Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-09-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (161)

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A BICHA DA FOME

Eu, muito honestamente, não sei se serei capaz. Mas, uma coisa prometo, sem dúvida: é que irei tentar. Refiro-me a um projecto de peça teatral em que se dê vida a algo que eu próprio testemunhei, e de que apenas me lembro graças às memórias de minha mãe.
Naquele tempo, a Praça da República, em termos de espaço, era aquilo que todos conhecemos hoje. Porém, em termos de arranjo urbanístico, era bastante diferente. A Estrada Nacional 205, que a circundava pelos lados de norte e poente, curvava ali em frente do Pelourinho e atravessava a ponte do Basto passando entre o edifício da Pensão Moderna e a estátua do herói que dava o nome à ponte, curvando de novo à esquerda e seguindo na direcção das Acácias, do Pinheiro, onde passava por baixo de uma “cal” (passagem hídrica metálica superior), e dali seguia para o Arco de Baúlhe.
A Praça era, toda ela, em terra batida, e ao centro tinha um arruamento, uma alameda sem álamos, que descia, em linha recta, desde o Pelourinho na direcção da entrada para os claustros.
Decorria o ano de 1946. Eu, que tinha nascido duas semanas antes da data em que fora declarado o fim da Segunda Guerra Mundial, tinha a idade de pouco mais de um ano, era um menino de cabelos louros e ondulados, muito irrequieto, quando estava ao colo queria ir para o chão, e quando estava no chão queria subir para o colo, testemunhei todo aquele aparato que se estendia desde a porta onda agora funciona a Policia Municipal até à palmeira que se situa pela parte de trás do Pelourinho, em duas filas compactas de gente, quase só mulheres, aqui e ali um homem, muitas crianças, umas ao colo como eu quando estava ao colo, outras pelo chão como eu quando estava no chão.
Tratava-se do racionamento da quase totalidade dos bens alimentares, muito em particular o milho. Quanto a este cereal, que era a base da alimentação da generalidade da população pobre, pão e caldo, ao menos, era a máxima que se pronunciava quando se pretendia referir que alguém não passaria fome.
Em concreto, sei, de fonte segura, que a minha mãe tinha direito a senhas que lhe davam para comprar três quilos de milho, isto é, quilo e meio por pessoa maior de idade. A minha família, quando eu tinha um ano, era constituída por três pessoas, sendo eu menor, tinha direito aos referidos três quilos.
Depois, era levá-los ao moleiro, trocá-los por farinha e cozer o pão. Três quilos de farinha, descontando ainda a maquia, deveriam dar uma broa que não fosse muito grande.
Tal era a ânsia de chegar próximo dos funcionários que distribuíam as senhas, que as pessoas se acotovelavam, e não raros eram os momentos em que havia mesmo confrontações de facto.
A entidade responsável pelo racionamento era a Intendência Geral de Abastecimentos, e a outra, que procedia à distribuição das senhas, era a Comissão Reguladora. O seu representante em Cabeceiras era o Senhor José Gonçalves Pereira, mais conhecido por Zé Russo, que morava na Quinta da Mata, e tinha a fama de ser extremamente severo e dotado de modos pouco delicados.
Diz a minha mãe que havia mulheres grávidas, em fim de tempo, e outras com crianças de muito tenra idade ao colo, que aguentavam horas na fila, debaixo de sol ardente, quando era de Verão, e de chuva ou de frio, quando era de Inverno.
Que, quando alguma tentava ganhar um lugar na fila, o Russo berrava, de lá do fundo da sala, alapado no seu cadeirão, sempre com os seus modos de autoritário e duro: «lá para trás».
O Senhor José Gonçalves Pereira exercia as funções de Chefe da Fiscalização da Comissão Reguladora de Abastecimento e, no desempenho de tal cargo, consta-se que fazia buscas frequentes, junto dos proprietários, para indagar das possibilidades de fuga ao registo dos bens produzidos.
Vai há pouco mais de um ano que me cruzei, em pleno Campo do Sêco, com a Irene do Marceneiro, da Cruz do Muro. Não me lembra, em concreto, de qual terá sido a razão do início da nossa conversa, mas parece-me que tinha a ver com uma das passagens de um livro meu. E ela, a Irene, contou-me uma história, muito curtinha, que encaixa perfeitamente no corpo desta crónica.
Com a devida vénia, passo a referi-la no essencial. Tem a ver com o período a que me venho reportando e com a pessoa do Chefe da Fiscalização da Comissão Reguladora de Abastecimento. A Irene do Marceneiro diz que não sabia lá muito bem porquê, mas que um grupo de lavradores, dos lados de Pedraça e de Cavez, resolveu fazer uma espécie de cortejo de oferendas em favor do referido Chefe da Fiscalização, assim como aqueles, embora em ponto mais pequeno, que se faziam para o Asilo ou para o Hospital. Isto no tempo em que o Russo se encontrava no pleno exercício do seu cargo.
Que do cortejo faziam parte alguns carros carregando pipas de vinho. E que, pelo menos na frente de uma destas, na frente da pipa, bem visível por cima do jugo da junta de gado que a puxava, se podia ler o seguinte cartaz: “É vinho da Carrapata, é do bom e vai para a Quinta da Mata».
Como diria o Senhor Fernando Pessa: “E esta, Hein!?”.
Na bicha (na enorme fila) da fome, eu era muito irrequieto, quando estava ao colo queria ir para o chão e quando estava no chão queria ir para o colo. Quando estava no chão só estava bem a esgaravatar na terra, as mulheres que estavam atrás ou à frente da minha mãe diziam, por vezes: “que raio de rapaz tão desinquieto, se fosse meu deitava-o ao rio, abaixo da Ponte de Pé, quando fosse a passar por lá”.
A minha mãe respondia: “vire mas é para lá essa boca, ia agora deitar o meu rico menino ao rio?”.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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