Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-07-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (159)

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A TESE PATÉTICA DO DR. MÁRIO SOARES

Eu tenho o máximo respeito pelo Dr. Mário Soares. Disso ninguém deverá ter a mais pequena dúvida. Houve tempos até, em que eu fui um fervoroso defensor das suas ideias. Acompanhei, com grande entusiasmo, à distância que as possibilidades impunham, a criação do partido de que ele é apelidado, por muitos, de pai fundador.
Não devo deixar de confessar que, muitas das posições tomadas pelos actuais e mais recentes dirigentes, de há uns tempos a esta parte, me têm desiludido muito seriamente, em particular a sua persistente relutância quanto à criminalização do enriquecimento ilícito. Tal atitude só os coloca mal, a todos, pois que o povo nestas coisas é, e sempre foi, sábio. A explicação para tal relutância só pode ser uma, telhados de vidro.
Seja como for, não sei se o Dr. Mário Soares alinha com essa nova ideologia, por ora dominante no partido, segundo a qual deve ser dada a devida protecção aos chicos espertos, aos fura bolos, bajular os poderosos e mandar às malvas a verdadeira justiça, ou adiá-la para as calendas.
Com aquela porção de bonomia que dizem ser-me peculiar, presumo que o Dr. Mário Soares não alinhará por esse lado. Mas, se alinhar, é lá com ele. Esta minha crónica não tem nada a ver com isso.
Esta minha crónica tem a ver com o programa da RTP1 “Prós e contras”, que foi para o ar na noite do dia dois de Julho do corrente ano de 2012, e o Dr. Mário Soares era um dos convidados, o veterano e mais politicamente qualificado do painel em presença.
O tema do programa era “A roleta russa da austeridade”, e os participantes eram o Dr. Mário Soares, Miguel de Sousa Tavares, Viriato Soromenho Marques e António Esteves Martins. O primeiro tem sido tudo aquilo que se sabe, deixando de parte cargos menos relevantes, foi Primeiro-Ministro, Presidente da República e Deputado Europeu; o segundo é jornalista e escritor; o terceiro é professor catedrático nas áreas da Filosofia Social e História das Ideias; e o quarto é jornalista residente junto das instituições europeias, em Bruxelas.
Quanto à natureza e profundidade do tema em debate, os quatro convidados até se mostraram bastante de acordo. Não evidenciaram pontos de vista em que as ideias fossem opostas, ou que, de qualquer modo se chocassem.
Não costumo comungar muito das ideias de Miguel de Sousa Tavares, em particular quando ele se manifesta pela inutilidade de algumas auto-estradas. Mas, no decurso do debate, aplaudi a sua posição sempre que se contrapôs às teses do Dr. Mário Soares. Os outros dois falaram daquilo que sabiam e deixaram as suas opiniões sem causar grande controvérsia, nem no grupo dos quatro, nem quanto ao questionário da jornalista apresentadora, nem mesmo a mim próprio como telespectador.
Uma coisa que me vem irritando, sempre que assisto a qualquer programa, debate, ou noticiário, é a frequência com que se refere “A senhora Merkel”. Não há bicho careta ou papagaio falante que, sempre que se refira àquilo que em qualquer país é designado por Primeiro-Ministro, e na Alemanha se designa por Chanceler, não passe sem ir ao pormenor de dizer “Senhora Merkel”. Parece-me que o efeito é exactamente o contrário do que pretendem tais comentadores ao insistirem no uso indiscriminado do nome da referida senhora.
O debate, em si, não tem qualquer história. Direi mesmo que terá sido um dos piores de toda a série. Tocou-me, e é aqui que eu quero chegar, foi a resposta que o Dr. Mário Soares deu à questão atirada, parece-me que pela própria jornalista, e que era: «qual seria, ou onde estaria, para si, a solução, Senhor Doutor?».
A resposta foi pronta: «muito simples, a solução resolvia-se em minutos, era a Senhora Merkel (mais uma vez a “Senhora Merkel”) mandar que o Banco Central Europeu fizesse mais dinheiro, fizesse notas…». O Dr. Mário Soares soltou a frase com aquele sorriso que o caracteriza.
Aqui, o jornalista Miguel de Sousa Tavares disse o que pensava do método de “fazer dinheiro, fazer notas”, pensa exactamente o mesmo que eu penso.
A este propósito, cumpre-me lembrar, em apenas meia dúzia de linhas, o seguinte: nos tempos em que o Dr. Mário Soares fora Primeiro-Ministro, e em que o Banco de Portugal podia fazer as notas que queria, tínhamos taxas de juro dos depósitos bancários superiores a vinte por cento, e os aforradores esfregavam as mãos de contentes. Em contrapartida, tínhamos uma taxa de inflação próxima dos trinta por cento, é inevitável, as coisas são assim.
Nesse tempo, os aforradores, por cada cem escudos que depositassem no início do ano, obtinham, no fim desse mesmo ano, cento e vinte, mas não faziam contas a que o conjunto de bens que no início do ano compravam com aqueles cem escudos, no fim do ano lhes custava cento e trinta. Só perdiam dez em cada cem! Era a redução automática e sem dor (escondida) dos salários e de quaisquer outros rendimentos reais.
Os sindicalistas desconheciam que os trabalhadores com aumentos de vinte por cento ao ano, em cada ano que passava, tinham uma diminuição de dez por cento. Era a inflação. Elementar, senhoras e senhores que pensam como pensa o Dr. Mário Soares.
Em termos de análise dialéctica, o que me ficou do programa foi o seguinte: de Mário Soares, temos a tese, patética; de Miguel de Sousa Tavares, temos a antítese, polémica; dos outros dois, temos a síntese, razoável, embora discutível.

PS: Eu não sei se será mesmo verdade, mas ouvi dizer que andam a desviar as águas, as nascentes, do território dos Pastos de Maçã. Alerto os compartes, em particular os de Abadim (Abadim tem duas aldeias com direitos, a aldeia da Torre e a aldeia de Santo António) para a urgência que há em que tomem uma atitude com vista a colocar um fim em tais desmandos.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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