Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-08-2012

SECÇÃO: Opinião

A Imprensa Cabeceirense

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SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - XIII

O APÓSTOLO DE BASTO (1917-1918)
No começo do ano de 1917 a guerra continua a assolar a Europa, com todo o seu cortejo de dor, sofrimento, miséria. O governo português, numa tentativa para evitar a perda do Império Colonial, junta-se aos aliados e manda os seus soldados – carne para canhão – para as selvas africanas e matadouros da Europa. O povo geme debaixo dos pesados sacrifícios que lhe são impostos. Até o pão é escasso e caro. Politicamente a confusão impera. A igreja que, desde a implantação da República em 1910, é vítima duma acirrosa perseguição, sente-se impotente no cumprimento da sua missão. Calaram-se os sinos das igreja e capelas, proibiram-se as procissões e os actos de culto solenes. Para administradores dos concelhos são escolhidos os jacobinos que mais se notabilizaram contra a Igreja. Olhos sagazes vigiam os passos dos sacerdotes. O cardeal e alguns bispos são expulsos das suas dioceses. Muitos párocos escolhem o caminho do exílio (no nosso concelho são conhecidos os casos do Padre Firmino, do Padre Severiano de São Nicolau e do Padre Pina, de Painzela).
A Igreja teve de reagir. A reacção vai começar no norte e vai começar pela arma da Imprensa. Surgem os jornais de índole religiosa, os boletins paroquiais. Um dos primeiros a surgir é “O Apóstolo de Basto”. Intitula-se “Boletim Catholico Semanal de S. Nicolau – Cabeceiras de Basto”. Tem 4 páginas, a 5 colunas, com formato inferior ao dos semanários normais. Sai às 5ª feiras e publica-se com a “permissão da autoridade eclesiástica”. Não conhecendo o 1º número, não sabemos quem seriam os seus responsáveis. Conhecemos os exemplares publicados a partir do nº 22, (ainda que erradamente numerados), datado de 5 de Agosto de 1917. Nesta data se infere que António Joaquim Nogueira era o proprietário e editor, António da Silva Braz era o administrador e que o director era o Padre José de Araújo, ou seja, o conhecido “Padre Zé de Gragilde”, monárquico convicto e correligionário do Padre Domingos. A redacção e administração estavam sedeadas em S. Nicolau e a composição e a impressão eram feitas em Braga.
Começou assim este semanário religioso a publicar-se no início de Março do ano de 1917 e vai manter-se até ao nº 102, de 6 de Outubro de 1918, tendo mantido até ao fim aqueles dirigentes. Desapareceu sem dizer água vai. Teve uma pequena alteração quando se iniciava o 2º ano de publicação. Nas semanas anteriores saíra com um formato mais reduzido e com um tipo de letra menor e com algum atraso.
Regressa, renovado, com o nº 45, datado de 3 de Março de 1918, anunciando que a sua impressão passa para a tipografia César Piloto em Lisboa e anuncia novos preços de assinatura, medida necessária dado que o preço do papel quintuplicara num ano. Tem um sistema de assinatura diferente dos outros semanários pois o custo deste diminui conforme o nº de exemplares que o assinante queira receber. Assim a assinatura anual custa 500 reis, mas se fizer uma assinatura de 6 ou superior, por cada exemplar pagará 6 reis. Mas a grande novidade é que a tiragem média de “O Apóstolo de Basto” era de 22.000 exemplares.

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Não eram só temas religiosos a que este semanário se dedicava. Focava mais os aspectos morais, ilustrados com episódios por vezes chocantes; lamentava as perseguições ao clero, como foi o exílio do bispo do Porto, D. António Barroso; lembrava a presença dos capelães-militares nos campos de batalha; abordava temas de agricultura. Não esquecia, é certo, o Evangelho de cada domingo e a vida dum santo. Tinha um artigo de opinião que abordava temas candentes. Tomamos nota de um que, ainda que se intitulando “ o padre não deve manter-se na política”, não deixava de afirmar: “ o padre deve combater os maus políticos” ou “os padres têm obrigação de trabalharem com ardor nas eleições de deputados e das câmaras, porque assim lh’o ordenou o Sumo-Pontifíce Pio X”.
Regista-se aqui a pequena notícia que o “Apóstolo” deu sobre as aparições de Fátima: “Três pastores de Fátima, na Extremadura, dizem ter visto no céu uma senhora de extrema beleza”.
Desapareceu, como dissemos, em Outubro de 1918. Existem razões para isso. A situação política em Portugal mudara. No poder está Sidónio Pais. Reataram-se as relações diplomáticas com a Santa Sé, os bispos exilados regressaram às suas dioceses, os padres às suas paróquias. A guerra terminara. Os sinos já repicavam alegremente, as procissões já podiam novamente sair à rua. O povo católico estava contente.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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