Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-01-2013

SECÇÃO: Concelho em acção

As nossas gentes e as tradições Maria Rosa da

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Caros leitores,

espero que todos vocês tenham passado umas boas festas e tenham tido umas boas entradas no ano 2013. Certamente que, para muitos foi triste devido a circunstâncias diversas, sobretudo motivos de doença e outros contratempos inesperados, para outros, mais alegres. Enfim, a vida é assim e temos de encarar as coisas como elas são ainda que nos custe a alma.
O que todos tiveram em comum foi certamente, o mesmo pensamento quanto ao futuro dos portugueses, nomeadamente, a nível económico. Se dúvidas tínhamos ficamos a saber, através dos meios de comunicação social, sobre os novos cortes, a distribuição dos subsídios em duodécimos e o IRS que cada um vai perder mensalmente. Não vos vou falar sobre isso, porque nem me sinto habilitada e, nem pretendo confundir ninguém. Eu própria não entendo! Sei que vai ser muito duro mas, concretamente, ainda ninguém sabe verdadeiramente de que maneira nos vão “tirar” o dinheiro. Esta crise, que já vem de alguns anos para cá, piorou com as medidas de austeridade cada vez mais apertadas impostas pela Troika e que, nos traz angustiados a todos.
É fácil dizer que não somos só nós, os portugueses, que estão a passar por este sofrimento, que é também a Europa e até o resto do mundo. Talvez seja, mas cada um chora as suas mágoas. Vamos ver como Passos Coelho e Vítor Gaspar - os ‘maiores’ Ministros do Governo - vão ‘descalçar a bota’ uma vez que estamos a caminhar para as eleições autárquicas. Se, como dizem não há como fugir aos cortes, o que será que o Governo, vai prometer para “adoçar o bico” ao eleitorado? Estou curiosa para saber a magia desse milagre…
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Vou deixar-me destes considerandos políticos que nos atormentam a todos e vou falar de outros assuntos a que me dedicarei hoje. Tem a ver com gente do nosso concelho, mais propriamente, dos nossos lugares próximos onde as tradições se mantiveram durante muitos anos, sobretudo quando eram mais novos. No seguimento deste meu propósito, terei que falar de uma pessoa que, infelizmente, desapareceu do nosso meio durante o corrente e, se chamava Maria Rosa Magalhães, mais conhecida por Maria Rosa da “Estrada”. Estrada é um lugar da freguesia de Painzela. Daí esta saudosa senhora ser conhecida por este nome motivado pelo lugar onde morou a vida inteira, pelo menos desde que eu era criança.
A Maria Rosa da “Estrada” era viúva do senhor António Maria Coelho, um dos onze filhos do senhor Adelino Coelho, da “Estrada”. Ainda conheci o senhor Adelino. Dos filhos que conheço mais ou menos bem, lembro o senhor Manuel Coelho, casado com a D. Otília Machado, falecida há pouco tempo, irmã do senhor David Machado, de apelido os “Jóia” da Raposeira. Viveu sempre em Lisboa e aí nasceram três filhos. O Bernardino, a Fernanda e o Artur, este falecido há muitos anos. Retornando ao assunto atrás referido, certamente muitos de vós perguntarão o porquê falar da Maria Rosa da “Estada”. Falo dela porque quando era muito jovem, menina mesmo, era para lá que íamos cortar e desfolhar o milho. Iam pessoas de todas as idades, rapazes, raparigas e até pessoas mais idosas. Os da Casa da Estrada que, trabalhavam a Quinta de Pielas, nem precisavam de pedir a ninguém para ir cortar milho ou esfolhá-lo! Iam todos voluntariamente! Pelos vistos já iam para lá muito antes, no tempo em que o sogro da Maria Rosa tinha a “moçarada” toda em casa. Eram tão conhecidas as desfolhadas na Maria Rosa da Estrada que todos gostavam de participar. Naqueles campos, cortava-se o milho durante a tarde para à noite se juntarem todos em redor do monte do milho cortado e alegremente se proceder à desfolhada. Os rapazes mais marotos e, até algumas raparigas mais cresciditas, mantinham os olhos atentos a ver se por milagre aparecia uma espiga do milho rei. Se aparecesse esse bendito milho encarnado na mão de algum rapaz era a confusão total, pois o dito cujo, corria atrás de uma moça, de preferência aquela por quem já tinha um chamego e tentava abraçá-la. Era assim a moda que, diga-se de passagem era muito conveniente. A partir daquele efusivo abraço, o gelo quebrava-se e dava-se início ao romance. Estas coisas fui-as observando sempre que íamos para lá. Claro que, os rapazes mais afoitos faziam “aparecer” muitas vezes a mesma espiga. Era muito divertido e, ainda o era mais quando alguém aparecia mascarado junto ao grupo. Lembro-me de, pelo menos uma pessoa que já lá está há muitos anos! Numa noite de desfolhada apareceu toda mascarada. Essa pessoa foi a nossa querida e saudosa D. Antoninha que, morava na Ribeira. Era mãe do senhor Homero Pereira Ramos, António Pereira Ramos e de mais duas filhas que vivem em Braga. Não havia pessoa como ela. Sempre pronta para tudo. Todas as pessoas no lugar da Raposeira e arredores gostavam dela! Participava nos cortejos e ajudava a enfeitar as marchas conjuntamente com a minha saudosa sogra, D. Maria do Carmo Celeste e da D. Miquinhas Carvalho (Revolta). Sempre pronta a ajudar onde fosse necessário. Por isso era sempre motivo de alegria quando ela aparecia na Casa da Maria Rosa da Estrada com as “pantominices”.
Outra coisa que também levava as pessoas a ir às suas desfolhadas eram as boas sardinhas que lá se comiam acompanhadas de broa e uma boa pinga. Uma delícia! Só de pensar já cresce água na boca. Lembro-me de tudo como se fosse hoje!
Claro que havia também, e não menos conhecidas, outras desfolhadas aqui na freguesia de Refojos, como por exemplo a da Quinta de Conselheiros que, como sabeis pertencia à D. Clotilde Pacheco, filha do Padre Domingos Pereira, o Monárquico, trabalhada pelo José Teixeira, a Quinta da Ribeira, pertença dum juíz, trabalhada pelo Alfredo Teixeira, irmão do Zé de Conselheiros e tenho que falar aqui nas desfolhadas do meu avô Zé Colatré. Todas estas quintas eram habitadas por imensa filharada e alguns tios solteirões que ficavam a residir geralmente com o irmão vai velho.
Por esse motivo, e haver muitas raparigas e rapazes, é que nunca faltava ajuda nestas concorridas desfolhadas .
Geralmente é com alegria que costumo falar dos costumes e tradições das gentes da minha terra mas, sinceramente hoje foi por um motivo triste. Faleceu a D. Maria Rosa Magalhães, da “Estrada”! Fiquei muito triste e até surpreendida porque tinha falado com ela há poucos dias.
Já vos disse várias vezes que, para escrever sobre alguém que morreu, seja em circunstâncias for, esse alguém tem que me dizer algo a mim ou então tenha contribuido para o crescimento do seu lugar, da sua terra. Foi o caso da amiga que partiu, a Maria Roda da “Estrada!.
Tenho a certeza que Deus a tem num bom lugar!
Bem haja por aquilo que aprendi consigo!

Por: Fernanda Carneiro

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