Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 09-07-2012

SECÇÃO: Opinião

Era assim antigamente - VI

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Pegando no tema anterior, que referia que nesses tempos em maior ou menor grau todos nós éramos afinal sofredores embora, a mulher por todas as razões fosse a mais sacrificada devido às muitas tarefas que lhe estavam destinadas.
Quando chegava à idade adulta o passo seguinte era o casamento e a seguir como é óbvio o aparecimento do primeiro filhote e era então que surgiam os primeiros problemas que normalmente se arrastavam pela vida fora.
Se o seu homem vivia apenas das jeiras, havia que granjear um quintal, uma tapada, uma leira ou simplesmente um campo para daí tirar algum rendimento que ajudasse ao sustento da família. De manhã muito cedinho a mulher acendia o lume, aquecia a sopa, assava uma sardinha, dava uma malga de caldo ao marido e lá o imputava para ir ganhar o dia.
Quando os filhos eram pequeninos levava-os consigo para o campo por não ter quem ficasse com eles e era um cesto que o colocava muito agasalhadinho enquanto trabalhava a terra. Quando a criança chorava com fome tomava-o carinhosamente nos seus braços, mudava-lhe o cueiro e dava-lhe o peito para depois de sachola em punho voltar ao seu penoso trabalho.
É bem certo o que diz o velho ditado, quantas vezes a mãe canta com vontade de chorar e era assim que por vezes exprimiam a sua tristeza entoando uma cantilena que dizia mais ou menos o seguinte: “Ó minha mãe dos trabalhos, para quem trabalho eu, trabalho prá mãe do céu, que a da terra já morreu”.
Neste tempo a esmagadora maioria do povo trabalhava para sobreviver.
Nesse tempo não havia regalias sociais de espécie alguma, as pessoas tinham que sobreviver pelos seus próprios meios e esses meios vinham simplesmente através do trabalho, por vezes angustiadas com o dia de amanhã.
Com o passar do tempo a família ia aumentando já que não era prática o uso de contraceptivos nem tampouco existia o flagelo dos aborto, embora hoje se diga em tom de gracejo que era por não haver televisão, mas os motivos principais penso eu era o respeito pelos valores ancestrais, éticos e religiosos e diziam de forma resignada que onde comia um, comiam dois ou três, mas não era bem assim porque sustentar uma boca não era o mesmo que sustentar duas ou três porque isso tinha reflexos também no vestir calçar e na própria educação escolar, talvez por isso é que nas gerações antigas muita gente ficou analfabeta.
Mas, uma vez vindos ao mundo na verdade tinham que se criar e assim lá se iam criando da forma que calhava segundo o grau de pobreza de cada família, calçados, descalços à estalada, amontoados, ranheta no nariz, roupa rasgada ou remendada, caldo de couves, caldo de farinha, meia sardinha, broa seca e assim sucessivamente.
Essa forma de viver tornava-os rijos e quase imunes a doenças e muito cedo começavam a ajudar os pais executando pequenas tarefas próprias da sua idade e assim iam crescendo até chegar à idade escolar que nesse tempo era outro problema pois nem sempre havia professores e as instalações onde funcionavam as escolas eram por vezes degradantes ou muito distantes.
Quando as famílias se tornavam demasiado grandes o recurso era tornar-se caseiros numa lavoura qualquer onde o produto do seu trabalho era apenas um terço daquilo que produziam, mas mesmo assim sempre tinham mais fartura e menos preocupação com o dia seguinte.
As lavouras nesse tempo é bom dizer-se que eram totalmente cultivadas e as que mais carros de milho davam mais pipas de vinho e mais cabeças de gado pensavam eram as mais disputadas pelos melhores caseiros.

(Continua)

Por: Alexandre Teixeira

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