Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 17-06-2013

SECÇÃO: Opinião

Histórias da nossa terra - Figuras ilustres da Região de Basto

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A Missão Tibetana

Na correspondência Jesuíta do Pe. Francisco de Azevedo, 1624/1631
O Pe. Francisco de Azevedo, nasceu em Avis, por volta do ano de 1585, e era descendente de Martinho Afonso de Azevedo da Casa do Telhado de Athey e da Casa dos Azevedos da Rua Velha de Mondim de Basto. O seu pai, militar do Reino, saiu de Athey em 1582 e casou em Avis. Aos 19 anos entrou para a Companhia de Jesus e em 1614, foi enviado para a Índia, onde permaneceu durante alguns anos em Kerala.
“Carta do Pe. Francisco de Azevedo ( 1631 )”
O relato do Pe. Francisco de Azevedo dá conta dos mais de dez meses da sua viagem pela Ásia central, desde Agra, passando por Tsaparang, indo ao Ladakh e retornando a Agra.O objetivo inicial do nosso jesuíta era juntar-se aos padres já estabelecidos na missão em Tsaparang – a qual havia sido fundada há aproximadamente quatro anos pelo Pe. António de Andrade.Contudo, chegando à capital do Reino do Gu-gê, o Pe. Francisco de Azevedo depara-se com a missão a passar por grandes dificuldades, uma vez que o Rei, o qual apoiava os jesuítas desde os tempos do fundador da missão, havia perdido a guerra contra o Rei do Ladakh e tornara-se então cativo deste soberano. Assim, o Pe. Francisco de Azevedo parte para Leh, então capital do reino de Ladakh, com o objetivo de obter, junto do Rei vitorioso, apoio para os padres da missão em Tsaparang.O primeiro trecho da viagem ( Agra – Tsaparang ) é semelhante ao caminho percorrido pelo Pe. António de Andrade. Também é semelhante a descrição das “serras”, no que diz respeito ao conteúdo. Assim, como o seu antecessor, o Pe. Francisco de Azevedo fala-nos da vegetação, dos animais vistos e procura inclusive identificar uma das nascentes do Ganges. O missionário descreve também os pagodes e peregrinos encontrados ao longo do caminho. Por indícios encontrados ao longo do texto, podemos supor que o nosso antepassado, Pe, Francisco Azevedo, leu pelo menos uma das cartas do seu colega jesuíta português.Porém, no estilo da escrita, o Pe. Azevedo é radicalmente diferente do Pe. António de Andrade. É, por muitas vezes irónico, demonstra bom ou mau humor e não teme deixar transparecer o seu estado de espírito. Se o Pe. António de Andrade reclama, o nosso Pe. Azevedo o faz seguidamente, dando bastante espaço na sua carta para os perigos e as adversidades impostas pelo clima, pelo relevo, enfim, pelo inóspito meio natural enfrentado na viagem.Vale a pena lembrar que, como não se trata de uma ânua ( como a carta do Pe. Andrade de 1627 ), o missionário Azevedo possivelmente, permitiu-se fazer uma escrita menos rígida que a do seu companheiro e atual Superior em Goa.A principal importância desta carta é dada pela investigação conduzida pelo Pe. Francisco Azevedo em toda a viagem. Percebe-se uma grande preocupação em identificar e localizar os reinos, em apontar o que produzem e que tipo de comércio realizam, em estabelecer, enfim, relações entre os ditos reinos ( as fronteiras entre eles, as relações comerciais e de conflito). O Pe. Francisco Azevedo descreve ainda, fatos e personagens importantes no contexto político da região – como a guerra entre o reino do Ladakh e o Gugê – e as características dos seus respectivos soberanos.Além disso, o Pe. Francisco Azevedo
escreve abertamente sobre as tenções existentes dentro da própria Companhia de Jesus, no que diz respeito ao apoio ou condenação das missões no Tibete ( Tsaparang e Utsang ).Toda esta informação foi recolhida de uma carta que o Pe. Estêvão Cacela da Companhia de Jesus, enviou ao Pe. Alberto Laércio, provincial da Província do Malabar da Índia Oriental, da sua viagem para o Cataio, até chegar ao Reino do Potente.O Pe. Francisco Azevedo, dá-nos conta da morte do Pe. Estêvão Cacela em Utsang, no dia seis de Março de 1630.O Pe. Francisco Azevedo informa-nos ainda na sua carta, que por falta de interesse de Cochim, a província portuguesa de Goa passaria a investir ela no Tibete. Esta carta é datada do ano de 1631, ano em que o Pe. António de Andrade é provincial em Goa.Entretanto, o Pe. Francisco Azevedo é enviado como visitador para Tsaparang, chegando à missão no Tibete Ocidental em 25 de Agosto de 1631, encontrando-a com seríssimos problemas, por ocasião da guerra entre Gu-gê e Ladakh. O nosso missionário, parte então para Leh, capital deste reino, para pedir ao seu Rei, que dê permissão para que os missionários possam continuar os seus trabalhos em Tsaparang.O Rei do Ladakh, concede a autorização com algumas reservas, pois não se mostrou um grande entusiasta da missão, nos moldes da que fora feita em Thi Tashi Dagpa, que o Pe. Azevedo descreve assim:
“O Rei naturalmente é bem inclinado. Enquanto reinou foi verdadeiramente pai dos pobres e grande favorecedor da cristandade. Desejava muito fazer-se cristão, e tinha-o prometido aos padres. Mas tinha algum receio que o revelassem”.
O Pe. António Andrade, acabou por ser assassinado no Colégio de S. Paulo em Goa, em Março de 1634.
Quanto ao Pe. Francisco de Azevedo, pouco ou nada se sabe da sua morte. É bem possível, que tenha morrido em Goa.
Nas buscas realizadas na Torre do Tombo, constam somente os documentos da sua passagem pela Índia e por grande parte da região do Tibete e da Mongólia.
O Pe. Francisco de Azevedo, é mais uma das figuras ilustres da nossa região, que temos dado conta aos nossos leitores.
A Região de Basto, é um nunca mais acabar de figuras ilustres, que pela sua inteligência e pelo seu valor, nos deram ao longo dos séculos um destacado lugar na história de Portugal.

Teixeira da Silva

Por: José Teixeira da Silva

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