Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-11-2012

SECÇÃO: Recordar é viver

JÁ CÁ NÃO ESTÁ O NELINHO CARNEIRO, DA RAPOSEIRA

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Partiu inesperadamente

Caros leitores amigos e conhecidos, é com profunda tristeza e grande mágoa que hoje vos escrevo esta crónica.
Há já bastante tempo que digo que não quero escrever mais o obituário de alguém mas, infelizmente, muitas das vezes tenho de o fazer. Se o faço é porque alguém partiu. Alguém que fazia parte das pessoas amigas ou conhecidas da minha infância, algum vizinho da porta ou alguém daquelas famílias que fazem parte das histórias dos meus livros e que, de certa maneira, acompanharam o meu crescimento ao longo da vida até aos dias de hoje. Isto para dizer que, quando escrevo sobre alguém é porque esse alguém me disse muito a mim ou à nossa terra. É nessas alturas que tenho necessidade de transferir para o papel todas essas emoções, ao mesmo tempo que desabafo com todos vós. Não fico sozinha com a mágoa ou a saudade dentro do meu peito.
Londres
Londres
Hoje, meus queridos amigos, sou eu que estou de luto! Sou eu que choro e desabafo em causa própria. O meu marido, o meu companheiro de vida, o meu confidente das horas más e das boas, o pai dos meus três filhos - Carla, Manuel e Alexandra - o avô dos meus netos - Ricardo, Pedro, Francisco, Filipa e o benjamim da família José Afonso - o sogro estimado pelos genros - Dinis, Jaime e a nora Cristina - desapareceu inesperadamente do nosso seio familiar.
Não pretendo aqui fazer a biografia do Nelo Carneiro ao pormenor, pretendo apenas realçar um pouco as suas vivências e as suas qualidades muitas das vezes um pouco escondidas, porque assim era o seu feitio. Inteligente, observador, ironia fina mas, sobretudo, discreto.
S. Pedro da Raposeira
S. Pedro da Raposeira
Éramos muito jovens, eu tinha dezassete anos quando casei com o Nelo (vou chamá-lo assim como o chamei toda a nossa vida). Não vou dizer que em quarenta e três de casamento as coisas foram sempre fáceis, a criar três filhos quase todos da mesma idade, mas conseguimos adaptarmo-nos ao feitio um do outro. Conseguimos ultrapassar todas as adversidades e nunca me arrependi. Educamos os filhos o melhor que pudemos e soubemos e graças a Deus não tenho que dizer nada em desabono deles.
Como atrás dizia, infelizmente, aconteceu o que eu não estava à espera. Não vou dizer aqui, neste jornal a causa ou as causas deste inesperado desfecho. Como cristã tenho de acreditar que a hora dele chegou, embora, não me conforme e, nem ache justo! Só tinha sessenta e seis anos! Ainda tinha objetivos como estar com a família a ver os netos crescer, assim como, continuar a sua investigação sobre tudo que dizia respeito à história de Cabeceiras de Basto e, até aos seus concelhos limítrofes.
Festa da Aposentação
Festa da Aposentação
Vou sim, falar um pouco sobre o meu marido, Nelo Carneiro, sobejamente conhecido no meio como homem inteligente que era. Segundo os colegas do seu tempo e, a palavra do nosso antigo diretor do Colégio, durante uma década, o Reverendo Padre Domingos Apolinário, o afirmou diversas vezes, o Nelo Carneiro ficava sempre dispensado dos exames. Já na escola primária sobressaía, dizia o seu professor Guilherme, da Faia, mais tarde seu colega na Telescola no Arco de Baúlhe. Foi professor com dezoito anos. Deu aulas na freguesia da Faia, na antiga escola do Carvalhal, Arco de Baúlhe e em Refojos, em acumulação. Esteve na Escola da Serra, do Arco de Baúlhe quase trinta anos entre os quais a lecionar aulas da Telescola. Foi um bom professor, segundo diziam os pais dos alunos. Era muito exigente e um perfecionista em tudo o que fazia. Devo aqui confessar que, às vezes me irritava um pouco principalmente quando me corrigia por algo que eu dizia errado. Quando ele me dizia algo sobre uma palavra incorreta eu respondia-lhe:
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“Tens a mania que és professor, mas eu não sou tua aluna”! Que errada estava! Tudo me fez falta. Ele contribuiu para a minha aprendizagem ao longo da nossa vida. Nos últimos tempos pesquizava livros nos sites das bibliotecas nacionais e públicas descobrindo coisas que marcaram séculos atrás para me ajudar nos meus artigos. Quando se sentava no computador a pesquisar, se descobria algo relacionado com os nossos monumentos ou outras histórias importantes da nossa terra, chamava logo por mim para me mostrar. Ele sabia muito bem o “vício” e a curiosidade que eu tinha de descobrir através dos historiadores e escritores sobre os factos importantes que marcaram a nossa terra.
A essa parte, digamos que de historiador privado, foi-se dedicando mais a partir da sua aposentação, em Maio de 1998. Já lá vão uns anos. Quando já tinha deixado a escola de vez.
Curso de Jornalismo do Cenjor com Cesário Borga da RTP
Curso de Jornalismo do Cenjor com Cesário Borga da RTP
Devo dizer que, começou a dar aulas numa época difícil. Naqueles tempos mais propriamente em finais da década de sessenta, em que não havia dinheiro para nada, alguns pais com menos posses, mandavam os filhos para a escola descalços e com a roupa rota, muitas vezes com a cara por lavar e o nariz sujo. Ele levava roupa dos irmãos mais novos para lhes vestir e lavava-lhes a cara e as mãos nalguma levada perto da escola. Antigamente, nem sempre havia escola própria do Estado. para o efeito, eram alugadas casas particulares. Os professores mais antigos, aqueles que passavam a diretores ou professores titulares, acho eu, tinham residência junto à escola onde lecionavam, como era o caso em Refojos, no Campo do Seco, que havia duas.
Na sua juventude, com cerca de 14 anos, participou no cortejo para angariação de dinheiro para a construção daquele que foi o Hospital Júlio Henriques, da Misericórdia. Foi jogador amador, segundo rezam as fotos que tenho. O traje é vermelho e azul, talvez fosse do Atlético. Participou em diversas peças de teatro, realizadas há quase quarenta anos, no teatro que o Colégio de S. Miguel de Refojos tinha ou tem, sinceramente não sei se já acabaram com ele. Participaram entre outros, o Francisco Carvalho (Chico Revolta) e o António do Registo Civil. Era risada pegada durante toda a peça. Sucesso garantido.
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Foi vereador na primeira Comissão Administrativa da Câmara a seguir ao 25 de Abril, entre 1974 a 1976. Fez parte da equipa da Câmara liderada pelo Engenheiro Joaquim Barreto, atual Presidente da Câmara Municipal,como deputado municipal e como assessor da educação. Até ao dia do seu falecimento era membro da Comissão da Toponímia e era também coordenador da Universidade Sénior de Cabeceiras de Basto.
Era grande apreciador e conhecedor de música. Fazia parte do Grupo dos Cavaquinhos da Raposeira participando em várias atuações, entre as quais a que o grupo fez em Rives, na região de Grenoble, em França. Orientava também, a música nos Séniores com a ajuda de todos os colegas e participou algumas vezes nas atuações do Grupo Musical “Os amigos da Adib” nas iniciativas promovidas pela Câmara Municipal e pela Emunibasto.
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Era igualmente um adepto das letras, motivo pela qual contribuiu com várias pessoas para o “nascimento” do Jornal Ecos de Basto a 15 de Julho de 1990, chegando a ser o chefe da redação durante algum tempo.
Gostava de participar e dar o seu contributo e por isso, sempre que pôde fez parte do júri do concurso literário conto infantil de Cabeceiras de Basto. Um concurso de âmbito nacional lançado pela Autarquia.
Enfim, entre alegrias e tristezas teve uma vida bem preenchida. Mas, realmente onde ele se sentia bem e, mostrava que não era o professor de aspeto fechado que vivia num mundo à parte, era sem dúvida, no convívio na universidade sénior com os seus colegas (que, tanto podiam ser colegas de profissão ou não, era igual) e, em especial no convívio da sua família, tanto do lado dos Carneiros, os do Alto do Monte - o tio Diamantino e a tia Maria infelizmente doente e as suas irmãs em França (a Tia Ana já falecida) - como dos Campos (colatrés) da Raposeira.
No Museu de Cera, em Espanha
No Museu de Cera, em Espanha
O meu Nelo gostava de conviver com todos mas, comer na casa da minha irmã Conceição, na Raposeira, do meu irmão Joaquim Campos, em Vinha de Mouros, ou na companhia das irmãs (infelizmente já não tinha o irmão Toninho Carneiro), na antiga casa dos pais há muito falecidos, era para ele uma alegria imensa.
Adorava viajar, assim como eu. Visitamos alguns países e fazíamos dessas viagens autênticas aventuras. Adorou viajar com os netos mais velhos,para Inglaterra,Londres, mesmo que tivesse de comer pizza quase sempre porque os rapazes não sabiam pedir outra coisa. Esta viagem foi a que mais me marcou e, foi a última, que fizémos juntos.
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Caros leitores, podeis ter a certeza que me fazia falta este desabafo. Tinha de escrever sobre o Manuel Carneiro, realçando aqui nesta página do jornal um pouco das vivências e dos contributos, mesmo que simples, que deu a esta terra. Na véspera de ter alta do hospital para vir para casa, acabou de escrever umas quadras dedicadas ao S. Martinho. O meu filho, Manuel Carneiro, que colabora com a Adib, fez a música e ofereceu-a a esta Associação, que a apresentou no 12º Encontro/1º Concurso de Quadras de S. Martinho realizado no dia 11 de novembro, no Arco de Baúlhe, ficando em terceiro lugar.
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Não vou falar mais sobre o Manuel Carneiro. O resto fica no meu íntimo. São as palavras e os gestos dos últimos tempos da nossa vida. Esquecem-se as coisas menos boas e sobressaem as recordações felizes.
A tua família não te esquecerá jamais e, tenho a certeza que os amigos também não!
Até qualquer dia!
Com Otelo Saraiva e Joaquim Barreto, numa festa do 25 de abril
Com Otelo Saraiva e Joaquim Barreto, numa festa do 25 de abril
fernandacarneiro52@hotmail.com
Grupos de Séniores recebidos nos Paços do concelho
Grupos de Séniores recebidos nos Paços do concelho

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