Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-12-2012

SECÇÃO: Opinião

Timor-Leste, o Desafio futuro…

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Mais tarde ou mais cedo, Timor-Leste estaria na lista… não foi em 2007 por pouco, ficaria portanto a aguardar pela oportunidade….
Ao chegar, dois dias depois da partida, as sensações de outras latitudes… o calor tórrido e sufocante, a paisagem típica. Agreste, árida, seca, as palmeiras, o calor, a luz e como já é característico deste tipo de países, o lixo!
Timor acorda praticamente no século XXI do isolamento de anos. De repente abre-se para o mundo, para um mundo desconhecido, difícil, e cada vez mais confuso, competitivo e desorientado. O desafio é por isso muito maior… Outros países foram construindo os seus caminhos lenta e progressivamente, como Moçambique, Cabo Verde, entre outros, mas neste momento a diferença é óbvia, tiveram mais de 4 décadas para fazer esse percurso, lento e vagaroso, recuperando aos poucos o atraso de séculos e chegando mais perto. Timor-Leste esteve isolado e ao acordar para os caminhos do novo milénio não está claramente preparado para as escolhas que tem que fazer, porque hoje tudo é mais rápido e intenso do que noutros tempos, as respostas e opções têm que ser imediatas, não há tempo a perder, e por isso tem que se saber exatamente o que se quer, o caminho a construir. Exige-se por isso a inteligência de uma Visão, uma Missão a cumprir, um sistema de Valores a construir.
Dados recentes referem que cerca de 23% da população fala Português, sim, o que quer dizer que mais de 70% da população não fala, não lê, nem escreve Português. Língua instituída como oficial a par do Tétum, língua materna. A formação dos professores timorenses das várias áreas científicas feita em língua portuguesa surge como estratégia crucial, uma vez que o ensino passa a ser obrigatório em língua portuguesa, principalmente no ensino secundário. Mas como será feito este ensino se grande parte dos próprios professores não fala português?!....

Quando tentamos contactar e ajudar na formação de professores timorenses que já se encontram a exercer a sua profissão há 5, 10 ou 15 anos, deparamo-nos com as enormes dificuldades ao nível dos conhecimentos científicos, pedagógicos, mas acima de tudo, problemas de linguagem. Não compreendendo, nalguns casos, a língua portuguesa pois falam tétum e o bahasa indonésio imposto durante a ocupação Indonésia. Nos países africanos, nomeadamente em Moçambique, não encontrei tantas dificuldades, uma vez que a população no geral fala português, permitindo uma comunicação fluente. Aqui, há por isso uma mescla de línguas e linguagens diferentes. Uma cultura intermédia entre asiática e qualquer coisa que não se percebe… Línguas impostas que supostamente têm que ser substituídas por línguas que nenhum outro país da região fala. Línguas distribuídas pelas diferentes faixas etárias consoante os diferentes sistemas instituídos ao longo das décadas. E no meio de toda esta confusão, existem as pessoas. Os mais idosos compreendem-nos mais ou menos, os intermédios quase nada, e os mais novos, cada vez mais seduzidos pelo inglês, estrategicamente introduzido pelos Australianos com interesses claros nos recursos naturais de Timor-Leste, nomeadamente o Petróleo.

Díli cresce a um ritmo alucinante. Assim como noutros países, as pessoas são atraídas dos distritos para a capital em busca de dinheiro mais fácil, de melhores condições de vida. Os bairros periféricos crescem… mas grande parte do crescimento económico foi também sustentado pelos internacionais que foram permanecendo no terreno ao longo dos últimos 12 anos. Neste momento, sem o poder de compra de cerca de 2000 internacionais muito bem pagos, certamente que algumas áreas da economia sofrerão grandes quebras, nomeadamente hotelaria e restauração, mercados, etc., claramente inflacionados até então. Um outro desafio a superar…
Novos caminhos e novas provas raiam em breve para este país. A ONU abandona o terreno aos poucos até ao final deste ano. A GNR saiu nos últimos dias. Timor, fica assim entregue a si próprio e terá o grande desafio pela frente de manter a estabilidade, controlar a crescente criminalidade e canalizar o crescimento económico impulsionado pelo fundo do petróleo para os pilares de uma sociedade saudável. Um país sem vias de comunicação, sem escolas e sem sistema de saúde e saneamento básico eficazes não será certamente considerado, sequer, um país em vias de desenvolvimento (minha opinião!).
Assisti há poucos dias (12 de novembro) a uma comemoração em frente ao cemitério de Sta. Cruz que fez lembrar os já 21 anos passados sobre aquele que foi o grito de pedido de ajuda ao mundo, e que foi o iniciar do ponto de viragem para a libertação deste povo – o massacre no cemitério de Sta. Cruz, noticiado nas televisões do mundo inteiro. Trouxe-me à memória imagens e sons de outros tempos que me impressionaram e sensibilizaram há mais de 20 anos. Estando agora presente no local onde tudo aconteceu, o futuro será difícil, mas mesmo assim parece ser mais promissor…

Díli, Timor-Leste

Por Pedro Almeida





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