Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 01-10-2012

SECÇÃO: Opinião

A Imprensa Cabeceirense

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SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - XIV

UM CABECEIRENSE NA “MARIA BERNARDA” (15 - setembro - 1862)
I
Maria Bernarda é o nome que a história regista para um pequeno movimento revolucionário que se deu na cidade de Braga em 15 de Setembro de 1862 – ou seja – já lá vão 150 anos. Bernarda é um termo sobejamente conhecido como conectado com desordem, motim, revolta, movimento sedicioso, levantamento popular, etc. Já “Maria” leva-nos para outra direcção, como adiante veremos.
Neste movimento sedicioso, parte civil e parte militar, sobressai a figura de um homem que a nós, cabeceirenses, nos diz alguma coisa. É ele Manuel Joaquim Alves Passos, nascido na freguesia de Refojos em 4 de Fevereiro de 1816. Formou-se médico-cirurgião na conceituada Escola Médica-Cirúrgica do Porto e veio exercer a sua profissão para Braga. Ao mesmo tempo era professor do Lyceu Nacional de Braga da disciplina “Introdução à História dos Três Reinos da Natureza”.
Em 1840 publicara já um pequeno trabalho intitulado “Estudos sobre alguns synonimos da língua portuguesa”, editada pela Tipographia de Faria e Silva, do Porto e que mereceu a distinção de ser incluído no famoso “Dicionário Bibiográfico Português” mais conhecido pelo Dicionário de Inocêncio”, no vol. 6 (ano de 1862), em que Inocêncio verberava o seu colega dicionarista conselheiro José Silvestre Ribeiro por ter deixado “com reparável esquecimento de mencionar este tratado, não menos importante, ao que parece, que outros de assunto semelhante”, que o conselheiro apresentou na sua “Resenha de Literatura Portuguesa”.
Curiosamente, Inocêncio não tinha também conhecimento da publicação em 1846 duma outra pequena brochura, de 16 páginas, intitulada “Ao Povo – sobre as águas sulfurosas de Currais, águas-santas da fonte de Nossa Senhora, onde se começaram as novas caldas do concelho de Cabeceiras de Basto”, ou seja, sobre as águas do ribeiro de Currais, em Pedraça, para onde a Câmara na altura projectava a construção dum edifício termal para substituir as muito rudimentares instalações existentes.
O dicionarista corrigiu a falta no nº 16 do seu Dicionário, publicado em 1883 e acrescentado que Passos já tinha falecido.

II
“ MARIA BERNARDA”

Vimos alguns dos sinónimos mais comuns para Bernarda. Mas além destes, e para além de ser uma variedade de pêra, é também a designação vulgar das religiosas da grande família cisterciense, de que a figura magna foi S. Bernardo, abade de Claraval. Centenas dessas freiras tomaram religiosamente o nome de “Bernarda”. (Um dos casos mais conhecidos é o de Maria Bernardette Soubirous, a vidente de Lurdes que, ao tomar o hábito de freira, tomou o nome de Maria Bernarda). Mas o crisma do movimento revolucionário de 1862 deve-se “ao facto de as irmãs Bernardas serem as principais visadas no projecto que motivou aquela rebelião”, como o afirma o Dicionário Etinológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado.

III
AS CAUSAS

Que razões levaram a este motim?
Na Primavera de 1862 o descontentamento lavra nos meios rurais do Minho. Os maus anos agrícolas, novos impostos, a fome, estão na origem do mal-estar. Mas também os sentimentos religiosos estão à flor da pele. O governo tinha decretado a expulsão das Irmãs de Caridade. Foi um conflito mais político do que religioso e que durou de 1858 a 1862. Aquelas irmãs, de nacionalidade francesa, chegadas a Portugal no fim de 1857, prestavam, segundo as regras vicentinas, serviços aos pobres enfermos e distinguiram-se pelos seus méritos durante a epidemia de cólera-morbus que começou a atacar o país em 1856, acolheram na Ajuda as crianças órfãs da terrível epidemia, a quem ministravam instrução. Mas o Partido Progressista e a Maçonaria não viam com bons olhos a acção das Irmãs. Os jornais afectos lançaram uma campanha odiosa. Outros defenderam-nos, proclamando a liberdade religiosa. O governo, enviou o assunto para a Assembleia para que decidisse sobre o cumprimento das leis de 1834 de Joaquim António de Aguiar, o conhecido “Mata-Frades”. O governo francês não gostou e, mesmo sem a Assembleia ter tomado uma decisão, mandou para Portugal um navio de guerra que embarcou para França as freiras francesas (9 de Junho de 1862).
Deflagram pequenos tumultos no Minho. Os camponeses dão vivas à santa religião” e perseguem os agentes do fisco. Armam-se com enxadas, foicinhas, roçadeiras, as alfaias da sua lavoura. O governo, em vez de tentar acalmar as populações, opta por concentrar em Braga grandes efectivos militares, comandados pelo Barão de Palme. Parece que não há confiança nas forças locais: o Cavalaria 9, o Caçadores 3 e o Infantaria 9. E tinha razão.
Mas qual é o papel de Manuel Joaquim Alves Passos?

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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