Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-05-2012

SECÇÃO: Opinião

A IMPRENSA CABECEIRENSE

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SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA (1890-1937) - IX

O CORREIO DE CABECEIRAS (1913-1914)
Em 29 de Outubro de 1913 surge este novo semanário na Imprensa Cabeceirense. Vai competir com “O Cabeceirense” que reaparecera dez dias antes. O novo semanário, que passa a publicar-se aos sábados, é pertença de Afonso Henriques Duarte Vasconcelos. Figura ainda como director e editor. A administração, redacção e tipografia estão instaladas na rua Jeronymo Pacheco. A assinatura anual é de um escudo e cinquenta centavos; os portugueses que o recebam no Brasil esportularão três escudos. A publicidade paga-se a 5 centavos a linha.
Conheço a colecção existente na Biblioteca Pública do Porto, que vai do nº 9, datado de 24 de Janeiro de 1914, completamente desfeito, ao nº 29, de 22 de Junho seguinte. Este é certamente o último número, já que nele se lê: “Tendo de retirar-se d’este concelho o Dr. Affonso Henriques Duarte de Vasconcellos, e não podendo portanto continuar a dirigir este semanário, o próximo número sairá já sob outra direcção”. Mas parece que não houve “próximo número”, já que a colecção existente na Biblioteca da Universidade de Coimbra termina também no citado nº 29. (A esta colecção falta o nº 1).
Este “Correio de Cabeceiras” vinha substituir o “Democrata”, órgão do Partido Democrático de Afonso Costa.

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Pelas razões expostas, não tenho conhecimento do teor dos nºs 1 a 9 do “Correio de Cabeceiras”, mas os seus concorrentes da época (O Cabeceirense e o Eco de Cabeceiras, este último a surgir no 1º dia de 1914) dão-nos algumas pistas e notícias. Por exemplo, “O Cabeceirense”, insurge-se violentamente contra um artigo de Álvaro Bastos intitulado “Partidos da República” e contra os comentários relativos à demissão que a Junta da Paróquia de Refojos aplicara ao Prof. Domingos José de Magalhães. Por seu lado, o “Eco” embirrava “com o fatal qualificativo de independente” e ainda contra “o artigo de apresentação, aliás muito elaborado e concomitantemente açucarado, correcto e melífluo, com vantajosas promessas de isenção e desprendimentos partidários”.

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“O Correio de Cabeceiras” intitulava-se “republicano”. Quem estava no poder em Cabeceiras eram os republicanos? Teoricamente sim, mas na prática…eram regeneradores monárquicos. Na Comissão Administrativa pontificava o Sr. Francisco José Mendes, de Abadim, com um grande passado nas câmaras monárquicas. O poder local era apoiado pelo “O Cabeceirense”, que seguia a linha do “Jornal de Cabeceiras” e era considerado pelo adversário como “órgão do Partido Democrático Local” da obediência de Afonso Costa.
Mas a oposição também era “republicana democrática”, muito especialmente o Dr. Florêncio Lobo e o farmacêutico Dr. Arnaldo Barros e eram estes apoiados pelo “Correio” que se indignavam com o lema de Francisco Mendes, de nunca aceitar uma proposta da oposição, fosse “ a compra duma simples bomba de incêndio (ainda não havia bombeiros), nem o pedido do prolongamento da linha férrea do Val do Tâmega”, que a maioria considerou que “Cabeceiras de nada precisa, nadando n’um mar de rosas e n’um rio de felicidades”, de tal modo que Álvaro Bastos, que se sentira injuriado na sua dignidade profissional, frizara, “com certa verve que o antigo partido regenerador local só em Novembro de 1913 reparou que se tinha proclamado a República”. Esta piada prende-se com as eleições locais realizadas em 30 de Novembro de 1913 de que vai resultar uma nova comissão administrativa chefiada pelo Dr. João Falcão de Magalhães – democrático professor – apoiado, vejam lá, pelos monárquicos do Padre Domingos, agora comandados pelo irmão José Maria Pereira. Temos assim o Anti-Cristo, como foi crismado Afonso Costa, apoiado pelos monárquicos cabeceirenses. As voltas que o mundo dá…
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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