Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-06-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (157)

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O DESPOVOAMENTO DO INTERIOR

Em contraposição a um certo coro que por aí se vai ouvindo, eu continuo a ser um daqueles que julgam que a opção pelos investimentos feitos na construção de auto estradas não terá sido das piores. Ao menos, com muito trânsito, ou com pouco trânsito, trata-se de um conjunto de infra-estruturas que estão aí para o futuro. Não foi, como muitos pretendem fazer crer, dinheiro perdido, ou dinheiro deitado fora.
É um facto que as boas vias de comunicação, aliás, todas as vias de comunicação, têm dois sentidos. Do mesmo modo que permitem a rápida chegada a quem se dirige do litoral para o interior, também permitem a rápida saída para quem, seja lá por que razão for, pretende seguir em sentido inverso. Como alguém alguma vez disse, é a vida.
Investimentos mal feitos, e esses sim, esses é que contribuíram com a parte de leão para descalabro das nossas finanças públicas, foi toda a panóplia de subsídios (incentivos), os famosos fundos perdidos, muito em particular aqueles que eram e foram concedidos para a criação de postos de trabalho. Tudo fantasia, conheço bastante bem muitos e variados exemplos. Tão depressa terminava o prazo imposto pelo incentivo, assim desaparecia o posto de trabalho. E era criado todo o enredo para que o desempregado regressasse à situação de subsidiado pela Segurança Social.
Ainda no que respeita às auto estradas, e a propósito das opiniões de alguns dos críticos, onde pontuam aqueles que se referem ao baixo índice de utilização de algumas delas, apenas e como exemplo cito a A7 e a A24. Experimentem, agora, porque já não devem lembrar-se como era dantes, fazer uma viagem, de ida e volta, entre a vila de Cabeceiras de Basto e a cidade de Peso da Régua utilizando as estradas antigas, as Estradas Nacionais 205, 210, 304, 15 e 2, ou seja, Cabeceiras, Arco de Baúlhe, Fermil, Mondim, Campeã, Parada de Cunhos, Santa Marta de Penaguião e Régua.
Façam as contas ao tempo despendido, ao combustível consumido e ao stress acumulado. Penso, muito sinceramente, que até Miguel de Sousa Tavares mudará de opinião relativamente às opções de investimento levadas a cabo, e que ele tanto critica, por alguns dos governos que antecederam o actual.
Não tenho grandes dúvidas de que, se não tivessem sido feitos todos esses investimentos em vias de comunicação, muitos daqueles que agora criticam a sua existência, continuariam a atribuir a falta de povoamento do interior à escassez de boas vias de comunicação.
(Hipotéticos vícios dos contratos de concessão são outra coisa e sobre esses não me pronuncio)
Mas, o problema que se prende com a falta de interesse pelo interior não é atributo dos tempos que correm. Recuando às primeiras décadas do século passado, verifica-se que fora já preocupação dominante da política de desenvolvimento do Estado Novo.
Facto relevante dessa política foi a completa remodelação da estrutura orgânica do Ministério da Agricultura consagrada com a publicação do Decreto-Lei n.º 27207 de 16 de Novembro de 1936, no qual fora introduzido um capítulo novo, totalmente dedicado à matéria, e cujo título era: “Junta de Colonização Interna”. É um extenso capítulo, artigos 171.º a 186.º onde ficara definido, com o máximo de detalhe, o empenho que o governo colocava na dinamização do desenvolvimento agrícola do país, em particular com a entrega livre de terras a casais de agricultores, bastando para tanto que os interessados se mostrassem capazes para desenvolverem a sua actividade em áreas disponíveis do interior do território nacional.
Penso não escandalizar muito as pessoas, em particular as de um determinado grupo, se expressar aqui a opinião de que me pareceria francamente razoável que o actual poder político lançasse mão de algo semelhante àquela extinta “Junta de Colonização Interna”.
Já aqui o tenho referido, mas não me cansarei de o repetir, que é de todo desolador o panorama que se observa um pouco por todo o país. Mas, e para não ir mais longe, tentemos comparar o que era a zona baixa da freguesia de Refojos, o coração agrícola do nosso concelho, as quintas que iam desde o Mosteiro de Dentro até Lameiros. Refiro algumas apenas como exemplo: Calvelos, Pertença, Devesa, Torre, Cruz, Chelo...
Está quase tudo a mato. O único sinal que se vê de algum aproveitamento agrícola dos espaços é um ou outro pequeno rebanho, de ovelhas, semi-abandonadas. Aliás, a observação de rebanhos em tais espaços é, ela mesma, um verdadeiro sinal de abandono.
Há, contudo, e no nosso concelho, alguns sinais que provam o contrário. Refiro-me aos lugares serranos. Siga-se pelos lados de Abadim, de Riodouro, de Vilar de Cunhas, ou de Outeiro, e é gratificante de ver os campos limpos de silvas e de matagal, verdejantes de feno, e ainda algum milho e centeio.
No passado dia vinte e seis de Fevereiro, era um domingo, e subi, pela terceira vez, agora acompanhado, ao Alto da Varela. A ideia era mostrar à pessoa que me acompanhava o deslumbramento que é a paisagem em redor.
Lá de cima do alto, junto da minúscula capela, e com alguma surpresa para mim, pude observar, quando eram onze horas em ponto, o tilintar de chocalhos e campainhas de duas manadas de barrosãs que acabavam de ser soltas das cortes do lugar de Travassô e se deslocaram, pachorrentamente, atravessando todo o lugar e seguindo depois a estrada, em fila contínua, como uma cobra ziguezagueando, no sentido dos lameiros que ficam mais para os lados dos Moinhos do Rei.
Motivado pelo mesmo tipo de sons, dei meia volta, e era outra manada, à mesma hora, que saia das cortes do lugar de Porto d’Olho. Esta encaminhou-se no sentido das Trancadas.
Dois óptimos exemplos.
E o lugar de Travassô, visto de lá de cima, do Alto da Varela, é aquele postal. Ali, não há mato nos campos. Ali, há feno, milho e centeio.

Por: José Costa Oliveira

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