Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 01-10-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (163)

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COISAS HORRIPILANTES

Quando esta crónica sair, e se tudo se mantiver conforme o programado, eu deverei encontrar-me algures na Indonésia e a caminho de Timor-Leste.
Nos tempos que correm, poderá parecer algo de afrontoso, um sujeito como eu dar-se ao luxo de fazer uma viagem desta amplitude.
Muito simples, antes de tudo, é um vício, e, quando se fala de vícios, aquele que os não tiver atire a sua pedra, arremesse a sua pedrada. Uns fumam, outros bebem, outros jogam, e outros ainda que são viciados em coisas bem diversas, que não são para aqui chamadas.
Ao invés de tudo isso, eu sou viciado em viagens, e também na escrita. Este último vício, o da escrita, declarou-se-me muito recentemente, mas parece que está a mostrar-se mais grave que o primeiro.
Se a conseguir levar até ao fim, refiro-me à viagem, será a concretização de um dos grandes sonhos da minha vida. Porquê um tal sonho?
Alguns dos meus leitores já o saberão, mas, para todos aqueles que o não saibam ainda, informo que Timor Leste é a minha segunda Pátria, é aquela onde vivi mais tempo a seguir a esta onde nasci. Estive lá quase três anos, 1967 a 1970.
Naquele tempo, a viagem, para cada um dos lados, demorou quarenta e cinco dias. Desta vez, espero chegar lá em cerca de dezasseis horas.
Algumas linhas abaixo, tocarei no ponto do arrepiante ou do horripilante, mas julgo prudente esclarecer, desde já, que o dinheiro me é muito caro. Não ganho, nem nunca ganhei nada que se possa comparar com o que ganha uma certa elite de gestores e administradores que por cá abundam, muitos deles especialistas em “criar valor” para, a partir daí, formarem os seus próprios vencimentos.
Sobre a criação de valor, leiam-se, por exemplo, duas notícias publicadas nos jornais dos dias 26 e 27 de Setembro de 2012, eu sou leitor do Jornal de Notícias. As notícias a que me refiro têm a ver com o julgamento de um grupo de antigos administradores de uma grande instituição financeira da nossa praça.
Para aqueles que não queiram, ou não possam, ter o trabalho de consultar esses jornais, sempre adianto que a criação de valor, no caso concreto, consistia num engenhoso processo de manipulação do mercado de acções, através de sociedades registadas offshore, as quais vendiam e compravam, em simultâneo, as acções da referida instituição, inflacionando os preços muito acima do seu valor real. Tudo ficção. Os resultados estão aí. Reparem agora nas cotações.
A mim, o dinheiro é-me muito caro, passe a repetição. Eu sou daqueles que nunca ganhou, num ano, aquilo que muitos desses “criadores de valor” ganham num único mês.
Sempre ganhei pouco, continuo a ganhar muito pouco, mas não me queixo, e consigo mesmo fazer economias para viajar e publicar. Tudo questão de equilíbrio de contas. Gastar sempre um pouco menos do que aquilo que se ganha, esse tem sido o meu lema. Eis, então, uma boa dica para o poder político. Mandem bugiar toda essa camarilha de burocratas, melhor, de tecnocratas, que “criam valor”, e rodeiem-se, convidem para os cargos de gestão, aqueles que saibam, que queiram, que se esforcem por adicionar valor.
Para mim, adicionar é diferente de “criar”. Eu tenho muito má vontade contra tudo que seja “criativo”. Há agora uma geração de técnicos da área da economia que não se cansam de falar em contabilidade criativa e engenharia financeira. É a partir destas teses que “criam” o tal valor. Foi com essas técnicas que acções de sociedades que há três ou quatro anos valiam cinco Euros, hoje valem cinco ou sete cêntimos. A diferença é aquilo que se sabe, fica-se em um por cento. Sociedades falidas, sem qualquer dúvida.
Um amigo meu, que exerce uma actividade muito semelhante à minha (Economista, Técnico Oficial de Contas e Administrador de Insolvência), desabafava há alguns dias atrás. Antes de transcrever o desabafo, devo referir que ele presta apoio a um amplo conjunto de associações, umas são IPSS, outras simples associações sem fins lucrativos, e presta ainda apoio a empresas enquadradas no regime normal de tributação, no que respeita a todas as categorias de impostos.
Ele, esse meu amigo, desabafava:
«Eu não percebo, não dá para entender, todos aqueles que mais vivem à custa de subsídios do Estado, associações, cooperativas e mesmo organismos da administração pública, são os que mais pressão fazem para não pagar impostos. Não querem pagar IVA, não querem pagar IRC, fazem contratos de trabalho de curtíssimo prazo, apenas com o fito de criarem as condições para que as pessoas possam candidatar-se aos subsídios de desemprego, isto é uma barbaridade…».
Confesso, muito honestamente, que tive vontade de corroborar a opinião dele, e dar-lhe calor, mas não. Disse-lhe apenas que, muito honesta e sinceramente, pensava que as pessoas que mais vivem à custa do Orçamento Geral do Estado deveriam ser as primeiras a preocupar-se com o pagamento dos respectivos impostos. «Então, onde é que o Estado vai buscar o dinheiro?» - retorqui eu, muito inocentemente!
«Isto é arrepiante, isto é bárbaro. Há por aí uma geração de políticos, e outros tantos ou muitos mais seus seguidores, que nunca fizeram nada que não fosse viver à custa das verbas que lhes vêm do Estado e, quando precisam de comprar uma viatura, ou fazer uma obra de reparação, vêm-me perguntar como é que se pode fazer isso sem pagar o IVA. Horripilante, incompreensível, cambada de oportunistas…»
«Tem calma amigo, vê se consegues passar ao lado. Falta muito para te reformares?» - tentei deitar um pouco de água na fervura.
E parece que deitei, depois de termos lanchado numa confeitaria da cidade da Maia, e mudado de assunto por alguns minutos, falámos, por exemplo, de certas peripécias dos tempos da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, ambos trabalhadores estudantes, despedimo-nos, tranquilos, e fomos cada um para seu lado.
Como alguém uma vez disse: “É a vida!”.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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