Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-05-2012

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (156)

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O ESPETADOR TIPO

Eu não sei se os únicos culpados serão os bárbaros que idealizaram e fizeram com que fosse aprovado, com força de lei, o novo acordo ortográfico. Penso que não serão os únicos. Há muitos outros que, submissos cegos do mal fadado instrumento linguístico, ainda conseguem fazer pior. Trazem para o acordo aquilo que o acordo não contempla.
Fiquei com os cabelos em pé ao ler o subtítulo de uma notícia que vinha no Jornal de Notícias de vinte e quatro de Março de 2012, a páginas quarenta e um, e que rezava assim: “Inquérito feito a 1328 pessoas revela que mulher de 30 anos é o espetador-tipo da sala portuense”. O sublinhado é meu, “espetador-tipo”, e o subtítulo decorria do título principal que era: “Casa da Música é mais delas do que deles”.
Devo deixar aqui registado que este artigo me deu mais trabalho do que o que é comum. Tive que estudar um pouco sobre o acordo ortográfico, e também penso que toda a gente entenderá o quanto me é penoso, já que sou um convicto opositor ao mesmo.
Muito bem: “espetador-tipo”. Não obstante tratar-se de uma notícia que tinha a ver com a Casa da Música, o primeiro pensamento que me ocorreu: «espetar o quê, na Casa da Música? Depois reflecti (com c): «ah! Ele é o acordo ortográfico!».
Antes de tudo, fui investigar sobre o que se poderia concluir a partir da palavra, que presumo ser um verbo, espetar. Curiosamente, deparei-me com uma espécie de excepção à regra. Não encontrei, no primeiro dicionário que me veio às mãos, o substantivo espetador como sendo aquele que espeta.
Procurei outras, tais como: cortador é aquele que corta; matador é aquele que mata; ferrador é aquele que ferra bestas; ele há muitas mais. E então espetador não é aquele que espeta?
Fui depois àquele dicionário que agora parece ser o mais familiar de muitos de nós, quanto mais não seja, pela facilidade com que se consulta sempre que temos um computador por perto e com acesso à Internet: o “Dicionário Priberam da Língua Portuguesa”, e lá vem que espetador (sem c) é: “1 – aquele que assiste a espectáculo (com c); 2 – pessoa que presencia algo; 3 – aquele que observa algo”.
Mais, espectáculo que é aquilo que o espetador observa, continua a aparecer com o “c” antes do “t”. Curioso! Será que é curioso? Dá-me mesmo vontade de ir ali e continuar com esta conversa mais tarde.
Falando ainda dos bárbaros que deram corpo a esta preciosíssima obra, o acordo ortográfico, eles têm um chefe. E esse chefe tem merecido honras bastante semelhantes àquelas que Almada Negreiros despachava contra Júlio Dantas. Ele, o rei dos bárbaros, chama-se Malaca Casteleiro, é o Prof. João Malaca Casteleiro.
Já li algumas observações feitas ao extraordinário contributo prestado pelo Prof. Malaca Casteleiro ao bom uso da nossa língua mãe, e ao melhor aperfeiçoamento do nosso vocabulário. A última dessas achegas vinha no Diário de Notícias de oito de Fevereiro último, de 2012. Com a devida vénia, tomo a liberdade de transcrever um excerto dessa maravilhosa achega (tem a ver com a sua atitude de mandar desligar os correctores de texto nos computadores do Centro Cultural de Belém). É da autoria de Vasco Graça Moura:
«Num esgar de arrogância despeitada, o Prof. João Malaca Casteleiro diz ao Expresso de sábado (04/02), sobre a minha tomada de posição contra o acordo ortográfico: “É um autêntico disparate e uma atitude mesquinha, revelando espírito de vingança. Quem vai pagar estes custos?”.
Tenho pouca paciência para os trejeitos do autor de um livro intitulado “O Novo Acordo Ortográfico”, que não li, não tenciono ler e achei, de resto, perfeitamente detestável. Num gesto largo e moscovita, deixo essa ocupação para a moleirinha ociosa do Dr. António José Seguro que decerto muito lucrará com isso.
O professor Malaca tem-se especializado em produções de medíocre qualidade, como o famigerado e redutor dicionário da Academia das Ciências, abominável exercício de encolhimento do português contemporâneo, de cuja revisão ele parece agora ter sido dispensado. Mas não vale a pena gastar cera com ruins defuntos. E quanto a quem paga custos e que custos estamos conversados…
Também não vale a pena tratá-lo como interlocutor capaz quanto a questões jurídico-constitucionais relativas à recepção na ordem interna dos tratados e convenções internacionais. Prefiro poupá-lo aos custos desse ingente esforço intelectual…»
Não resisto a repetir aquela parte da frase que se encontra no trecho transcrito, um parágrafo acima: “… abominável exercício de encolhimento do português contemporâneo…”. O acordo ortográfico é, todo ele, isso mesmo, um abominável exercício de encolhimento do português contemporâneo.
Mas eu também fui estudar a Base IV do acordo, aquela que trata da queda e/ou manutenção de um determinado conjunto de consoantes (consoantes, letras do nosso alfabeto que entram na constituição de determinadas palavras, com raízes etimológicas). De facto, não vem lá o exemplo de espectador/espetador. Eu sempre escrevi e sempre li espectador pronunciando o “c” que vem antes do “p”.
Interessante é aquela alteração de sumptuoso para suntuoso, ou sumptuosidade para suntuosidade. A nova forma soa mesmo bem, não soa? “Parabéns prof. Malaca Casteleiro!” Isto, e pela minha parte, entre aspas, não vá o diabo tecê-las!
De facto, ainda os há por aí, os bárbaros…

PS: Tenho por definitivamente confirmado que Teixeira dos Santos deveria ser um grande amigo de José Sócrates. Será que o mesmo vai suceder com Victor Gaspar relativamente a Passos Coelho? A ver vamos…

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

Por: José Costa Oliveira

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