Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-08-2012

SECÇÃO: Recordar é viver

ERGUIDA DO PAU NO ARCO DE BAÚLHE

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Uma tradição recuperada a não perder

Caros leitores,
Já por diversas vezes vos falei de algumas tradições da nossa terra que, graças aos autarcas da Câmara Municipal e das Juntas das Freguesias, com o apoio do povo bairrista, orgulhoso das suas origens, têm sido recuperadas nos últimos anos. Nesse sentido, tem sido feito um grande trabalho de pesquisa e levantamento dos usos e costumes de cada uma das freguesias, seja ao nível do património material ou imaterial, como por exemplo: o levantamento de moinhos existentes (Moinhos de Rei, Abadim) e outros, onde ainda se podem ver vestígios das pedras e madeiras apodrecidas; os lagares do azeite, onde antes a azeitona era prensada com “cestas” à mão pelos homens que habitualmente trabalhavam nos engenhos do azeite. Hoje, o azeite já é fabricado com eletricidade, recorrendo aos computadores para medir as temperaturas, o grau de acidez, enfim, tudo feito com grande rigor tendo em vista o cumprimento dos padrões de higiene e segurança alimentar exigidos pela lei.
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Ainda me lembra muito bem do lagar de azeite, aqui na freguesia de Refojos, pertença, salvo erro, ao Seminário de Braga, junto à casa dos caseiros e, junto à ribeira de Penoutas. Servia para os caseiros e para as pessoas da terra moerem, pagando naturalmente as taxas, ou como na altura se dizia, a maquia, em azeite.
Como atrás referi, fez-se e continua a fazer-se a recolha de tradições nomeadamente ao nível do património imaterial, através da recolha de músicas, danças e folclore desta terra de Basto, associadas às diversas atividades levadas a cabo durante as quatro estações do ano, tais como as modas populares cantadas nos campos durante os trabalhos agrícolas, ou seja, as “serviçadas” (semeadas do milho, das batatas, do feijão, as sachadas, as vindimas ou as desfolhadas). E durante o mês de Janeiro, o cantar do Reis. Normalmente estes trabalhos eram acompanhados ao som de música alegre, cantada pelo povo trabalhador. Com sorte, se alguém tivesse uma concertina, no final “atacavam” com força nas teclas e nos botões do “aparelho”. Mas, nem todas as pessoas tinham a possibilidade de ter um tocador à disposição. Então, eram as próprias gargantas das pessoas da casa que trabalhavam e cantavam ao mesmo tempo que iam manobrando as enxadas na terra, “picando as seitas” em que o arado não conseguia chegar perto, ou o “gadanho”, enquanto tiravam o estrume da corte do gado. Coisas que, atualmente, já quase não se fazem. Nos nossos dias, é tudo feito com as máquinas, que com o passar dos anos foram substituindo o homem em muitos dos trabalhos agrícolas. Pode-se dizer, sem grandes dúvidas, que um só homem com as ditas máquinas consegue fazer todas as tarefas sozinho. Consegue manobrar a máquina, trabalhar a terra, semear, cortar o milho ou outro cereal, apanhá-lo, limpá-lo e, ao mesmo tempo, ensaca o produto e deita fora a palha já atada. Com as novas tecnologias lá se vão perdendo os usos e costumes tradicionais. Mas, como diz o outro, nem só de tradição vive o homem! Há que tornar rentável e diminuir os custos com o trabalho manual. Por esse motivo, para que não caia no esquecimento e as camadas mais jovens conheçam as tradições dos seus avoengos é que os responsáveis da nossa terra se esforçam, todos os anos, em demonstrar “ao vivo” as lavouras e outras atividades do antigamente, utilizando os artefatos e os animais deste tipo de trabalho.
Meus amigos, como sempre, disperso-me do assunto que venho “falar” mas que também tem a ver com as tradições, estas mais lúdicas como é o caso da “erguida do pau” no Arco de Baúlhe. A “erguida do pau”, tradição que está a ser revitalizada, era muito usual antigamente e servia para divulgar antecipadamente as festas importantes a realizar nas diferentes freguesias do concelho, como são o caso, das que mais conheço, as freguesias do Arco de Baúlhe e da Faia.
Já uma vez assisti a um cortejo na linda Vila do Arco e fiquei admirada. Foi por acaso, nem sabia que havia festa. Ainda faltavam alguns dias para a Senhora dos Remédios - que agora se realiza no primeiro fim de semana de Setembro mas que antigamente, era no dia oito desse mês - e a população realizou o ‘levantar do pau’ no largo da Serra, envolvendo a comunidade, reavivando uma tradição antiga e em clima de grande festa anunciando tão importante romaria para as gentes não só do Arco como da região.
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Perguntei ao caro Adriano Valente, funcionário da Caixa Geral de Depósitos - natural do Arco de Baúlhe, membro da comissão organizadora das Festas e Romarias do Arco de Baúlhe e membro da Junta do Arco de Baúlhe - e ao senhor Joaquim Pereira Magalhães de S. Martinho, da mesma freguesia que me explicassem este ritual que acontece nas freguesias do Arco de Baúlhe e de Vila Nune.
Esta tradição tornou-se visível há mais ou menos doze anos, mas já é muito antiga. Talvez mais antiga que os nossos avós, disseram-me eles. De então para cá, umas semanas antes da Festa da Senhora dos Remédios, a população prepara a erguida do pau da bandeira. Para tal, vai-se cortar um pinheiro bastante alto e esguio, cedido pelo senhor Gaspar Roby, filho da senhora Viscondessa. Uns dias antes desta festa que, anuncia a romaria da Senhora dos Remédios, o pinheiro é descascado e posto a secar. No dia do levantar do pau, o pinheiro é transportado até ao centro da vila, de onde segue em cortejo até ao largo da Serra.
Este dia tornou-se um acontecimento importante no Arco de Baúlhe, disseram estes meus dois amigos, o Adriano e o senhor Joaquim. É uma festa muito bonita! Este ritual é preparado com muito entusiasmo e implica a realização de um cortejo. Um carro de bois transporta o pau com uma bandeira na ponta e é ladeado por populares vestidos a rigor, à moda antiga, à moda das lavradeiras.
O cortejo realiza-se da parte da tarde. As pessoas que participam trajados à moda antiga, desfilam organizados pela Rua do Arco de Baúlhe em direção ao lugar da Serra, seguidos por muitos populares que se associam e percorrem o trajecto com grande alegria e um grande e saudável bairrismo. O pau é colocado na parte mais alta do Largo da Serra.
Segundo os meus amigos atrás citados, a “erguida do pau” termina com uma festarola, ou seja, uma sardinhada promovida ou por algum proprietário ou por todos aqueles que se quiseram associar. Geralmente há já os costumeiros que, se envolvem nestas andanças.
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Mas festa que é festa, só o é acompanhada por música. Para o efeito, a organização recorre aos altifalantes que ao longo do cortejo e uma vez no local da festa vão tocando música popular e animando o público presente.
Vem muita gente de fora para assistir a esta tão peculiar tradição.
De referir ainda que ao longo do cortejo são transportados várias oferendas, em géneros, dados por todos aqueles que desta forma, querem contribuir para o grandioso leilão, através do qual se arrecadam receitas para ajudar a custear algumas das despesas da Festa da Senhora dos Remédios. Acredito porém que, por muita boa vontade que haja, só o leilão não deve chegar para organizar tão importante Festa que, cada vez cresce mais, como podem verificar todos os que lá vão, ou moram perto.
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Como atrás referi, depois do grande leilão, habitualmente a festa continua no Largo da Serra, animada até à noitinha.
É para nós, principalmente para os que mais sentem a nostalgia das coisas do passado, uma satisfação assistir ao retomar de uma tradição tão à moda do nosso povo. Um povo lutador, orgulhoso da sua terra e das suas origens, bairrista quanto pode que, não se deixa “pisar” mas é capaz de dar a camisa do corpo se for esse o caso. Também sinto um pouco desse orgulho nas gentes desta Vila. Afinal, a minha bisavó Augusta Silva (popularmente conhecida pela marchanta) era de lá e, a minha falecida mãe foi criada com ela quandoficou órfã de mãe, era ainda criança. Não conheci essa bisavó de quem se falava ao serão da nossa casa e, tenho imensa pena!
Palavras para quê, são gentes do Arco de Baúlhe, como já dizia Camilo Castelo Branco!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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