Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 09-07-2012

SECÇÃO: Opinião

A IMPRENSA CABECEIRENSE

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SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - XII

O PARDAL (1919-1920)
Terminara a Monarquia do Norte. Pode-se agora gozar com os vencidos. É altura de Cabeceiras conhecer o 2º quinzenário humorístico da sua história (O 1º fora “O Colosso”, em 1896, como se lembram). Este denomina-se “O Pardal”, o que é sintomático do seu desígnio, humorístico e também literário, ainda que, como assinala o dicionarista Daniel Pires, tenha ”sido reduzida a atenção dedicada à literatura”, mas oferece-nos a informação de que o 1º número data de 11 de Setembro de 1919 e indica Francisco da Silva Mendes e José de Magalhães como director e editor, respectivamente. Certo é que as fichas deste semanário existente na Biblioteca da Universidade de Coimbra e na Biblioteca Pública e Municipal do Porto não coincidem. Assim, vamo-nos valer do exame do 1º número que nos dá as seguintes informações: Tem 4 páginas, a 2 colunas, com cerca de 25 cm por 17 cm. Indica como director e administrador Francisco da Silva Mendes (que sabemos ser amanuense da Administração do concelho, solteiro) como proprietário e como editor aparece José de Magalhães, personagem de que não tenho rastreio. A redacção e administração estão sedeadas na Praça da República e a composição e impressão na Ponte de Pé. A assinatura era trimestral e custava 20 centavos (ou seja 200 reis).
Eis como o semanário se apresenta: “pequenino, saltitante, esvoaçando pelo jardim alacre da juventude, “O Pardal” vê hoje a luz da publicidade. (…) “O Pardal”, impenitente cantor dos bosques, será naturalmente tagarela, mordaz, satírico, mas sem ofender nem irritar. O seu fito é chilrear, pipilar, trinar a doce alegria de viver. (…) Queremos rir e fazer rir, queremos divertir-nos, folgar, tornar a vida mais aprazível, quebrando com gargalhadas estridentes a soturna monotonia deste meio”.
Evidentemente que a cerca de 90 anos de distância é impossível identificar os autores e os visados. Nem todos porém: assim lá está o Mamede Falcão “que é o beijinho dos rapazes cá da parvónia”, o Sr. Amado Barros, que é o farmacêutico Arnaldo, “o Evaristo a rifar umas botas com uns 15 anos de bom e efectivo serviço”, “a zanga de Celestino Seara com o Salreta” e “o Lobo que tinha dado à luz um bonito menino”.
Muitos reagiram. Um deles o “Sôr Osório”; outra, uma futura advogada da Praça que dizia “que entre a rapaziada do Pardal estava gente madura”, que os visados negavam, chamando-lhe “delambida”.
Houve um colaborador que meteu o pé na poça. Assinava uma coluna com o pseudónimo de Forou que brindara assim uma menina: “Pequenina, gentil, graciosa, duma bondade sem limites, que alia ao seu fino trato, é o encanto de quantos a admiram. O seu olhar é meigo, e possui a candidez dos anjos”, o que levou o director a admoestá-lo: “não deve fazer arrazoados, que pretendem ser bonitos, a meninas de fina elite cabeceirense, muito principalmente à menina A.O.Q.”.
O próprio director também levou a sua piada quando foi anunciado o seu casamento com D. Gilberta Pereira Basto, filha do conceituado comerciante da Ponte de Pé, Sr. Filipe Basto, a quem se aconselhava que fosse trocar os filhos no dia 30 da feira de S. Miguel.
Logo no nº 3 dá-se uma alteração: José de Magalhães sai. O novo proprietário e editor é Celestino de Araújo Basto. O director assina um pequeno editorial intitulado “Não há medo”, onde afirma: “Prevíamos o barulho surdo, o despeito ferino que os zuilos locais agora estão exibindo”.
Nem a mudança do editor nem a passagem do director Mendes ao rol dos casados alterou a política humorística do quinzenário. As piadas continuavam a zunzir impiedosamente o Salreta, que fora apanhado a beijocar uma lipida celadinha ali para os lados da Ponte de Pé, a horas mortas, o Custodinho que andava a tratar de corrigir a pronúncia, o Morgadinho di-se Paço que usava uma saquinha de seda como qualquer menina. Mas também tinham coisas sérias. O director acusava a exploração que se fazia sentir: “Tudo caríssimo! A maioria do povo não ganha o suficiente para poder fazer face às despesas várias indispensáveis a uma casa de família. Não é só o lavrador que deve vender mais em conta os seus produtos; é também o comércio que leva couro e cabelo”.
O “Pardal” publicou 12 números e desapareceu em 12 de Fevereiro de 1920.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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