Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-10-2012

SECÇÃO: Opinião

OS CANTARES DOS "CEGUINHOS" E OS DAS DESGARRADAS

O que se escreve passou-se na freguesia e em Gondomar

Há cinquenta e mais anos, acontecimento passado numa freguesia e terras em redor, era relatado pelos cantadores ambulantes.
Como praticamente ninguém comprava o jornal, até porque, a grande maioria, nem que pudesse fazê-lo, não sabia ler, as notícias passavam palavra. Alguns poucos privilegiados possuíam um rádio-galena e nada mais. Assim, era esta a vida pela qual o povo tomava conhecimento do que ia sucedendo, sobretudo dos assuntos que mereciam o epíteto de serem “de faca e alguidar”.
É claro que o estilo musical era o do fado e as letras a tender para o choradinho. Os cantadores, com suas vozes, soluçantes quase sempre, dramáticas quanto bastasse, arrebatavam pequenas multidões que se juntavam frente ao fadista e ao tocador de guitarra (era este o instrumento mais usado), especialmente as mulheres e crianças.
Crimes, catástrofes, usos e costumes, estes devidamente camuflados de ironia e gargalhada, por causa da censura, não fôsse o diabo tecê-las. As mulheres, quantas delas, soluçavam ou choravam copiosamente e, claro, no fim, lá colocavam no chapéu do miúdo que durante a cantoria ia estendendo aos circunstantes, meio tostão ou, quando muito, um tostão (como lá vai este tipo de tempo!).
Recordo, simplesmente e somente, porque era muito pequeno, um fado correu por todos os lugares da freguesia e outros arredores, sobre um “crime horripilante” que teve lugar em Manariz e que consistiu no assassinato praticado por um marido sobre sua mulher.
Outro fadinho de que me lembro, este do tipo social, era o que se referia aos volframistas.
Para situar os actuais leitores destas recordações escritas em memória, na época em que este fado andou muito em voga decorria a segunda grande guerra, aqui no Norte de Portugal, havia uma empresa mineira (alemã)que se dedicava à extracção de volfrâmio.
Este minério era exportado para a Alemanha com a finalidade, dizia-se, de endurecer o aço utilizado no fabrico de material bélico, principalmente de bombas.
Os “ceguinhos” (nome que ficou pelo facto de, no início desta “profissão” de outrora, os cantadores serem os cegos, sobretudo e também os que tocavam) acerca deste tema do volfrâmio e dos volframistas que, naquela já algo recuada época, constituíram uma autêntica “nova sociedade”, isto é, um novo extracto social denominado de os volframistas, dedilharam as suas loucuras exibicionistas em todos os tons.

Então, o tal fadinho, continha, em outra essa quadra que me ficou para sempre na memória (e até a música mas, essa, não sei reproduzi-le por escrito): “E até na Rua Escura/E na Viela dos Gatos!Há volfrâmio com fartura/ Por preços muito baratos”.
Para quem sabe onde é a Rua Escura e a Viela dos Gatos (com este nome era mesmo só para, depois, rimar) e apreciar o fino e inteligente humor popular, sabe onde é que o autor da quadra queria chegar.
Por fim, e ainda relativamente ao volfrâmio, minério então valiosíssimo e que enriqueceu muita gente (naquela altura mais valioso que o ouro), aconselho a quem quiser ficar por dentro das grandezas e misérias que o mesmo provocou, a leitura do romance de Aquilino Ribeiro, precisamente intitulado “Volfrâmio”. Por fim, acrescento que, o autor destas linhas, foi, durante, quinze anos funcionário administrativo da empresa atrás referenciada.
Por isso este testemunho, no que aos volframistas diz respeito, é dado com conhecimento de causa, como tantos outros poderia dar.
Já os cantares ao desafio aconteciam aos domingos de tarde, nomeadamente nos largos junto das igrejas, onde existia ou se construía um palanque de madeira, rapidamente feito com tábuas de madeira de pinho.
Cantava um homem e uma mulher, que improvisavam consoante o caminho que a cantoria levasse, iam molhando as palavras, isto é, entremeavam as quadras com vinho ou receitas (mistura de vinho com cerveja -geralmente preta - e açúcar). Também comiam tremoços e azeitonas e uma que outra sande de presunto, de chouriço ou iscas de bacalhau.
Quando entardecia, já o entarelamento da voz era notório, de tal modo que mal se percebiam as cada vez mais cáusticas letras das quadras.
Formavam-se sempre grupos a favor dela ou dele, consoante as simpatias ou a qualidade poética das letras. Também havia, por vezes, pancadaria, não só ajudado pelos fumos do alcool ingerido como por haver desconfiança, outras, vezes, de que os cantadores estavam feitos, repetindo quadras já conhecidas ou que não respondiam, ou respondiam mal, ao contendor cantante.
Desafio a malta de agora a improvisar durante uma tarde inteira quadras e mais quadras de provocação e resposta! Provavelmente nem um verso sairia, quanto mais quatro! “Homi soit...”.

Joaquim Marinho

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.