Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 04-03-2013

SECÇÃO: Recordar é viver

A origem das bandas cabeceirenses Entre os finais do século XIX e inícios do século XX até 1977

Maria Fernanda Carneiro
Maria Fernanda Carneiro
Caros leitores,
Há já muito tempo que tinha curiosidade em conhecer a origem das bandas musicais que existiram em Cabeceiras de Basto, principalmente as mais antigas, assim como os seus intervenientes. Queria saber sobretudo, quando e onde começaram, quem eram as pessoas envolvidas na iniciativa e também, em que condições e quais os apoios que tinham a nível local.
Embora muitas pessoas não saibam, em Cabeceiras de Basto e em especial no centro da vila e arredores, além das muitas mercearias (principalmente na Ponte de Pé e na Praça da República), existiam também, muitas profissões tendo a maior parte já desaparecido, nomeadamente, os alfaiates, os sapateiros - autênticos artesãos que não tinham máquina para colar, cozer e polir o calçado (o calçado era cozido à mão, pregavam-se as solas com tachas, que tinham que ser desenhadas na própria peça e recortadas, ao contrário dos dias de hoje, em que as peças já vêm prontas para ser aplicadas) - as costureiras que faziam fatos à medida da pessoa (ainda há uma ou outra), os tanoeiros, os tamanqueiros (ainda há os Machas de Outeiro, mas já mais modernos), os funileiros, os lagareiros que moíam a azeitona e apertavam as cestas à mão e, tantas outras, que não vou aqui falar hoje.
Tudo isto para vos dizer que, nestes locais se conversava muito, enquanto o artista trabalhava, principalmente os homens, porque as mulheres essas, ficavam em casa a cuidar da vida doméstica, dos filhos e dos quintais e também porque, não era bem visto as mulheres andarem na “coscuvilhice”. Hoje os tempos são outros e, ainda bem, embora haja muitos exageros.
Como atrás referi, era nesses locais de ponto de encontro em que se punha a conversa em dia, que se criavam ideias, sugestões, que se falava dos acontecimentos importantes como a vida do país e principalmente daqueles que fizeram história na nossa terra. Os homens também coscuvilhavam claro!
Talvez as bandas tenham surgido desses encontros nesses locais.
Para saber mais sobre as origens musicais do antigamente ou melhor de outros séculos, dirigi-me a uma pessoa que, além de ser um grande músico é também filho de um homem importante na área , o Maestro António Mendes. O Baltazar Alves Mendes, um bancário aposentado, além de fazer as suas caminhadas da Cruz do Muro até à vila, nas horas vagas dedica-se à “investigação privada” sobre a origem das bandas, das músicas e letras daquele época. É um cabeceirense de gema, um homem de família muito respeitada e um filho digno que herdou do seu pai, o Mestre António Mendes, a veia artística que toda a gente conhece. Ainda hoje, o Baltazar Alves Mendes se dedica à música, quanto mais não seja nas festas em família, encontros de ex-colegas da banda cabeceirense ou até como já aconteceu, na festa dos antigos colegas do Colégio, onde tocou conjuntamente com o seu irmão Zeca Mendes, outro artista igual.
O Baltazar Mendes, prontamente respondeu ao meu pedido e por esse motivo, não vou escrever mais. Vou sim, transcrever o seu texto que contém bastante trabalho de pesquisa e que no meu entender, acho muito interessante já que muitos de vós, talvez os mais interessados na história da música da nossa terra vão com certeza gostar, assim como eu gosto.
Com a devida vénia, aqui fica transcrito na integra o texto do senhor Baltazar Alves Mendes.
BANDA CABECEIRENSE
História da Banda
( 1936/1977)
Em Cabeceiras de Basto, em fins do século XIX, inícios do século XX havia duas Bandas de Música, a que chamavam a “Música do Fernandes “ e a “Música do Mendes”. Naturalmente que por dificuldades económicas ou até de componentes, as Bandas vieram a fundir-se, dando origem à actual Banda Cabeceirense.
Decorria o ano de 1936, provavelmente no mês de Outubro, após um período de “decadência” e interregno nas suas actuações da Banda Cabeceirense, até então de “… boa fama e da boa reputação de que gozava …, que muitas vezes foi chamada a abrilhantar festividades de maior importância, como foram os grandes festejos Henriquinos, realizados no Porto e nos quaes a mesma afamada Banda obteve um honroso prémio, concedido por um Jury competentíssimo que reconheceu a excelente execução dada ás diversas peças muzicaes que a Banda Cabeceirense executara, não só em palanques, como no arruamento..”, e para que não se perdesse para sempre os valores ainda vivos e para que “a nossa muzica, como então lhe chamavam, não cahisse na decadência… “ um grupo de “… bons Cabeceirenses” constituíram uma Comissão de Honra e uma Comissão de Trabalho para reorganizar a Banda e recuperar a sua actividade .
A Comissão de Honra foi composta pelos Srs. Dr. Francisco António Pestana, Dr. Francisco Teixeira Pereira, Sr. José Leite da Cunha Júnior e Joaquim Martins Pacheco.
A Comissão de Trabalho foi constituída pelos Srs. Francisco Mota, João Pacheco, Mamede Falcão e Américo Bastos.
Estes dois grupos, uma vez constituídos não perderam tempo, e depois de organizarem uma campanha e angariação de fundos, tomaram a grande medida que foi a “trave mestra” de todo o seu projecto: Meteram os “pés a caminho” e em Fafe contactam e contratam o insigne mestre José Maciel, Regente da Banda de Revelhe. Este disponibilizou algum tempo deslocando-se várias vezes a Cabeceiras de Basto, onde deu os seus ensaios e participou em algumas actuações, sem abandonar a sua Banda de Revelhe.
A Banda Cabeceirense fez então a sua primeira aparição em público Sob a batuta do mestre Maciel num Domingo (?), de cujo programa constava a visita a algumas freguesias e lugares do concelho, terminando com um concerto na Praça da República, “…onde em um apropriado corêto, foram executadas as melhores e mais difíceis peças muzicaes do referido reportório, sendo, em todos os finaes entusiasticamente aplaudidos, não só os componentes da mencionada Banda, como o seu Regente…”
Após este período de reorganização o Maestro José Maciel avisou a Direcção da Banda de que iria deixar de prestar a ajuda que vinha dando e que por isso deveriam pensar em nomear um dos músicos para tomar conta da Regência e dos ensaios da Banda, um Maestro.
Numa das deslocações que se seguiram, perguntou se já haviam decidido sobre a pessoa que iria tomar conta da Banda. Tendo obtido uma resposta negativa e perante a insistência e curiosidade dos músicos, os quais achavam que no grupo não havia ninguém que reunisse as condições e qualidades necessárias e suficientes, foi então que o Maestro José Maciel informou o grupo de que no seu seio havia uma pessoa que reunia todas as condições para o efeito. Após um trocar de olhos perguntaram quem era essa pessoa. O Maestro disse então que o “Toninho” era a pessoa indicada.
Seguiram-se os ensaios e actuações em festas e arraiais. Sendo que a Banda era dirigida pelo sr. Carvalho ( na Banda tocava Barítono e fora desta tocava órgão nas Igrejas, era oriundo de S. Nicolau), e por vezes pedia ao “Toninho” (António José Mendes) para que nesta ou naquele peça tocasse clarinete ou tomasse conta da Regência da Banda. Esta troca de posições verificou-se algumas vezes, até que em determinada festa, à solicitação do Sr. Carvalho para que o “mestre” António tomasse conta da regência, este respondeu que só o voltaria a desempenhar aquela tarefa depois de a ter feito também nos ensaios, pois que também necessitava de ensaiar naquela função.
As relações não devem ter ficado muito boas, pelo que o sr Maciel convidou o António Mendes para fazer parte da sua Banda de Revelhe, onde permaneceu até por volta dos anos 40/41.
Em 1940, mais precisamente 1 de Abril, o Desportivo Cabeceirense realizou um Sarau Artístico, para angariação de fundos. O Sarau foi abrilhantado musicalmente por alguns executantes da Banda Cabeceirense, “…sob a regência de um dissidente ..” o que originou “… um sarilho… “ e que quase esteve para dar “…mosquitos por cordas… “, segundo um articulista da época, in Jornal de Cabeceiras. Em resposta a esta crónica e a uma outra na publicação seguinte, na qual se referem ao “… tailleur da esquina…” e outros vitupérios, o articulista Ferreira de Sousa, conhecedor da situação e pessoa ligada ao Desportivo Cabeceirense (organizadora do Sarau), desembrulha e esclarece a situação correcta dos factos afirmando “…entregou-se esta (empreitada) à pessoa indicada como capaz de lhe dar acabamento satisfatório e …a obra foi inaugurada entre aplausos frenéticos dos circunstantes. O empreiteiro, apenas com um clarinete entre bastidores, conseguiu ser ovacionado, o que já nos parece bastante!...”… quanto ao tailleur da esquina, ao mestre insigne e ao saco pequeno, três pessoas distintas e uma só verdadeira – todos recordam vê-lo com galhardia e senhor de si alguns concertos dados pela Banda Cabeceirense, no tempo em que, no seio desta apreciada colectividade local, ele era geralmente estimado e, até, muito admiradas as suas qualidades de homem e de artista na sublime arte do som…”.
Passados estes pequenos incidentes e depois de algumas diligências e tomadas de posição o “mestre António” regressa a Cabeceiras para finalmente dirigir a Banda Cabeceirense. Inicialmente teve algumas contrariedades, a Banda dividiu-se, quer em músicos quer no instrumental - até constava que os “Pratos” (instrumento de percussão) foram também um para cada lado - mas passado pouco tempo começaram a regressar até que se juntou novamente. Então renasce uma “Nova Banda”, com um estilo próprio na forma de executar e atacar a nota, com um desfile aprumado e elegante. Foi recuperada a fama e as solicitações são muitas estendendo-se ás regiões minhota e transmontana, essencialmente.
Mas por volta dos anos 1958/60 a Banda Cabeceirense volta mais uma vez a passar por novas dificuldades. O instrumental estava velho e obsoleto. O fardamento gasto e desajustado precisava de uma renovação. Alguns elementos da Banda foram tentar a sua sorte noutras localidades, dentro e fora do País, à procura de melhores condições de vida. Acontece a emigração e pouco depois a guerra colonial, pelo que o plantel que então não abundava ficou bastante debilitado. Tudo isto e a falta de um financiador, conduziu a uma actividade irregular da Banda.
Foi então que um grupo constituído pelo Sr. Presidente da Câmara Cor.el José Guilherme Pacheco, pelo Sr. Dr. Francisco Teixeira Pereira e o Revº Arcipreste Francisco Xavier de Almeida Barreto, mandou chamar o “Mestre António” para saber quais os motivos pelo qual a Banda não tocava. Sendo-lhes explicadas as razões, solicitaram que convocasse todos os músicos para uma reunião na Casa de ensaio, situada numa loja r/c na Ponte de Pé (diga-se que de condições péssimas). A reunião foi agendada para o Domingo imediato, da parte da manhã.
No dia aprazado lá apareceu a referida “tróica”.
Depois de tecerem as suas considerações sobre a necessidade de se manter a Banda em actividade, apelando ao seu passado histórico brilhante, perguntaram ao Mestre António “o que fazia falta para pôr a Banda a tocar”. Foi então dito que os instrumentos estavam velhos a precisarem de reparações e outros até já desactualizados pelo se tornava premente a sua substituição. Á pergunta de quanto seria necessário para suportar a respectiva renovação, feita uma avaliação imediata e mental, foi dito que talvez com 3.000$00 (três mil escudos) já fosse suficiente. Com este modesto orçamento foi dada a ordem para avançar, “ …o que é preciso é que a Banda toque..”.
Os instrumentos foram arranjados, as fardas foram renovadas (viradas), entraram novos aprendizes, reforçaram-se os ensaios, já parecia uma Banda Nova.
Quando os instrumentos foram para reparar e feita a encomenda de dois instrumentos novos, o portador informou a Casa de Instrumentos “Francisco Guimarães & F.os Lda, sita na Rua do Almada, na cidade do Porto, de que tinha sido constituída uma Comissão a qual se responsabilizava pelo pagamento da respectiva factura. Recebeu como resposta que se a encomenda fosse em nome do “Toninho” poderia levar ou mandar reparar o que quisesse, caso contrário não haveria nada para ninguém pois não reconheciam tal Comissão. Foram transmitidas instruções para que se procedesse conforme o pretendido pela Casa de Instrumentos.
O pior estava para vir, ou seja, a factura e em nome de António José Mendes.
E como a “Banda tocava”, a “tróica” assobiava…, não mais apareceu (bons tempos…).
A Banda Cabeceirense não tinha outras receitas para além dos honorários das actuações efectuadas. Foi então necessário recorrer a um empréstimo particular (já havia emigrantes, que também cobravam juros, naturalmente), a peditórios locais, à retirada de uma percentagem no valor das actuações, e outras fontes apareceram…. Cumpriu-se assim o serviço da dívida e resgatou-se o “bom nome” do Mestre.
A Banda Cabeceirense continuou a tocar com grandes actuações, granjeando fama nas principais vilas e aldeias das regiões minhota e transmontana. Por vezes havia mais que uma solicitação para o mesmo dia, tendo acontecido que alguns mordomos tiveram que alterar a data das festas para poderem contar com a presença da Banda Cabeceirense.
O “Mestre António” viveu e ultrapassou muitas dificuldades ao longo de cerca de 40 anos que esteve à frente da Banda Cabeceirense, à qual ele chamava de “Minha Banda”. Foi seu executante, maestro, professor, compositor, copista, escriturário, criado (auxiliar) e criado do criado, como dizia.
Na sua actividade profissional de alfaiate (Tailleur da esquina) contribuiu sempre na feitura e arranjo dos fardamentos. Em 1960 as fardas antigas foram viradas e modernizadas, eram de colarinho e passaram a ter virados ou bandas. Em meados dos anos 60 foi estreado um fardamento novo, já com um estilo mais moderno, a jaqueta já era do tipo casaco, num tom entre o azul e o verde. Nos anos 70 foi estreado outro fardamento, este em azul marinho.
Os empregados da oficina foram quase todos músicos.
Como também exerceu a actividade de Carcereiro da Cadeia Comarcã, mesmo aí não deixou de exercer a sua influência levando que alguns presidiários tomassem o gosto pela música e integrassem a Banda.
Mas a sua acção em prol da Banda Cabeceirense e dos seus componentes não se limitou á parte artística e musical, pois tempo houve que dadas as precárias condições económicas da época, e alguns surtos de doença que atingiu a população e alguns músicos, esteve sempre presente com o seu auxílio.
Direcções só apareceram na parte final da sua carreira.
Em 1977 como a saúde já não ajudava muito, o cansaço, a falta de apoios, quer económicos quer logísticos, e alguns comportamentos pouco dignos ou impróprios, levaram-no a declinar na sua missão iniciada em 1942.
Da Banda Cabeceirense fizeram também parte os meus tios Joaquim e Francisco, os primos Ilídio e António, o meu irmão Zeca e eu (Baltazar), sendo que os cinco últimos simultaneamente e no naipe de Clarinete. Eu e o meu irmão Zeca iniciamos na música por volta dos 11 anos de idade, neste idade não seria bem por gosto, pois havia mais solicitações.
Músicos ainda vivos do tempo do início do meu Pai, como maestro, talvez apenas exista o sr Jaime de Sousa e Silva, que com a idade de 17 anos já era 1º Fliscorne da Banda, morador em Agualva de Cima, Cacém, que muito recentemente visitou Cabeceiras de Basto, durante as Festas de S. Miguel.
As condições técnicas e financeiras mudaram muito nestes últimos 30 anos. O instrumental melhorou substancialmente, com novas técnicas, material e afinação. As escolas de música proliferam em quase todos os locais, desde o ensino obrigatório até às Academias e Conservatórios. A música que até então era considerada quase um “tabú” tornou-se hoje uma arte quase obrigatória. Para além de todas estas boas condições os apoios financeiros também são substancialmente mais e melhores. Em suma, hoje há mais e melhores músicos.
A Bem da Música
Baltazar Mendes

fernandacarneiro52@hotmail.com




Por: Fernanda Carneiro

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.