Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-10-2012

SECÇÃO: Opinião

UM CABECEIRENSE NA “MARIA BERNARDA” (15 - setembro - 1862)

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IV - ALVES PASSOS

Manuel Joaquim Alves Passos era uma figura grada da sociedade bracarense. Tem uma arma para defender as suas ideias: o jornal “O Bracarense”. Era o seu proprietário e redactor principal. Nascera em 12 de Junho de 1855. É uma folha periódica (bi-semanal), política, literária e noticiosa.
Desde Abril de 1862 que a contestação ao governo do duque de Loulé (Partido Regenerador) se espalha pelo Minho. Inicia-se, como quando da “Maria da Fonte” na Póvoa de Lanhoso. Contestava-se o governo pela sua acção no caso das Irmãs de Caridade e a acção severa “usada pelos exactores públicos na cobrança de impostos. Esta manifestação, contudo, arrastou consigo uma forte contestação religiosa, não ficando claro se a mesma se tratava de uma reacção ao destino dado às religiosas francesas ou se, em alternativa, se tratava de uma reacção ao facto de D. Luís ter a intenção de desposar a filha mais nova do homem que tinha cometido a proeza de ter reduzido os territórios papais à cidade de Roma”. (Alusão ao futuro casamento de Maria Pia, filha do rei Vittório Emanuel, unificador da Itália).
Tocaram a rebate os sinos das igrejas e capelas do Minho. Os aldeãos armaram-se e desceram às sedes dos concelhos. Aos gritos de “viva a Santa Religião” e “Abaixo o Governo” saquearam as repartições de fazenda e os tribunais. Os escrivães da fazenda refugiaram-se onde puderam. Cantava-se “viva Maria Bernarda, com seu lenço ao pescoço, novos direitos abaixo, os quilogramas ao poço”.
A contestação chega a Braga. Alves Passos transforma-se num tribuno religioso, arvora-se como chefe civil da revolta. Mas “cedo testemunhou os intuitos que o moviam. No jornal O Bracarense comprovou que a revolta era uma resposta à política fiscal da administração Loulé/Lobo de Ávila disfarçada de cruzada católica contra os ímpios da capital”. Ao mesmo tempo tenta-se atrair os militares, captar as suas simpatias. Está tudo preparado para

V

O GOLPE…

O governo desconfiava da lealdade das forças militares estacionadas em Braga. Procedeu então à deslocação de tropas fiéis, sob o comando do coronel José Maria Gomes, barão de Palma.
Na manhã do dia 15 de Setembro começou a circular pela cidade de Braga uma proclamação não assinada incitando o povo e os militares à rebelião. Naturalmente que terá sido impressa nas oficinas de O Bracarense e se deverá a pena de Alves Passos. O comandante militar e o governador civil (Dr. Francisco Azevedo Soares) são apanhados de surpresa. Parte importante da guarnição militar de Braga (que de noite fora contactada pelo capitão Macedo, que se tornou o comandante militar da rebelião) sublevou-se.
Dá-se uma reunião de oficiais para tentar resolver a situação. Está presente o barão de Palme e o seu filho, o alferes Joaquim Gomes. Trava-se uma violenta discussão. O capitão Macedo dispara contra o comandante, mas não o atinge. O chefe do Estado Maior, Augusto César de Vasconcelos tenta intervir e acalmar, mas um sargento fere-o numa perna. O tenente revoltoso José Maria Pinto manda fazer fogo. Resulta desta balbúrdia que o barão de Palme é ferido. O governador civil e o seu secretário desaparecem da sala.
Naquele mesmo local os rebeldes nomeiam Alves Passos novo governador civil de Braga.

VI

… FALHADO

No dia 16 as tropas vitoriosas partiram para Barcelos. Procuram novas adesões. O mais importante era o contacto com uma força de Cavalaria que se dirigia de Valença para o Porto. Combinara-se o seu encontro em Barcelos. Mas a força de Cavalaria escolhera outro caminho… Os chefes da “Maria Bernarda” desanimam. Os oficiais sumem-se. O capitão Macedo desaparece. Os sargentos, cabos e soldados têm de decidir por si. Abandonam Barcelos e vão apresentar-se ao comando da 3ª Divisão Militar do Porto. Alves Passos segue o caminho do exílio e interna-se em Espanha.

VII

A REACÇÃO GOVERNA-MENTAL

O ministro do Reino, logo no dia 16 de Setembro, suspendeu as garantias constitucionais em Braga, manda suspender a publicação de jornais. O general José Geraldo Passos é incumbido do comando da 4ª Divisão Militar e do governo civil.


(continua)

Nota: Os extractos em itálico foram extraídos da magnífica biografia “D. Luís”, de Luís Nuno Espinheira de Silveira e Paulo Jorge Fernandes, editada por Círculo de Leitores, 2006.

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