Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-07-2012

SECÇÃO: Recordar é viver

De regresso à escrita

O médico e grande escritor Miguel Torga
O médico e grande escritor Miguel Torga
Queridos leitores, permitam-me que vos trate assim. Quero de alguma maneira, desculpar-me, pelo facto de não “estar com vocês” há já três ou quatro números no Ecos de Basto. Os motivos para esta minha ausência de notícias, nada têm a ver com o meu trabalho e, muito menos com os responsáveis, dirigentes desta Entidade à qual pertenço há vinte anos, por quem nutro um verdadeiro carinho. Penso e, tenho a certeza, que também sou correspondida no mesmo afecto. Este intercâmbio de afectos prende-se também ao facto de eu ter vindo a “acompanhar” o crescimento desta Associação – a ADIB/Ecos de Basto, mais ou menos desde o ano de 1987.
Como atrás ia dizendo, a minha ausência na escrita, deve-se a factos familiares, entre os quais problemas de saúde familiares, como também a mudança para uma nova moradia. Tudo isto, “combinado” deitou-me um pouco abaixo, deixando-me um pouco depressiva. Mas, como sou descendente de um avô - o Zé Colatré que, nada o fazia quebrar, eu também lutei para me endireitar e ir à luta e, nada melhor do que estar no jornal, a contactar com os leitores assinantes e com os clientes das publicidades, enfim, fazendo um trabalho administrativo ao mesmo tempo, de animadora sócio/cultural. Acima de tudo e, principalmente, tenho o apoio dos meus filhos, genros, nora e netinhos que me fazem sentir que vale a pena viver um dia de cada vez.
Neste interregno de “altos e baixos” não tenho escrito mas, tenho lido alguns livros de pequena dimensão que são de uma “grandeza ímpar”. Entre eles está um quase de trazer no bolso e que me está a despertar para o recomeço da leitura dos chamados “bons livros”. Falo do grande Miguel Torga, médico, nascido em 1907, em S. Martinho da Anta, em Trás – os – Montes, portanto um transmontano. Faleceu há precisamente 17 anos, em Janeiro de 1995, com 88 anos. Na realidade, o seu nome verdadeiro era Adolfo Correia da Rocha. Para a sua vida de escritor, usava o nome que é sobejamente conhecido “Miguel Torga”. Estudou em Coimbra, escreveu na “revista Presença” além de, dirigir as revistas “Sinal e Manifesto”. Foi distinguido com vários prémios. Em 1976, o Grande Prémio Internacional de KnoKke-Heist, em 1980 com o prémio Montaigne (Alemanha), em 1989 com o prémio Camões e 1992 recebeu vários prémios “Vida Literária” da Associação Portuguesa de Escritores e Figura do Ano da Associação dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira. Os seus livros foram traduzidos em várias línguas.
Foi considerado um dos mais importantes autores portugueses contemporâneos. Durante muitos anos e na maior parte dos seus livros foi o editor dos próprios.
Toda esta introdução biográfica deste autor único, dono de um estilo literário que consegue cativar até os mais “preguiçosos” em termos de leitura. Por esse motivo e, no seguimento da “conversa” que estou a ter convosco, Miguel Torga conseguiu que voltasse a interessar-me pela leitura de livros “bons”. Este interesse que reiniciei deu-se da seguinte maneira.
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Um dia destes, enquanto esperava por uma consulta no hospital de Braga, entrei na papelaria que está dentro da entrada principal do hospital e para matar tempo, pus-me a dar uma vista de olhos nos livros e revistas das estantes. Observei as capas com títulos chamativos, na minha opinião sem credibilidade nenhuma, mas como somos curiosos por natureza e, queremos dar uma olhadela ao jet-set , à vida da realeza, lá vamos comprando, a verdade seja dita. Como diz o meu marido, estas revistas cor de rosa não nos acrescentam nada. Nesse dia decidi dar uma atenção mais detalhada aos livros de “bolso” e comecei a ler o nome dos autores. Vi vários conhecidos e nesses o que me chamou realmente a curiosidade foi o de Miguel Torga, “Novos Contos da Montanha” que já vai na terceira edição e cujo preço é bastante acessível.
Aconselho vivamente à leitura dos livros deste autor inclusivé este que estou a ler.
Este livro é feito de pequenas crónicas. Não custa ler, podemos sempre parar até porque não é um romance que, nos "obriga" a continuar a sua leitura para sabermos o fim da história. Com este podemos ler aos pouquinhos.
Na leitura da primeira crónica fiquei logo “presa” à maneira clara, simples de boa compreensão que, qualquer pessoa, mesmo aquelas sem grande escolaridade, compreenderiam logo todo o enredo, onde fala da traição, das paixões ocultas, dos ódios, dos amores e desamores, das vinganças, dos contrabandos e contrabandistas, tiros na noites, as crueldades escondidas, as invejas, coscuvilheiras, mortes anunciadas, enfim, um sem número de pequenos contos tão reais que é impossível a qualquer leitor ficar impassível.
Quando comecei a escrever esta crónica do meu recomeço, após um intervalo mais ou menos “forçado”, não era meu propósito alongar-me muito, era mais para vos dar uma “justificação”, porque vocês merecem o meu respeito, mas, acabei por fazer uma crítica literária própria e, até nem tenho habilitação necessária para falar dos livros de tão Ilustre autor Português! É uma crítica que eu faço que me vem da alma! Já conhecia alguns dos seus livros, O Malhadinhas, os Bichos (que dei no 11º ano do curso do noturno com o Dr. Manuel Barroso) digamos que era obrigatório ler mas que todos acabaram por gostar e, agora este o “Novos Contos da Montanha”. Procurem os livros nas livrarias de Cabeceiras de Basto que os encontrarão.
Mais uma vez obrigada pelo interesse em perguntar por mim. Estamos bem e, vou fazer os possíveis para vos “visitar” de três em três semanas nas vossas casas. Espero que os que estejam de férias na nossa terra me visitem durante o mês de Agosto.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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