Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-12-2012

SECÇÃO: Opinião

UM CABECEIRENSE NA “MARIA BERNARDA”

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(15 - Setembro - 1862)

XI
PROGRAMA ELEITORAL

Alves Passos é o candidato da oposição nas eleições legislativas que se vão realizar a 23 de Abril de1865. É candidato pelo círculo nº19, que tem a sede em Guimarães e engloba entre outros o concelho de Cabeceiras de Basto. Em Guimarães o administrador do concelho é António Vieira, irmão do governador civil de Braga, José Joaquim Vieira. À boa maneira portuguesa de sempre, os funcionários do governo não têm pejo de porem ao serviço do candidato governamental todas as artimanhas, poderes e munições que possuem.
O “Bracarense” de 15 de Abril de 1865 publica o “Programa do Candidato da Oposição”. Inicia-se com uma pequena nota biográfica: “ Eu nasci na vossa antiga comarca, no concelho de Cabeceiras de Basto, de que hoje sou representante na Junta Geral do Districto. Resido em Braga, onde exerço a minha profissão clínica, e em cujo lyceu occupo (indignamente) a cadeira de Phisica, Chimica e Introdução à História Natural dos Três Reinos.
Desde 1838 tenho ocupado um lugar humilde na imprensa mas apesar de escriptor obscuro diz-me a consciência, e attestam os factos, que nem sempre o inimigo passou incólume por diante da minha pena. Desculpar esta vanglória na bocca do que nunca pediu outra recompensa”.
Faz a seguir a sua profissão de fé: “Sou catholico apostólico romano”. Diz que “estas crenças de amor divino” lhe foram dadas desde menino por “uma mãe cheia de virtudes”.
Conta o que foi o seu exílio após a derrota da “Maria Bernarda” e o golpe da providência divina que foi o encontro em Roma com o Papa Pio IX e o futuro Marechal Saldanha, este também exilado.
Passa então a expor o seu pensamento político, pugnando pela “liberdade com ordem”, mas não consentindo na “liberdade dos cultos, porque assim como não há mais que um Deus, também não pode haver mais que uma religião verdadeira, e eu abomino a liberdade do erro”.
Promete lutar contra a expoliação e desamortização dos bens das irmandades, confrarias, hospitais e misericórdias; pelo cumprimento das promessas, ainda por cumprir, feitas aos convencionados de Évora Monte em 1834; pela descentralização do poder e contra a omnipotência dos administradores dos concelhos – raça moderna de capitães-mores que em tudo se mettem, e de tudo abusam”.

XII
UM EPISÓDIO DA CAMPANHA

A campanha decorreu à boa maneira portuguesa. O governador civil usou de toda a influência e poder que tinha para encurralar o adversário da oposição. Foram tantos os actos e factos registados que levou muitos jornais da região (e não só) a vituperar o procedimento da autoridade do distrito e dos administradores dos concelhos, nomeadamente o de Guimarães. Mas, de todas as tropelias, a que mais magoou Alves Passos foi uma carta do pai do major Vasconcelos, que tinha acabado por falecer após o incidente da “Maria Bernarda”, que o governador fez afixar, pelos seus polícias, em todas as esquinas do círculo, e que dizia: “que é indigno do vosso sufrágio, o cirurgião Manoel Joaquim Alves Passos, que foi a causa da morte – de meu chorado filho – que crivado de balas, no posto de honra e de disciplina, morreu no nefasto dia 8 de Setembro de 1862, em que o mesmo cirurgião (…), depois de embriagar a soldadesca que o assassinou, vos roubou violentamente, Oh Povos, o dinheiro que o suor do vosso rosto, tínheis pago ao Estado.
(…) Quem por Clemência Real volta ao país d’onde fugiu – por ladrão e assassino – não pode merecer o sufrágio dum povo livre”.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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