, o pôr do sol por detrás das costas da ilha das Flores. Das praias do enclave leste timorense de Oécussi Ambeno, avista-se o perfil montanhoso da ilha, de frente e para oeste. Nessa época, nós dizíamos, Portugal, a Metrópole, fica para aquele lado.
Ao fim de seis meses de permanência no enclave, fui colocado em Dili. Da capital timorense não se avista o dorso da ilha das Flores, mas sabia-se que Portugal, a Metrópole, ficava para aquele lado, o lado do sol-posto.
A indonésia é um território enorme composto por mais de dezassete mil ilhas, muitas delas bastante pequenas, mas um bom par de outras muito grandes. A sua área total é de mais de um milhão e novecentos mil quilómetros quadrados. Com uma população superior a duzentos e cinquenta milhões de almas.
Oitenta e cinco por cento da população da Indonésia professa a religião islâmica, é o maior país muçulmano do mundo. Quanto a religião, há duas excepções: a ilha de Bali, cuja capital é Dempassar, com cerca de três milhões de habitantes, onde oitenta e cinco por cento são hindus; e a ilha das Flores, cuja capital é Larantuka, com cerca de um milhão de habitantes, onde cerca de noventa por cento são católicos. Em Larantuka há um bispo nomeado pelo Papa.
O programa da RTP1, do dia treze do corrente mês de Junho de 2013, tocou-me exactamente por isso. Foi gravado num período de semana santa e ouvia-se o povo, em igrejas católicas repletas de gente, a rezar em português.
Uma palavra de apreço pelos indonésios. Não obstante as atrocidades que praticaram sobre os timorenses, durante todo o doloroso período de ocupação, falo do período de 1975 a 1999, deixaram intactos a maior parte dos símbolos da presença portuguesa na ilha. Por exemplo, o padrão dos descobrimentos, na praça em frente ao Palácio do Governo e a denominação do liceu de Dili, continua lá, indelével, a legenda: “LICEU DR. FRANCISCO MACHADO”.
Note-se que, presentemente, aquele edifício, que mantém a denominação de Liceu Dr. Francisco Machado, se encontra integrado no conjunto de construções que fazem parte do campus da Universidade de Dili.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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