Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 01-10-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (162)

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A RIBEIRA DA LAGE

A ribeira da Lage nasce na encosta oriental da serra de Sintra e desagua no estuário do Tejo, na extremidade poente da praia de Santo Amaro de Oeiras, percorrendo uma distância aproximada de dezasseis quilómetros.
Eu tenho um fraco muito grande por ribeiras. Perco-me com as paisagens que as bordejam, perco-me a contemplar os peixes e os alfaiates (aqueles alfaiates de que trata a entomologia) e perco-me ainda a imaginar ninfas. A maior parte das minhas ninfas são imaginadas junto de pequenas ribeiras.
A mais antiga que conheço, refiro-me às ribeiras, é a de Penoutas, ou da Penouta, que atravessa o nosso burgo no sentido de poente para nascente, descendo das encostas do monte que lhe dá o nome e desagua no rio do Ouro, junto dos pilares da mais recente travessia da Ponte de Pé.
Aproveito para recomendar a todos aqueles que possam ter alguma curiosidade, que existe um pequeno cardume e uma colónia de alfaiates ali mesmo entre a ponte do Basto e o pequeno açude que lhe fica a montante, peixes e alfaiates tirando proveito da pequena queda de água que cai do açude e da sombra dos perrexis que ali verdejam.
Há pouco mais de dois meses, travei conhecimento, de perto, com a de Painzela. Atrevi-me a fazer o percurso desde a curva de Baloutas, da Estrada Nacional, até à Casa de Pielas. Notava-se que tinha sido cortado, muito recentemente, o matagal que obstruía o caminho, e eu pude descobrir que existe por aquele sítio, entre as vessadas que julgo serem de Pielas e os campos da outra margem, que ignoro de quem sejam, uma travessia pedonal, metálica, e em razoável estado de conservação.
As coisas por ali são mesmo belas. É a natureza em todo o seu esplendor. Porém, e voltando às vessadas de Pielas e arredores, por essas nota-se que há natureza a mais. Algumas estão povoadas de carvalhos americanos e freixos, com plantação devidamente ordenada, é caso para dizer-se que, do mal o menos. Mas há outras, a maioria, que estão uma autêntica selva de mato e arbustos de toda a espécie.
A minha paixão mais recente vai então para a ribeira da Lage. Foi neste Verão, durante um passeio pela marginal que liga Lisboa a Cascais, e estacionei junto à praia de Santo Amaro de Oeiras.
A primeira coisa que fiz foi dirigir-me para as margens daquele curso fluvial, ainda não sabia o seu nome, e reparar para o aspecto da água que corria. No momento em que abordei o local pela primeira vez, a água corria, coisa que só se verifica em determinados períodos do dia, e da noite, devido ao facto de a foz da ribeira ser influenciada pelas marés.
A água corria, transparente, e viam-se peixes, cardumes, de vários tamanhos e espécies. Não sei se eram de muitas ou poucas espécies, mas pelo menos de mais do que uma, isso eram de certeza.
Este facto, o de ver uma ribeira com um caudal tão reduzido, convém não perder de vista que se estava em finais do mês de Agosto, com a água tão limpa e peixes a navegar, despertou-me de imediato a curiosidade, e a primeira coisa que fiz foi perguntar a alguém, que por ali andava, qual o nome da ribeira.
«É a ribeira da Lage, nasce em território do concelho de Sintra, atravessa todo o concelho de Oeiras e desagua aqui, tem duas ribeiras suas afluentes, a ribeira de Talaíde e a ribeira de Leião. Repare que o Marquês de Pombal pensou construir um canal que fosse navegável desde aqui, da foz, até ao seu palácio, que fica lá em cima, junto ao outro palácio onde, até há bem pouco tempo, funcionou a Câmara Municipal».
Foi a resposta do meu interlocutor, extremamente simpático e prestativo. «Muitíssimo obrigado», agradeci eu tentando retribuir a simpatia recebida.
Subi então pela margem esquerda. No início, tem parques e jardins de ambos os lados. Andando uns quinhentos metros, chega-se junto do Palácio. Este não pode ser visitado, nos espaços interiores, porque ali funciona, actualmente, o Instituto Nacional da Administração. Os jardins são soberbos e encontram-se razoavelmente tratados.
Nos espaços que agora são jardins classificados como monumento nacional, foram, nos tempos de Sebastião José de Carvalho e Melo, quintas onde se produzia vinho, azeite e cereais. Ainda lá se encontram, tudo como museu, um lagar de vinho, um lagar de azeite e a casa da malta.
A água da ribeira da Lage, nos tempos do Marquês de Pombal, era utilizada para rega de toda aquela extensão de terrenos e ainda para fazer mover os rodízios do lagar de azeite e dos moinhos para moagem dos cereais. O seu projecto de construção do canal para navegação, esse é que nunca chegou a concretizar-se em pleno.
Porém, chegou a ser iniciado a partir da foz para o interior, e há quem critique, com alguma severidade, o facto de, para a construção de um percurso pedonal ao longo da costa, terem destruído as estruturas que, inacabadas, se encontravam ali desde os tempos de glória de Sebastião José de Carvalho e Melo.
Falando agora propriamente do Marquês, e buscando conhecimentos do meu livro de história da quarta classe, devo referir que ao tempo em que ele vivera em Oeiras ainda não deveria ser possuidor daquele titulo nobiliárquico, pois que, e como consta do meu livro de história, eu aprendi a referir-me ao Primeiro-Ministro de D. José como sendo: “Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde Oeiras e mais tarde Marquês de Pombal”.
Efectivamente, consultando a biografia do Marquês, conclui-se que ele fora o Primeiro Conde de Oeiras, recebera o título em 1759, bastante tempo depois do seu exemplar desempenho na sequência do terramoto de 1755. Que recebeu o título de Marquês de Pombal em 1769, dez anos passados desde que recebera o de Conde de Oeiras.
Não há qualquer dúvida de que o Marquês de Pombal foi um dos mais ilustres políticos de toda a nossa história. Homem de ideias largas, veja-se o traçado da cidade de Lisboa, tudo feito na sequência do terramoto que a devastara, e a criação da Companhia para a Agricultura das Vinhas do Alto Douro, dois exemplos apenas.
Mas, como não há bela sem senão, também deixou os seus pontos negros, o mais marcante foi a questão (massacre) dos Távoras. Razões?...

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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